Nunca
me canso de Salvador Dalí. Depois de visitar (há alguns anos) a sua Casa-Museu, em Figueres, parece
não sobrar nada que mereça uma alteração de última hora num roteiro de férias
já programado com gula, mas não fui capaz de resistir ao Universo de Dalí, em Bucareste.
É
aquela beleza demente e crua, distorcida, que queima e consome, mas vive e vibra. Tudo
o que preferíamos manter oculto está ali. Mestre do caos. Cirúrgico,
egocêntrico, irritante.
Normalmente,
é a mim que me toca a preparação dos itinerários. Levo sempre um roteiro detalhado,
que, obviamente, raramente consigo cumprir na íntegra: mais olhos que barriga, também posso dizê-lo
das viagens que faço. Entre o que me contam e o que eu descubro, o que programo e
o que me surpreende, a vontade de beber de tudo e o tempo que se precipita totalmente alheio aos
meus humores. Mas não queria falhar a tal DN7C, a famosa Transfăgărășan.
Noventa e qualquer coisa quilómetros de pura beleza, através das Montanhas Făgăraș,
nos Cárpatos Meridionais. Bela até no nome, trans făgărășan, através
das făgărăș, sinuoso como o caminho que leva ao topo, ao lago
Bâlea, a mais de dois mil metros de altitude. Curvas fechadas, infinitas, quedas abruptas, túneis,
a paisagem que se revela e se esconde, que muda dramaticamente a cada volta, um ponto
vermelho aparentemente suspenso no ar, que demora a perceber-se ser uma cabine de
teleférico.
Um caminho para fazer sem pressa, por todos os motivos, embora a condução não
seja tão difícil quanto possa parecer à primeira vista.
Há os encontros
ocasionais (foram mais de vinte, sem contar as crias, não sei se ocasional se aplicará muito bem) com os ursos, entre os impacientes que buzinam e ultrapassam com
risco, e os facilitadores que não se limitam a dar comida aos bichos, mas saem
dos carros e quase montam tripés para a fotografia perfeita. Havia uma miúda de dez ou doze anos, fora do carro, a poucos metros de um colosso daqueles, com uma máquina fotográfica pousada no chão, ensaiando o melhor enquadramento, ao lado da mãe (digo eu), fotógrafa do mesmo calibre. E eu não queria nem que o meu filho abrisse o vidro do carro...
Estas
não são perfeitas, mas são impressionantes – pelo acaso, pela proximidade –; não
são minhas, porque conduzia, mas são da minha gente.
Provavelmente, não pararia se pudesse passar, mas não era o caso. Às vezes, não há como sair da linha.
Desde aqui, com aquele ar quase dócil, parece impossível pensar que podem matar. São animais impressionantes. A mim, bastava-me o susto dos ocupantes do automóvel três lugares à frente do meu, quando um dos ursos se pôs de pé e se debruçou sobre o carro, com as patas nas barras do tejadilho. A dada altura, aquela lenta fila indiana pode tornar-se numa verdadeira armadilhada.
São
muitos os que a ignoram a favor de Prejmer (espantosa, também), mas a igreja fortificada de Harman
guarda uma pequena preciosidade: um rico e admirável conjunto de pinturas medievais que decoram o interior da Turnul Capelei – Chapel Tower, como
descrito nos guias em inglês.
Os
frescos de Harman são notáveis. Dizem-nos os mais antigos e mais bem
conservados da Roménia, e é espantoso como se mantêm: parecem quase
abandonados, naquele espaço diminuto e sereno, de paredes robustas e antigas.
De uma impressionante riqueza artística, detalhados, expressivos, exímios
contadores de História e histórias. A
vantagem de visitar lugares que ninguém vê é o tempo que nos sobra para ouvir.
