sexta-feira, 10 de setembro de 2021
quinta-feira, 9 de setembro de 2021
O meu filho pergunta-me se eu gosto de Billie Eilish.
Sublinha de Billie Eilish, e não da Billie Eilish, agora tem um entendimento
cabal da diferença, mas, neste caso, é quase irrelevante: creio que gosto de
ambas. Ele gosta de Queen, não sei se
dos Queen, mas sei que gosta dos Rolling Stones. The Rolling Stones. Impressiona-o a forma como
alguém que tem a idade de Jagger é capaz de mover-se como Jagger, que conheceu
pela música dos Maroon 5, de que eu também gosto. Gosto de certeza do Adam Levine.
Inofensivamente. Não gosto do tempo que envelhece depressa. A não ser pela mão
de Antonio Tabucchi, embora eu insista em chamar ao livro O Tempo Envelhece
Devagar, que era do que eu gostaria mais. E tudo isto vinha a propósito da
adolescência, que nem o tempo se atreve a deixar que envelheça; mas, entretanto, perdi-me.
quarta-feira, 8 de setembro de 2021
Escapo-me deste mundo sempre que posso. Vivo de frases
soltas, saltitando entre umas e outras como sobre os quadrados do jogo riscado
a giz no chão da minha memória. Dou a volta e recomeço. Há traços de giz no céu
azul-claro do fim de tarde e no fundo das gavetas da minha secretária. Ainda
gosto de escrever a giz. Às vezes. A luz do sol tomba, pálida, sobre os montes lá ao
fundo. Cobre-os como um véu de seda gasta e baça, e a mesma luz morre no sopé das
encostas, o rio sepultado entre as duas margens. Voltei a enamorar-me de Simon
e Art Garfunkel e regresso ao concerto em Central Park. Leio-te assim. Com
volúpia. Acabar e voltar ao princípio.
Tenho andado a rever coisas que escrevi noutro canto.
Como não vou regressar ali (ainda não decidi o que farei com os destroços), tenho
transferido para aqui, para o “arquivo”, a maioria dos textos. Um arquivo com um leve tom de falsete, porque o “outradecoisanenhuma” só existe desde Janeiro de 2020, mas
um arquivo é um arquivo, não é?, e a pessoa que escreve desde aí é a mesma pessoa que
escrevia até aí, tanto quanto uma pessoa possa ser a mesma ano após ano, apenas
num local diferente.
Adiante.
No meio do muito que escrevi, reencontrei um texto sobre a
situação que se vivia na Venezuela em Janeiro de 2019, com a autoproclamação de
Juan Guaidó como presidente interino do país, como forma de resistência ao
poder de Nicolás Maduro. Eram “momentos históricos”, dizia-se, a História está cheia de “momentos
históricos”, evidentemente. Aqueles, levaram dezenas de países a reconhecer
Juan Guaidó como Presidente da Venezuela, e eu era capaz de jurar que, na
respectiva página e num dia vinte e qualquer coisa desse Janeiro, a Wikipédia o
dava mesmo como o 58º Presidente da Venezuela; depois passou a presidente
interino da Venezuela e, finalmente, presidente autoproclamado da Venezuela (e
10º presidente da Assembleia Nacional da Venezuela). E aonde é que eu vou com tudo isto? Em princípio, a nenhum lado, exactamente como aconteceu a Juan Guaidó, a quem
a EU, pelo menos, já deixou de reconhecer como Presidente da Venezuela. Ocorreu-me,
apenas, que, daqui a nada, as imagens dos vários canais de televisão no mundo livre
deixarão de transmitir as manisfestações no Afeganistão contra o regime talibã,
onde muitas mulheres – e não só, mas apetece-me falar sobretudo das mulheres –
têm resistido como podem ao terror que se avizinha e, daqui a nada, dizia, o
silêncio dará lugar ao esquecimento e o esquecimento abrirá caminho à
imposição, outra vez, da Sharia, essa lei obscura que serve mais ao poder do homem e menos ao poder divino, e não consigo sequer imaginar o que é viver encarcerada
numa burka, sob um regime que cala em nome de, violenta em nome de, mutila em nome de, mata em nome de. Não só mulheres, mas porque me apetece lembrar, sobretudo, as mulheres. E o que me repugna
assistir ao juízo que alguns fazem da liberdade. E por esses alguns, entendo o
idiota do juiz Castro mais as suas majoretes, ou o imbecil do deputado José Magalhães. Entre outros, mas, de momento, só me apetece nomear estes.
