segunda-feira, 9 de janeiro de 2023
Moro num País Tropical...
Cumprindo
uma mui nobre premissa da liberdade de expressão, que deve nortear todas as outras
em qualquer regime democrático, a SiCNotícias tem dois convidados de luxo, ou
de lixo, que, de quando em quando, chama a estúdio para que digam de sua
justiça: o senhor Guerreiro na apaixonada defesa de Vladimir Putin e a sua
bárbara demanda na destruição da Ucrânia nazi, e um tal de Amaral Pessoa
(filho; dizem-me que também há um pai da mesma armada), empenhado na exaltação do Messias
Bolsonaro como o último dos representantes dos brasileiros de bem.
Na
noite das eleições presidenciais no Brasil, nos estúdios da SIC, o senhor Amaral
Pessoa filho, desencantado com a vitória de Lula, falava abertamente da não aceitação
do resultado das eleições enquanto não o validassem as Forças Armadas – como se
sabe, são as Forças Armadas que validam resultados de eleições em países democráticos
–, convencido, suponho, de que essas Forças
Armadas liderariam ou suportariam uma rebelião contra o presidente eleito. Desta
vez, veio dizer que as manifestações que vimos em Brasília são actos constitucionais
e que a situação vai piorar porque o “brasileiro de bem” não vai aceitar um
bandido a governar um país, e, claro, voltou a acenar com a fraude do processo eleitoral.
Deve haver apoiantes de Bolsonaro piedosamente convencidos dessa fraude eleitoral, da miserável desgraça que lhes afastou o salvador da nação – provavelmente, aqueles que apelam, em desespero, à intervenção extra-terrestre, com as luzinhas dos telmóveis voltadas para o céu, Bolsonaro fez muito bem o trabalho de casa –, mas não é, seguramente, o caso de gente como Amaral Pessoa. Talvez Ricardo Costa tenha pisado o limite das boas práticas jornalísticas, mas antes isso do que deixar passar, sem uma nota de indignação, uma série de mentiras que pretendem apenas minar a confiança na Democracia e nas suas Instituições: digam de uma vez e sem rodeios, os Amaral Pessoa que por aí pululam, que a Democracia só lhe interessa como rampa para o poder: depois disso, o que anseia a "gente de bem" é varrer da sociedade todas as anomalias que ameaçam a santíssima trindade Deus, Pátria e Família, e, talvez o zelador e a faxineira. Todos os outros são incómodos e, por isso, descartáveis.
Dói-me, este Brasil.
sábado, 7 de janeiro de 2023
sexta-feira, 6 de janeiro de 2023
É tão bom, não foi?
O
enfado com que a gente que ocupa cargos políticos responde – ou não responde,
na verdade – ao país quando confrontada com pedidos de esclarecimento sobre o
exercício das suas responsabilidades e competências ao serviço da nação é uma
coisa extraordinária. Como se fosse ultrajante mais do que ilegítimo (e claro que não é) o
direito que os eleitores têm de saber o que têm de saber e o dever que os
governantes têm de esclarecer o que têm de esclarecer. Falta, realmente, vergonha, e abunda uma espécie de amadorismo ou alienação do que significa estar
ao serviço do país; como se aquela ladainha que assinam ministros e secretários
de estado, juro por minha honra desempenhar fielmente etc, não passasse, de facto, de um marginal etc, umas palavras
bonitas mas inócuas, inconsequentes, uma dedicatória cordata na recepção do hotel até ao
destino seguinte.
Não se arranja mais gente como Fernando Araújo?
quinta-feira, 5 de janeiro de 2023
segunda-feira, 2 de janeiro de 2023
Vicissitudes, e assins...
Acontece-me
com os jornais o mesmo que com os livros: compro – no caso, assino – mais
jornais do que aqueles que consigo ler, mas sou incapaz de viver de costas
voltadas à “informação”, mesmo que a informação se afaste, tantas vezes, da
isenção papagueada nos códigos deontológicos, estatutos editoriais e afins.
Aliás, no que toca à “informação televisiva”, estamos muito próximo do
entretenimento agoniante: sumárias condenações ao fogo do inferno para meninos e meninas que se
portam mal e a bajulação superlativa e enjoativa para os que vão à missa e
comungam do espanto.
Entre outros, assino o Observador e o Público. Para baralhar os algoritmos; como ter uma edição do Mein Kampf ao lado da Bíblia (bate no meu peito um coração bastante imperfeito) e abrir, de vez em quando, uma e outra numa página ao acaso, ler uma frase, um pensamento, uma história, se não por mais, por me ir lembrando da fragilidade da fronteira que separa (separa?) o Bem e o Mal. Nada disto respectivamente, note-se.
