quinta-feira, 8 de abril de 2021

Gostava de ouvir Jorge Coelho no “Quadratura do Círculo”. Depois, deixei de o ver na “Circulatura do Quadrado” porque me enervei com a nuance desastrada do título do novo (mais ou menos) programa e perdi a vontade. Caprichos. 

Há quem goste de o lembrar pelo “quem se mete com o PS leva”, ou lá como foi dito. Mas parece haver mais gente a lembrá-lo pelo “a culpa não pode morrer solteira”. Pertenço a esse grupo. Eram outros tempos, em que, não podendo evitar tragédias, ainda havia uma noção mínima de decência.

 



Ihor Homeniuk

Ainda acabamos a deixar provado que foi suicídio, afinal, a causa da morte de Ihor Homeniuk. Miserável, tudo isto.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Pior do que cometer um erro imbecil – acontece a todos – é insistir na imbecilidade do erro. Não sei bem se Francisco Louça apenas cometeu um erro imbecil, ou se agiu mesmo de má-fé. Vou admitir (ou vou fingir) que cometeu um erro. Imbecil. Porque, quando se ouve toda a intervenção da deputada Aline Beuvink – de quem eu nunca tinha ouvido falar até há uma semana – é impossível estabelecer o paralelo que Francisco Louça pretendeu no seu espaço de opinião na SIC. É, no mínimo, a descontextualização (às vezes, ela própria tão descontextualizada, coitada) mais abusiva e absurda que se pode fazer. Depois disso, responder assim ao texto de Henrique Monteiro e, por arrasto, a outras críticas de que foi alvo é espantoso. Há momentos da vida pública inacreditáveis.

A possibilidade de José Sócrates não ir a julgamento causa-me calafrios. Entre outras coisas, não lhe perdoo ter-se deixado apanhar num dia do meu aniversário. E outra coincidência infeliz a propósito do mesmo, que deixo para outro dia. Eventualmente.

Humores pessoais à parte, dita possibilidade parece bem real. Afinal, do que se sabe, não existem provas directas para nenhum dos três crimes de corrupção de que está acusado o nosso ex-primeiro, esse homem tão bafejado pela sorte que mete nervos. Só por isso, pela inveja. 

Sabendo da ambição – impoluta, de resto – do juiz Ivo Rosa por provas inabaláveis, aquela possibilidade assume quase forma física. E dói. Isso, e as mais de seis mil páginas que compõem o despacho mais esperado (desesperado, desesperante, e eteceteras e já sei que não é assim que se escreve) dos últimos tempos. Há-de haver motivos de força maior, justificadíssimos, para tanta página, mas é coisa que me ultrapassa. Mesmo sabendo dessa espécie de vocação jurídica – possivelmente, não só nossa – para comunicar em linguagem adequadamente blindada. Será por isso que facilmente se cruza a linha da (i)legalidade. “Facilmente”, salvo-seja, há que ter contactos e conta bancária adequados ao eficaz exercício da coisa.  

Entretanto, ainda não percebi se o doutor Júdice, à terça-feira, faz comentário político ou coscuvilhice de bairro; com perdão para os bairros, que os há sereníssimos. Não é caso único, honra lhe seja feita, e, se calhar, as duas coisas são indissociáveis e a sonsa sou eu.


 


Todos os dias, ao cair da tarde muito tarde, ao desligar do computador e das luzes do escritório, ao fechar da janela ampla por onde, ainda há pouco, o sol desenhava sombras no papel agarrando a minha mão como quem ensina a escrever, ouço a melodia aguda e clara do canto dos pássaros que nunca antes soube ali vizinhos. Não sei se a ausência prolongada de ruído que veio com a pandemia lhes modulou o canto ou me modulou a alma. Seja o que for, deixo-me ficar ali uns minutos. Encantada. E quieta; não vá qualquer movimento meu, desastradamente, fazê-los desaparecer outra vez. 

terça-feira, 6 de abril de 2021

Pensei que, com ordem governamental para o novo passo na nossa saída precária colectiva, iria a correr tomar um café de rua. Um café-café. Bem sei que já há algum tempo podia tomar um café desses, ao postigo, vertido naqueles miseráveis copos de plástico, ou de cartão, agora, que eu dispenso já desde os tempos da faculdade muito mais dados a essas pequenas-grandes loucuras de momento. Para lá disso, tenho também consciência de – aparentemente, pelo que leio e ouço  ser a única pessoa neste desterro moderno que se revelou incapaz de desencantar um prevaricador que fosse que se me juntasse nesse novo crime de tomar café em pecado, fora das minhas portas e dentro de portas alheias, nas traseiras manhosas de uma qualquer espelunca, com ou sem nome de código. O café, não necessariamente a espelunca. Mas, agora, finalmente, podemos tomar um café à luz do dia, nunca ao balcão, numa esplanada decente. Coisa que imaginei fazer-me tanta falta como o ar que respiro e, afinal, não. O que me torna duplamente desagradecida: sempre podia ter aproveitado o pretexto do café para melhorar a qualidade do ar que respiro libertando-me da máscara durante esse breve momento de prazer. Ainda não foi ontem. Hoje, talvez. Poder ficar sem máscara entre gente estranha e sem olhares reprovadores.

