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sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Sobre Debates

 

Lá houve debate. Entre os dois candidatos ao cargo de Presidente dos EUA, quero dizer. Muito menos caótico do que o primeiro, o que não era muito difícil. Ou, se calhar, até era; nunca se sabe bem o que vai na cabeça bem (nem por isso) penteada e laqueada (de laca, sem outra maldade) do bulldozer narcísico, irado e vingativo que ocupa a Casa Branca, actualmente. Mas, enfim, conseguiu-se qualquer coisa de decente. O suficiente para os que precisavam de uma pequenina desculpa para não terem vergonha de dizer vêem?, o homem não é tão mau como o pintam poderem dizer vêem?, o homem não é tão mau como o pintam. Tal como aconteceu em 2016. Já os que são exactamente como ele, não precisam de desculpas. Nem de debates.

De resto, Trump foi Trump. Com ele é tudo beautiful people, great guys, sucesso tremendo e billions and billions de lucro, e com Biden é tudo ugly, terrible people, corrupção do piorio, negócios por esclarecer e billions and billions de prejuízo. Enfim, um homem cheio de si próprio, para não dizer uma asneira.

De qualquer forma, olha-se para aquilo e é como enfiar um punhado de areia na boca. A sério que os Democratas não conseguiram mesmo um candidato melhor para enfrentar a Besta? 

Ah, e também houve Abraham Lincoln. E Donald Trump é a pessoa menos racista, já não me lembro se do mundo, se do planeta. Não interessa nada, como tudo o que escrevi até agora. Quem quiser conclusões, veja o debate e tire as suas. Eu nem sou americana e, por cá, já temos problemas que chegue. E debates, também.

E, precisamente, por falar em debates. Depois do susto – ou do boato –, José Gomes Ferreira lá regressou ao “Negócios da Semana” com um tema que devia dar mais debates, mais programas de televisão e mais artigos de jornal: a corrupção. A estratégia de combate à corrupção. Tanta gente assustada com a possibilidade de haver uma tentativa de afastar outra voz incómoda para o regime e nem uma vírgula sobre o que ali se disse. Que eu tenha visto, pelo menos, mas tenho visto pouco, por estes dias. Ainda assim, com a bazuca pronta a disparar – e depois do momento corneto (dois para ti, três para mim e a vida sorri para alguns, os do costume) que foi a eleição para as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional –esperava uma comoção nacional generalizada. Mas não aconteceu nada que causasse espanto. Afinal, Portugal não é nada um país corrupto. Quem o afirma são só os populistas como a Ana Gomes. Os populistas como o André Ventura têm desculpa porque são anti-sistema.

E mais coisas, mas, de momento, não tenho tempo.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

O tal debate


Creio que nunca terei ficado acordada com o único propósito de ver ao vivo, mais ou menos, um debate entre candidatos às eleições americanas. Mas, os tempos são outros e tenho a imensa sorte de dormir muitíssimo bem e, se for caso disso (muito raramente é), retomar facilmente o sono a meio da noite. Pois bem, ontem era o caso. Tinha uma grande expectativa sobre o confronto entre Donald Trump e Joe Biden, o que prova que devo estar a ficar senil.

Partilho das opiniões generalizadas, de que o debate foi miserável. Na verdade, para lá de miserável. Achei péssima a prestação de Chris Wallace, não gostei de ouvir Biden chamar palhaço a Trump – não é que a criatura não seja bem pior que isso e talvez até nem tenha sido um deslize – e surpreende-me sempre a deferência que existe com os descaradamente mentirosos poderosos, a quem nunca se exige, com a mesma assertividade implacável que se reserva aos outros, que provem o que estão a dizer, que documentem, que expliquem. Claro que isso também é difícil, quando se tenta estabelecer o mínimo de conversa com alguém com o perfil do actual presidente dos EUA. Aliás, se nos abstrairmos disso, Trump é, realmente, uma personalidade fascinante do ponto de vista médico – da área da psiquiatria. O nosso protótipo nacional só não se lhe assemelha porque, precisamente, é-lhe mais difícil fingir que é tão ignóbil quanto pretende parecer. Já Trump é o que é, é-lhe indiferente, e lida lindamente com todos os atropelos à verdade dos factos porque criou a sua própria realidade virtual, que os seus apoiantes mais fiéis trazem em ombros sobre as ruínas do que vão esmagando pelo caminho. Só lhe falta mesmo o shoot somebody no meio da 5ª Avenida e safar-se com isso, who cares?

Claro que Trump não foi capaz de assegurar que vai aceitar os resultados das eleições se perder – não vai – nem de condenar os grupos de supremacistas brancos pelos actos de violência; usou o habitual tom jocoso (estou tão preparado, quem é que quer que eu condene) para, imediatamente a seguir, lançar achas para a fogueira que o há-de manter vivo até 3 de Novembro, pelo menos: “Proud Boys, stand back and stand by. But I'll tell you what: Somebody's got to do something about antifa and the left. Because this is not a right-wing problem — this is a left-wing problem”, e os Proud Boys, very proud, já vieram responder, heil trump, quantas cabeças partidas quer? 

É importante semear o caos para, depois, impor a lei e a ordem. 

 


Não vai acabar bem. Não vai acabar nada bem. E é penoso ver o estado a que chegou a América. Mais do que miserável.