Há um tipo de desplante vilipendiado, roubado à ideia de liberdade, que me enoja.
terça-feira, 7 de setembro de 2021
segunda-feira, 6 de setembro de 2021
"Censura no Feminino"
Há uns meses, o PÚBLICO reuniu dez livros numa colecção a
que chamou “Censura no Feminino”, e, como se prenuncia, os livros foram
escritos por mulheres e reprovados pela “Censura” (não é por respeito, a maiúscula),
que os considerou, alguns, chocantes, outros, pornográficos, imorais e demais eteceteras
atentatórios da moral e dos bons costumes da época.
Comecei pelo “Ida e volta duma caixa de cigarros”, de
Maria Archer. Como sou curiosa em doses aceitáveis e bastante insensível às
ameaças disso a que chamam spoiler pelo poder que tem, também dizem, de desmanchar
certos prazeres, saltei imediatamente para as páginas que a informação
do respectivo processo denuncia como impróprias: “A Censura intervém,
requesita um exemplar e verificando que nas duas primeiras novelas de carácter
acentuadamente erótico, a autora compraz-se na volupia do promenor sensual, que
parece ser o único objectivo proíbe o livro e pede á Polícia a sua apreensão”.
Uma delícia.
Na página 18 – a primeira das malditas – há tantos
daqueles promenores que não imagino qual o mais culpado. Gosto de "Manuel não
colhia ennebriamento ou ilusão do corpo que ia desvendando. O seio dela,
redondo e firme, era clamor de triunfo, euritmia, que êle olhava como a um
outro peito qualquer. Embotara o poder de admirar; a beleza apenas servia a
acelerar-lhe o ritmo do desejo bruto, animal, que quere, que exige, e que, como
a labareda, se extingue em cinzas e nada", mas, este trecho alonga-se pela
página 19 e essa não merece reparo, pelo que, me parece que o considerado mais indecente terá
sido aquele que o precede, "Momentos depois, êle vergava-a sobre as costas
do divan e beijava-a no peito. Mão experiente tacteou-lhe o vestido. Marietta
deixou-o prosseguir. Êle continuou o seu manejo; era hábil, estava afeito,
dispunha de uma longa prática. O hábito, com o seu cortejo de indiferença e
tranquilidade, transparecia-lhe nos modos".
Estou tão longe da perseguição absurda sofrida por estas mulheres que não sei se lamentá-las pelo destino ou invejá-las pela ousadia. Por acaso sei. Nem sempre é uma coisa feia, a inveja.
sábado, 4 de setembro de 2021
sexta-feira, 3 de setembro de 2021
O meu Ensaio Sobre a Cegueira voltou à minha estante, depois de anos perdido até eu me lembrar de a quem o tinha emprestado: uma grande amiga que dizia não conseguir ler Saramago desde os tempos de Memorial do Convento. Convenci-a de que talvez não tivesse lido o livro certo e emprestei-lhe (e, entretanto, ofereci-lhe) aquele que continua a ser um dos melhores livros da minha vida. Tinha-lhe perdido o rasto, ao livro, não à amiga, embora seja uma amiga que vive mais longe do que eu gostaria se eu tivesse voto em matéria de distâncias do género, e encontramo-nos esta semana, não para que me restituísse o livro, mas aproveitando a oportunidade. E mandava a falta de oportunidade que se vive que não o relesse, não de momento, não neste tempo, mas não fui capaz de resistir. Continua a provocar-me, a inquietar-me, a devorar-me.
O mesmo tempo mandava que não regressasse a Março de 2020, mas, mais uma vez, desobedeci.
