sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Dois anos e vários meses depois, finalmente e oficialmente, cedi. Dizem-me que é covid, mas, se me dissessem que alguém moldou um boneco de vodu à minha imagem e semelhança e entretanto se entretém a espetar-lhe estacas finas e afiadas várias vezes ao dia desde há vários dias, não sei se me sentiria pior.


segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Miguel Alves como ainda Secretário de Estado Adjunto do Primeiro-Ministro: como é que isto se explica?


"O meu errante não fazer nada vive e espalha-se pela variedade da noite.
A noite é uma longa festa solitária.
No meu secreto coração louvo-me e justifico-me.
Testemunhei o mundo; confessei a estranheza do mundo.
Cantei o eterno: a clara lua que regressa e as maçãs do rosto que o amor prefere.
Comemorei com versos a cidade que me cinge

e os arrabaldes que me desterram.
Eu disse assombro onde outros dizem apenas costume.
Perante a canção dos tíbios, acendi a minha voz em poentes.
Os antepassados do meu sangue e os antepassados dos meus sonhos.
exaltei e cantei.

Já fui e sou.
Travei em firmes palavras o meu sentimento, que poderia

dissipar-se em ternura.
A lembrança de uma antiga maldade volta a meu coração.
Como um cavalo morto que a maré lança à praia, volta ao meu coração.
Ainda estão a meu lado, no entanto, as ruas e a lua.
A água continua a ser doce na minha boca e as estrofes não me negam sua graça.
Sinto o pavor da beleza; quem se atreverá a condenar-me se esta grande lua da minha solidão me perdoa?"

Quase Juízo Final
Jorge Luis Borge


Continuo de volta da poesia de Jorge Luis Borges. Os livros e as letras, as palavras, como algumas dessas minhas lâminas de sobrevivência. E o silêncio. Um silêncio inteiro para atender o Mundo.


domingo, 6 de novembro de 2022



Corrupções à la carte

Parte da direita portuguesa que renega com enfático nojo a corrupção de Lula da Silva e, consequentemente, a sua reeleição no Brasil, convive bem com a escolha do ex-presidiário Isaltino Morais para a presidência da câmara de Oeiras. É só uma Câmara Municipal, eu sei, não é o mesmo que o (des)governo de um país inteiro. Ainda assim, já existe um precedente, não é preciso fantasiar com o regresso de José Sócrates, que, na verdade, ainda não foi condenado, provavelmente nunca será julgado, e, portanto, até "prova em contrário", é inocente, mesmo que ninguém em pleno uso das suas faculdades mentais (se calhar, basta um uso assim-assim) acredite na extraordinária história do amigo e da mãe e do cofre. Essa é outra parte interessante da coisa: os mesmos que não duvidam da patifaria de Sócrates, também não duvidam da seriedade do "dinheiro vivo" com que a família Bolsonaro comprou umas dezenas de imóveis. Eu duvido da lisura de qualquer um daqueles quatro, mas há uns patifes mais (ou menos) insuportáveis do que outros e, aparentemente, é entre esses que andamos condenados a escolher. 

Imagino que nunca chegaremos ao dilema Sócrates ou Ventura. E se não tenho dúvidas quanto ao primeiro, não sei bem se o segundo merece tão ameaçador estatuto: comparado com os seus congéneres, parece um menino do coro. Nada disso, porém, me livra da presente sensação de uma espécie de orfandade de representação política, e não devo ser a única. Este fosso inconsertável entre "a direita" e "a esquerda" não me move e não me serve, mas seria incapaz de me sentar à mesa com um tipo como o ainda presidente do Brasil.  

Os mais de cinquenta milhões de votos que Jair Bolsonaro conseguiu ainda, como os mais de setenta milhões de votos em Donald Trump nas últimas eleições presidenciais nos EUA, devem servir, pelo menos, para moderar a aversão dos livre-pensadores àquela ideia de rebanho: rebanho por rebanho, parece haver dois, a originalidade já não é o que era; e o mesmo para o “pensamento único”, ou a “superioridade moral”, embora, devo confessar, superioridade moral seja pecado que me assalta amiúde quando ouço os argumentos de alguns dos mais acérrimos defensores dos bolsonaros e dos trumps: não são contra a "ideologia do género" – eu também sou –, a favor do controlo da emigração – eu também posso ser –,  pró-família-tradicional – não sei se sou, não sei se sei, mas sei que não há nada de errado em sentirmo-nos identificados com –, ou anti-aborto: são assumida e ferozmente contra todos os que ousem beliscar o seu mundo, o seu modo de vida. "Bolsonaristas" e "Trumpistas" continuam a berrar, sem conseguirem apresentar qualquer prova, contra a fraude das eleições presidenciais, alguns por convicção, talvez, mas muitos, sem dúvida, por oportunismo: defendem a liberdade e a democracia na medida exacta da sua vontade.  

