Soletra-me.
Na ponta dos dedos,
à flor da pele,
no rasgar do silêncio onde te encontro.
São
cicatrizes de bala, aquelas pequenas marcas aneladas no antebraço e na base da nuca. Teve sorte. É um rebelde.
Passar a noite numa cela, por desobediência, em Espanha ou em Portugal? É tranquilo.
Não imagino, nunca passei uma noite na cadeia. Não me parece nada tranquilo.
Pergunto porquê Portugal. Depois da Venezuela, Argentina, Chile, EUA, Espanha, cidadão do Mundo e de lugar nenhum, sobretudo
depois de Espanha, porquê Portugal? Portugal é mais livre.
Não
me deslumbro. Muitas vezes, essa propalada liberdade rasa o limite da
incivilidade, da imbecilidade, que os nossos brandos costumes toleram, não raras vezes, com uma
subserviência ao estrangeiro (rico, claro) capaz de me agoniar.
Sim, Portugal é um país livre. De uma liberdade muitas vezes puída, postiça, mas liberdade ainda. Se corrompida mais pelos órfãos de Salazar, ou pelo tanto que falta fazer pela paz, pelo pão, habitação, saúde e educação, não sei; mas, hoje é dia de celebração.
Não
sei bem quando é que Marcelo Rebelo de Sousa começou a irritar-me. Por altura
do beijinho na barriga da grávida, já tudo nele me saturava. E, desde aí, em pior. Agora, acho, simplesmente, que o
homem está senil. Não há outra explicação.
Ainda sobre a desobediente Maria Teresa Horta, e apenas porque referi o livro de Patrícia Reis: a leitura revelou-se, afinal, muito menos interessante do que eu antevira. Que pena. Nem sou muito de biografias, mas algumas vidas intrigam-me, interessam-me. "Quando me proíbem, incandesço". É um pensamento magnífico.
É
difícil escrever uma biografia de alguém ainda presente; mais que presente,
amiga – é o primeiro alerta da autora. O segundo, igualmente verdadeiro, Maria
Teresa Horta é a sua escrita, e, na sua escrita, a sua inimitável poesia: são uma só; conhecendo
bem a sua obra, talvez não faça falta qualquer biografia. Seguramente. A vida de Maria Teresa Horta dará um livro, mas não é este.
Tenho uma admiração quase histérica por mulheres desta fibra. Desobedecer arriscando a vida. Vida com maiúsculas, mais do que respirar e habitar um corpo, embora essa também. É curioso como tem surgido tanta gente a amesquinhar o que o 25 de Abril nos trouxe, a digladiar-se entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro, como se não fossem os dois acontecimentos construtores da Liberdade que não havia antes.
O fosso Esquerda-Direita cresce voraz, e há agora quem determine que a repressão imposta pela ditadura de Salazar era coisa quase mansa. Podia-se fazer tudo, inclusive, viajar, ao contrário do que alguns patetas para aí dizem, felizmente, temos o Observador. Talvez porque não éramos o Irão dos ayatollah, cujos esbirros perseguem e espancam até à morte as mulheres que ousam mostrar-se; a PIDE era não era tão má como a pintam e parece que havia respeito. Tenho ouvido coisas espantosas.
Sinto-me
estranha e à margem de tudo isto. Não sou dessa esquerda nem dessa direita, de trincheiras. Não preciso de uma cartilha para decidir o que me parece certo ou errado, e há certos
e errados dos dois lados da barricada. Gosto do 25 de Abril, é um dos dias em que me
reconcilio com este país falido, cujas dores tomo sempre como minhas, que me enraivece na sua mofina e a que não deixo de chamar casa.
A (des)propósito, o que é isso de Sebastião Bugalho, de repente, ser cabeça de lista da AD às eleições europeias? Ouvi Montenegro, e parecia que estava a apresentar uma mascote... não percebo. "Mas para quê, Sebastião"?.
Tarde de chuva, a península inteira a chorar
Entro numa igreja fria como
Um círio cintilante
Sentada, imóvel, fumando em frente ao altar
Silhueta, um esboço
A esfinge de um anjo fumegante
Há em mim um profano desejo a crescer
Sinto a língua morta e o latim vai mudar
Os santos do altar devem tentar compreender
O que ela faz aqui fumando?
Estará a meditar?
Ai, ui, atirem-me água benta
Ajoelho-me, benzo-me, arrependo-me
Esconjuro-a atirem-me água fria
Por ela assalto a caixa de esmolas
Atirem-me água benta
Com ela eu desço ao inferno de Dante
Atirem-me água fria
Ai, ui, atirem-me água benta
Por ela assalto a caixa de esmolas
Atirem-me água fria
Por parecer latina calculo que o nome dela
É Maria
É casta, eu sei, se é virgem ou não depende
Da vossa fantasia
Por parecer latina suponho que o nome dela
É Maria
É casta, eu sei, se é virgem ou não depende
Da vossa fantasia
A
resignação com que aceitamos não sei se a incompetência, a leviandade, o abuso,
a agenda, ou tudo isso em um, do Ministério Público é coisa que não pára de me
espantar.
Quando
José Sócrates foi detido no aeroporto de Lisboa pensei, como outros ingénuos,
que seria impossível uma acção daquelas sem uma acusação sólida, assente em
provas fumegantes: não poderia ser de outra maneira,
arriscar um passo daqueles, mesmo sabendo quão difícil é provar alguns crimes,
como os de corrupção. Passaram quase dez anos e o mais provável é Sócrates não
chegar, sequer, a ser julgado. À parte todos os expedientes jurídicos com a
intenção única de adiar, adiar, adiar, junta-se a bizarra inépcia da acusação, facilmente
desmembrada por advogados competentes, capazes de arrancar a pele à Lei. Há
crimes em risco de prescrever, claro, e com jeitinho, o Estado – ao que parece, somos nós – ainda virá a ser alvo de um pedido de indemnização capaz de
liquidar todos os empréstimos generosos do amigo Santos Silva.
Claro
que as acusações não podem ser tomadas por factos e a justiça faz-se nos
tribunais; mesmo no caso de José Sócrates, em que só os mais ingénuos entre os
mais ingénuos acreditam no era uma vez um amigo tão rico tão rico, que gostava
tanto mas tanto de mim, que, apenas por amizade e generosidade, não só financiava
todas as minhas despesas correntes e incorrentes, como me permitia uso e abuso
de apartamentos em Paris com usufruto até dos humores sobre a decoração. Veremos.
Agora,
a Operação Influencer, que fez cair um Governo, parece condenada a idêntico
fracasso. As escutas a que João Galamba esteve sujeito durante quatro (q-u-a-t-r-o)
anos, por exemplo, serviram para três juízes do Tribunal da Relação de Lisboa concluírem
que o ex-ministro das Infraestruturas pudesse estar, apenas, preocupado com o “Interesse
Nacional” (ainda lhe ficaremos a dever uma estátua). Há erros, especulação e
ruído; o que não há é indícios de favorecimento indevido do tal megaprojecto
Sines 4.0, como não há elementos que possam pesar contra António Costa, malgrado o último
parágrafo, colado com cuspo no famoso comunicado da PGR. E a tudo isto, o Presidente
da República reage com comentários quase jocosos, porque o país é a sua sala-de-estar
e a pátria tolera-lhe todas as indisposições.
Quanto
à Procuradora-Geral da República, move-se hirta e muda pelos corredores da
tragédia, com o enfado dos soberbos, como
se não tivesse a obrigação urgente de nos prestar contas.
Biografia
de Maria Teresa Horta
por Patrícia Reis
Eu também aprendi a gostar da palavra "desequilíbrio"...