Li apenas um livro Gonçalo M. Tavares. Talvez tenha também escolhido mal, como a minha amiga (para que conste, gostei bastante de Memorial do Convento, mas não sou exemplo, como sabe qualquer um que por aqui se perca), mas não me rendi. E não sei se vou insistir. De momento não vou insistir. Pelo menos no que ao romance diz respeito. A vida é miseravelmente curta para fingir prazeres, até de leitura: preciso de linhas que me revolvam por dentro, por motivos diferentes em períodos diferentes, às vezes para fingir que não vejo o que arde lá fora. Fora das páginas dos livros que escolho.
Ainda assim.
Ainda assim, acabei por comprar o seu “Diário da Peste”. Não é bem um livro livro, e eu sou assim,
cheias de incoerências também literárias. Fui seguindo, mais ou menos, aquelas crónicas publicadas no Expresso, que surgiram no tal odioso Março de
2020. Precisava de muitos e variados olhares sobre a materialização do absurdo
– como acontece outras vezes, com outros absurdos –, e revia-me em alguns
daqueles atordoamentos do corpo e da alma. Comprar alimentos, conduzir
o carro, fazer o essencial e voltar, a praça de São Pedro vazia, os
hospitais em erupção, os hospitais em carruagens de comboio, o Palacio
de Hielo convertido em morgue, os nossos velhos moribundos a
engrossar a lista de mortos, fantasmas de novos números e de velhas
estatísticas, a vida limitada aos écrans das salas de zoom. O vermelho e branco das fitas que nos domesticaram os hábitos: outra das mordaças indispensáveis
para nos mantermos a salvo. O nosso milagre, o nojo do Outro,
os sermões telediários, as epifanias em catadupa, melosas, os sinais divinos e
o renascimento (não era?) de um mundo que haveria de vir, sarado e em paz,
depois de atender, enfim, aos avisos do Além.
Em
tudo isto estávamos, e eu sem saber nada de contrições.
Passaram-se dezoito meses, dezanove meses – mais dia, menos dia, mais número, menos número, "um ano e meio de merda", valha-nos a clarividência de alguns candidatos a presidente de câmara – e continuo sem ser capaz de enunciar o que aprendi, ou deveria ter aprendido, com o apocalipse. Não descobri talentos, e ansiava por vários, nem o caminho para a remissão dos meus pecados, e padeço de tantos. Há aquela coisa de aprender que nada é garantido – como se eu não o tivesse aprendido há muito, e não fosse essa a expressão mais descarnada do lugar-comum devoluto que só assiste aos privilegiados. Aprende-se ciclicamente que nada é garantido, mesmo existindo longe da obscenidade da fome e da guerra, da tragédia dos incêndios e das cheias. O horror tem muitas faces, muitas formas, muitas maneiras de se reinventar porque habita no fundo de nós, no lodo adormecido dos nossos vícios e dos nossos medos. Ausento-me na tentativa de conhecer os meus, uma necessidade voraz, às vezes infame, de recolher pensamentos. Meus e de outros. Até de pensamentos inventados e verbos pontiagudos, que posso, pelo menos, usar como contraponto, o ensaio em branco que me permite aferir do meu afastamento ao prelúdio de um outro normal. Há muito que não há um normal. O mundo é um manicómio não muito diferente das metáforas de Saramago.
Morreu ontem Isabel da Nóbrega, de quem alguns disseram que abdicou da sua própria carreira literária para impulsionar a de José Saramago, com quem viveu um romance escandaloso à época, antes de Pilar del Rio. Também dizem que foi por causa dela que Blimunda se chamou Blimunda. Foi ao ler a biografia de José Saramago, de Joaquim Vieira, que conheci parte da paixão e da mesquinhez de Saramago: ordenar à Editorial Caminho que eliminasse das novas edições todas as dedicatórias que fizera a Isabel da Nóbrega. Numa das edições que tenho de O Memorial do Convento (descobri que tenho duas, e não é caso único), ainda consta uma dessas dedicatórias: "À Isabel, porque nada perde ou repete, porque tudo cria e renova". Depois, as contracapas encheram-se de dedicatórias a Pilar del Rio. É sabido que, pelo menos, o amor pode ser bastante volátil, e as biografias (também) servem para mostrar que é sempre da maior sensatez distinguir a obra do criador, independentemente de qual venha a sobreviver à leitura.