Pode acusar-se do mesmo a esquerda-radical. O mal-denominado movimento woke veio impor um sem-número de regras, da linguagem ao comportamento, que pretendem salvar a Humanidade das esquinas afiadas da existência: viver deve ser livre da ofensa e da contrariedade, uma infantilização concertada para salvar o mundo dos pecados dos homens, mas sem o calvário e a Paixão de Cristo, sem crucificação. A felicidade ao alcance de um decreto. Evidentemente, não está a resultar. 


sexta-feira, 28 de outubro de 2022

"Las calles de Buenos Aires

ya son mi entraña.

No las ávidas calles,

incómodas de turba y ajetreo,

sino las calles desganadas del barrio,

casi invisibles de habituales,

enternecidas de penumbra y de ocaso

y aquellas más afuera

ajenas de árboles piadosos

donde austeras casitas apenas se aventuran,

abrumadas por inmortales distancias,

a perderse en la honda visión

de cielo y llanura.

Son para el solitario una promesa

porque millares de almas singulares las pueblan,

únicas ante Dios y en el tiempo

y sin duda preciosas.

Hacia el Oeste, el Norte y el Sur

se han desplegado –y son también la patria– las calles;

ojalá en los versos que trazo

estén esas banderas."

Jorge Luis Borges




 
E deixavam os quadros em paz.


sábado, 22 de outubro de 2022

País pobre, pobre País

“São casos de necessidade que dão muita pena. E quando assim é, não costumamos chamar a polícia”, “Temos apanhado muitos idosos a tentar levar pão, salsichas ou atum. Há pouco tempo vi um idoso a tentar roubar batatas e uma senhora de idade a esconder pastéis de bacalhau no bolso. Quando a abordei, pediu muita desculpa e explicou que tinha fome. E há mulheres com filhos que dizem que já não têm como lhes dar de comer. É muito triste. Chego a dizer-lhes: ‘Prefiro que me peçam. Não sou rico, mas posso oferecer alguma coisa.’ E eu próprio vou à caixa pagar”

 

Creio que nunca como hoje Portugal me pareceu um país tão falido. Nem sei bem como olhar para aquela reportagem do Expresso – são retratos de miséria a vários tons. Deve ser real e dramático o aumento do número de bens alimentares básicos roubados nos supermercados porque é preciso qualquer coisa mais que coragem para expor prateleiras onde as garrafas de azeite são protegidas como fino whisky e as latas de atum são guardadas em caixas de acrílico anti-roubo.

E, aquele parágrafo, ainda o tenho às voltas no estômago.

Os números da Pordata sobre a pobreza em Portugal são esmagadores: sem apoios sociais, mais de quatro milhões de pessoas são pobres ou têm rendimentos abaixo do limiar da pobreza. No mesmo país da “querida tecnológica” de Paddy Cosgrave, do paraíso fiscal para reformados ricos e muito estrangeiros, mesmo que a nossa nacionalidade se venda como a ginjinha do Rossio onde, por agora, vivem ao relento um sem número de timorenses atraídos por promessas de trabalho escravo, enquanto se pensam estratégias para atrair nómadas digitais e se ensaiam modelos para a semana de quatro dias de trabalho.


 



Nada do que há em ti me inspira compaixão. Não há nada de generoso no meu tempo, se o que procuro são as palavras que viajam sob a minha pele. Também não sei nada do teu nome soletrado com a misericórdia dos versos lassos como sermões de Domingo, saboreai e vede como o Senhor é bom, cânticos de piedosa doçura, o amor obediente aos caminhos que salvam o corpo e a alma da tentação da desvirtude e do vício. Sei do cheiro húmido da terra fértil, do latejar urgente e mudo da luz sobre o relâmpago, do tempo quieto, suspenso num instante antes do rouquejar do trovão. O grito agoirento da gaivota quando o ar anuncia tempestade e, nos ancoradouros, rangem as cordas que arrancam os barcos à fúria das ondas. Sei do belo e do profano, da embriaguez do Inverno, da ameaça de vertigem quando o teu corpo reclama o meu.