Não
me lembro de alguma vez ter visitado uma livraria fora de Portugal que não
tivesse Saramago nas estantes; e são muitas vezes, em muitos lugares diferentes.
quarta-feira, 28 de agosto de 2024
“When I watched the horizon, I saw the abrupt,
contrasting transition from the earth’s light-colored surface to the absolutely
black sky.
I enjoyed the rich color spectrum of the earth. It is surrounded by a light
blue aureole that gradually darkens, becoming turquoise, dark blue, violet, and
finally coal black.”
Yuri Gagarin
Não
é bem; mas, por um instante, pareceu-me. É uma das minhas mais belas
fotografias deste Agosto, esse mês que tolero porque me leva a ver o mundo, e céus glaciares, de nuvens espelhadas.
domingo, 4 de agosto de 2024
sexta-feira, 2 de agosto de 2024
De
pé, em frente ao túmulo, deixava os olhos repousarem, pela enésima vez, no rosto
jovem e alegre, imortalizado na lápide de mármore branco. A carícia – fria como
a pedra dura, porque não era homem de emoções – repetida ao longo de quase cinco
décadas como um ritual sagrado, permanecia como uma penitência, redimindo-o, em
parte, da perda que o amputara para sempre. Aos
setenta e dois anos, era um homem amarguradamente só a quem a vida jamais havia
sorrido, com excepção daquele fugaz amor de juventude, quando ainda mantinha a
ingenuidade de pensar que o seu destino lhe pertencia. Idiota. O destino, para
homens como ele, não admitia desvios nem devaneios. Fora escrito e forjado com
a mesma dureza e disciplina que o epitáfio diante de si.
Em
Agosto (também já houve Julho, sim), sofro de uma espécie de síndrome de Drácula. Levanto-me ao pôr-do-Sol e deito-me ao nascer do dia, que é como quem diz,
sobrevivo mal ao calor tórrido de Verão, à minha crónica tensão baixa, às areias de praia ferventes mais as histriónicas colunas de som portáteis e berrarias afins, a homens de chinelos
no dedo pelas pedras da mortífera calçada portuguesa (em qualquer lugar, para ser sincera), e a minha tolerância a
corpos suados é caprichosa: tem modos e luares.
Em vez de me enterrar num caixão de terra profana e negra até que
Setembro acabe e me devolva o frescor dourado de Outono, decidi-me a assistir às quatro
horas da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris. Com algum atraso e alguma batota, já que fui avançando nas partes menos interessantes – não sei se foi
por aí que perdi a lua cheia dentro de um dos anéis olímpicos como numa moldura, no colo da Torre Eiffel: dizem que aconteceu, e eu acredito.
Adiante.
Foi
grande e francesa, a festa. Criativa, arrojada. Exuberante.
Fiquei
ainda mais perplexa com o “quadro” da polémica, naquele contexto. Só nas imagens paradas – e não em todas – que enxameiam as redes pode surgir
uma pequena analogia com essa Última Ceia, e talvez apenas por sugestão.
Continuo a não encontrar grande beleza naquele trecho em particular, mas houve bastante
mais naquela coreografia de Barbara Butch: é absurdo o rumo que aquilo tomou,
com ameaças de morte, perda de patrocínios e o cantor francês que evocava o deus grego Dionísio a pedir perdão
não sei bem porquê.
Parece
que houve outro escândalo com a actuação de Aya Nakamura, que (também) cantou Charles
Aznavour, acompanhada pela banda da Guarda Republicana Francesa: também vi e
foi lindo. Formidáveis, os franceses Gojira, nas janelas da Conciergerie,
onde assomavam representações de Maria Antonieta decapitada.
A
chama olímpica suspensa num balão de ar quente, a cavaleira misteriosa sobre as
águas do Sena, transportando a bandeira olímpica (que, depois, foi içada ao
contrário, parece-me, mas quem nunca, não é?).
A
homenagem às mulheres que marcaram a história de França. E a Marselhesa, no
topo do Grand Palais e na voz de Axelle Saint-Cirel. Magnífico.