O
Observador, assino porque gosto de ler Alexandre Homem Cristo – além do
magnífico nome, escreve muito e bem sobre Educação, tema que me é muito caro; duplamente
caro – e Jaime Nogueira Pinto – cujo pensamento não partilho noventa e nove por
cento das vezes, mas leio sempre com prazer… tortuoso. E, às vezes, o Alberto
Gonçalves diverte-me. As mulheres que mais gosto de ler não escrevem no Observador.
O
Público assino e leio por dever de estimação; foi uma sólida âncora numa
fase muito difícil – é estranho, eu sei, e, como se não bastasse, não dá para
contar. Adiante. Ainda faltavam uns dias para terminar o ano, ainda havia Pelé e Bento
XVI, e li sobre o mosaico inacabado de personalidades que nos morreram em 2022. Devia
haver um limite para o número de desconhecidos-conhecidos que podemos perder no
mesmo ano: se a Morte, nos seus insondáveis caprichos, decide levar-nos a Elza
Soares, deixava-nos a Monica Vitti; se nos morre a Betty Davis, não ainda a
nossa Eunice Muñoz; perdíamos a Gal Costa, mas ainda tínhamos Olivia
Newton-John; Javier Marías, mas não ainda Jean-Luc Godard, Vangelis, mas não Vivienne
Westwood, uma espécie de intermitência sem a ironia corrosiva de Saramago nem necessidade
de equivaler as artes, apaziguamento apenas, que os dois últimos
anos foram severos.
E, depois, como sofro de pequenos episódios de uma certa ingenuidade crónica, deixo-me contagiar por instantes de optimismo, como aconteceu agora com a tomada de posse de Lula. Deixo de lado a política, o lado partidário e trincheiroso da coisa, e vejo apenas o homem, a paixão e a vontade: acredito (coisa rara na política), e, sobretudo, comparo com o cinzentismo espesso que por cá perdura; ocorrem-me nomes piores, entre as novas sobre a "remodelação" do Governo e a trágica ausência de uma alternativa de oposição: António Costa pode não chegar ao fim do mandato (coisa que me parece cada vez mais possível), mas Luís Montenegro não vai mais longe, esgotou-se no entusiasmo de ter, finalmente, chegado a líder do PSD e esbarrou na indignação de palanque como arma de protesto, nada mais, ninguém sabe bem que Portugal cabe na cabeça de Montenegro. O Chega ainda lá chega mais depressa do que se imagina(va).
Tinha mais umas quantas linhas por dizer; ficaram-me pelo caminho, atropeladas pela pressa extravagante dos últimos acontecimentos e, entretanto, perdi-lhes a valia. Das linhas, não exactamente dos acontecimentos.
sábado, 31 de dezembro de 2022
Bom Ano Novo
Não tenho por hábito fazer balanços de fim de ano, e, menos ainda, uma lista de resoluções para os trezentos e sessenta e cinco dias seguintes: são muitas horas para planear e prever, e também vivo de improvisos. Mas, neste ano que ainda não terminou, tenho uma palavra; aliás, duas palavras, que formam um nome: Mahsa Amini. E Nika Shakarami, e Hadis Najafi, e Majidreza Rahnavard, e outro, e outro, e tantos outros, dessas mulheres e desses homens, não para falar de Morte, da sua morte, mas para falar de Vida e de Esperança: se há quem seja capaz de resistir arriscando a vida pela Liberdade de viver sem mordaça, o Mundo ainda tem conserto e importa celebrá-Lo. A coragem das Mulheres iranianas, insubmissas, rejeitando ser caladas, tapadas, abusadas, desafiando esses esbirros sinistros da moralidade (insuportavelmente hipócritas tantas vezes), são um exemplo de coragem, de bravura, daquilo que a vontade pode se ameaçada. As Iranianas, como as Afegãs que os terroristas talibãs proibiram de estudarem nas universidades e de trabalharem em ONG, de receberam os seus diplomas universitários, as que já tinham terminado os seus cursos, essas mulheres, como os homens que as apoiam e morrem por elas, são um farol de insolência que também merece exaltação e glória. Que 2023 seja também o seu ano. E, claro, que Vladimir Putin caia de podre.
Aos que passam por aqui, Bom 2023. Não se esqueçam de viver. Um dia de cada vez. Intensamente, como a Vida merece.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2022
Tenho
a cabeça cheia de pensamentos a que não tenho sido capaz de dar forma. Ando,
como tantos, demasiado cansada, demasiado zangada, demasiado perplexa.
Abençoados os que escrevem sem esforço.
Mas,
o meu Natal, que não é de Pai Natal e muito pouco de menino Jesus, que não é de
grandes Graças nem de Missa do Galo, é, pelo menos, de colo, de sorrisos
rasgados e abraços demorados. De pequenos excessos. Digo mais vezes “gosto de
ti”, gosto muito de ti, e isto apetece-me partilhar.
Bom
Natal a quem é de Natal. Bom Natal a quem não é de Natal.