Tenho sido competentemente cumpridora das regras que nos mantêm sequestrados há mais de um ano, a sério que tenho. Mas acho ridículo o uso de máscara em regime de açaime, ao ar livre em espaços pouco movimentados. O facto de, aí, não estarmos legalmente obrigados a usar máscara (partindo do princípio da legalidade dessa obrigação fora daí, e eu parto do princípio de que sim; escrupulosamente) não impede olhares enjoados. E as tão estimadas bocas. Eu lido bastante mal com bocas mal-amanhadas. Daquelas cuspidas para o ar em tom beato (à distância mínima de segurança, isso sim) e insuportavelmente cobarde, porque nunca resistem a uma abordagem directa. 

Adiante. Falava do imenso prazer de me sentar outra vez numa esplanada e tomar um café-café demoradamente e que, atabalhoadamente, decidi desperdiçar. Tonta. É preciso aproveitar os próximos dias com a avidez da urgência. Ando há dias a ouvir as homilias dos principais pivots de televisão subir de tom, alternado entre o entusiasmo com o entusiasmo da vacinação e do cheiro a desconfinamento e a ameaça da subida do mal-fadado érre-tê que nos há-de encarcerar novamente. Ao chegar da terceira ou quarta vaga, ainda não percebi bem. Se a coisa descamba, voltamos ao cativeiro dos dias passados há quase nada. Portemo-nos bem, então.




segunda-feira, 5 de abril de 2021

Gosto de tulipas vermelhas. Mais do que gosto de rosas vermelhas, de que, na verdade, não gosto tanto assim. E, rosas, só se forem realmente vermelhas, enquanto as tulipas podem ser de qualquer outra cor. Mas prefiro as vermelhas. Ou, então, naquele tom beringela escuro e aveludado, no quase negro da noite, o negro do ciúme e da cobiça do romance de Dumas.

Gosto especialmente das tulipas que se colhem preservando o bolbo no final da delicada haste e enchem o fundo largo da jarra de vidro transparente que deixo em cima da mesa grande da sala.

Nunca deveriam ser arrancadas da terra, eu sei. Repousariam aí para sempre na sua imensa luxúria, enchendo os jardins de matizes exuberantes. Espoliadas do aroma ébrio das rosas, perfumam o ar pela opulência das cores. Uma vingança bela e ardilosa sobre os caprichos da Natureza.

São das minhas flores preferidas, as tulipas. Também gosto da simplicidade dos malmequeres. Brancos ou amarelo-vivo. E naquele tom soberbo de púrpura. 

Quando era miúda tinha um daqueles livrinhos inúteis, minúsculos, que nos guiava no significado das diferentes flores. Como se fosse preciso. Como se não bastasse olhá-las para perceber dos seus artifícios, assim sobrando qualquer necessidade de palavras. Às vezes, queria escrever sem palavras. Tudo dizer escrito, sem conjugações. Queria compor um poema no pó das estrelas, no pranto ofegante das ondas que se desfazem sobre as rochas. Trocar o murmúrio das palavras sussurradas no papel pelo crepitar rouco do vento gelado das terras altas, em cujas montanhas se empoleiram as nuvens, sobre o manto branco da neve com que se confundem. Ou, ao contrário, pela unissonância suave e morna do vento agora menos vento, menos frio, quase meigo, que mordisca sem pressa a pele do meu rosto. Queria pendurar letras nos raios dourados do Sol da Primavera, meu fiel aliado, como o de Outono, porque se compadece da minha pele demasiado pálida e demasiado sensível ao ardor do Sol de Verão, que não suporto. 

Queria fazer-me ouvir no vazio que sobra das entrelinhas; no silêncio precioso da ausência. Na melodia devassa de um extenso campo de tulipas.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

O dia amanheceu menos amarelado. Parece que, finalmente, se extinguiram as poeiras do Norte de África. Durante os últimos dois ou três dias, ameaçaram engolir os céus como numa das pragas bíblicas do Egipto. Mas, hoje, no meu céu, o azul abriu caminho com bravura. Pelo dia fora, nuvens gordas, brancas como natas, foram varrendo as outras, sujas, com a resiliência abnegada dos justos. No final da tarde, restava apenas uma faixa estreita de dourado velho logo ali acima da linha do horizonte; a gola curta, delicada, de uma camisola de malha fina.

De resto, sou capaz de jurar que o portão da minha garagem se abre animado de vontade própria. Sem a intervenção de palavras mágicas ou de ondas conhecidas do espectro electromagnético. Sem intermediários. Por diversas vezes, tocando eu apenas no interruptor da luz, da outra, da inofensiva para o efeito, ouço-o gemer, em aviso, antecipando o movimento lento da subida que, por si só, decide empreender. E, não, grande parte das vezes, não vem ninguém do outro lado. Ninguém deste mundo, pelo menos, embora, por vezes, eu fique na expectativa de ver chegar alguém do outro. Uma sombra misteriosa, uma aragem gélida e repentina, um arrepio na pele, enfim, o resfolegar breve que fosse da luz das lâmpadas que pendem do tecto. Mas não. Um capricho da máquina, tão-somente.