Como
é que a Júlia se meteu nisto?
terça-feira, 2 de abril de 2024
segunda-feira, 1 de abril de 2024
Redenção
O rapaz do carro preto suicidou-se. Um mês antes do Natal.
A coberto de uma ida às compras, coisa de
última hora, una lámpara de Navidad, atirou-se para a linha de
comboio. Deixara, no porta-luvas, a aliança de um casamento aparentemente
banal, o fio de ouro que trazia sempre ao pescoço e um bilhete de despedida com
um pedido de perdão. Foi naquele dia, mas poderia ter sido em qualquer outro
antes desse, ou num qualquer dia depois – faltava apenas dizer sim.
Recordo como não o via há algum tempo. Cruzávamo-nos praticamente todas essas
manhãs ditas úteis, no estacionamento comum do prédio, na saída dos miúdos para
a escola. Recordo o ar taciturno com que carregava o mundo que se
lhe fez insuportável. Nunca prestei muita atenção. É espantoso, o vazio em que
podemos viver. E os filhos, duas crianças pequenas, a quem, em cerca de cinco
anos, não dei mais do que os bons dias, naquela pressa rotineira, sem nunca
suspeitar da quase ausência de resposta, são miúdos, nem do ar demasiado sério, e
pálido, e envelhecido para tão tenra idade. Nada como o dia seguinte para fazer
bons prognósticos, como dizia aquele entendido em coisas do futebol. Há gente a
quem nem o futebol basta.
Quarenta
e quase nada de anos, que puta de vida. E o carro preto, estacionado ainda na
garagem do prédio, uma amolgadela por reparar desde que me lembro sobre a roda traseira esquerda, como um prenúncio desse outro abandono que ninguém viu
chegar.
A mulher do rapaz do carro preto parece anestesiada pela perda, que ainda não é bem dor. Conta que o marido se suicidou com a mesma secura com que diz salió a comprar la lámpara de Navidad. Pode-se viver com uma pessoa, dormir na mesma cama, rir, chorar, amar, criar filhos e cuidá-los e, ainda assim, não perceber o abismo que se abre diante de nós? A vizinha do segundo andar diz que ainda não acredita. Pois se há dias, assegura, em que parece vê-lo chegar, a recolher o correio à mesma hora, depois de ir buscar os miúdos à escola. Não é, não voltará a vê-lo, lembra-lhe a viúva como se ralhasse. Conheço o choque. Não é negação, sequer, não houve tempo. A vida de quem fica não se atrasa, não espera. O Luto, como a Morte, tem os seus caprichos.
Mas despedi-me, não foi?, que não sei quê, que não voltava, e o mundo virtual, blá, blá, blá. Parece que não fui capaz, desta vez, de apagar isto. Não sei bem se isso me basta, ou se preciso deste pequeno reduto de insanidade para melhor lidar com o outro lá fora. Além disso, são pouquíssimos os que conhecem o caminho que aqui vem dar, e, desses, menos ainda os que me importam; de modo que, o "abandono" disto, a acontecer, parece-me muito menos dramático do que há uns meses – talvez porque estes meses, de repente, me pareçam em tudo demasiado. E não é verdade absoluta que o que chega (bater na madeira para cima de um milhão de vezes) à Internet permaneça na Internet, alguns de nós ainda têm a sorte de poder zarpar sem deixar rasto.
segunda-feira, 25 de setembro de 2023
Podia, simplesmente, deixar este canto ao abandono, sem dar cavaco… salvo seja. Até porque será a segunda vez que apago um blogue. Da primeira vez pensei que o problema estava na plataforma, e agora sei que o problema sou mesmo eu. E problema é apenas uma forma de expressão infeliz. Acabou; é só. Não sou do mundo virtual.
Podia deixar este canto ao abandono, blogues ao abandono é coisa que não falta, mas tal renúncia requer também um certo desapego de que não sou capaz. Parte disto sou eu, custar-me-ia bastante; mas, se por um lado já não quero, por outro, sabe quem me conhece, sou desastradamente incompetente nas despedidas. Isto nem chega bem a ser uma despedida – o blogue termina, mas, para lá do blogue, estarei onde sempre estive: a um email de distância, no máximo. Uma coisa quase arcaica, isso do email, mas muito razoável ainda.
Grata pelo vosso tempo.
Vivam bem.
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sexta-feira, 15 de setembro de 2023
quinta-feira, 14 de setembro de 2023
Serviço Público
Gosto
de gente capaz de dizer basta. Essa teoria muito bíblica de dar a outra face e
amar os nossos inimigos não faz bem o meu género. Evito comprar guerras miúdas,
posso exercer com enorme dignidade e a bem da minha paz de espírito o exercício
do ignoramento, mas, com pouca gente e por pouco tempo – devia acrescentar-se
ao ditado; para tudo há um limite, e quem cala não consente tudo, mas há calar
e calar, consentir e consentir.
Este breve solilóquio a propósito de José Pacheco Pereira e João Lemos Esteves. O primeiro, para o bem ou para o mal, dispensa apresentações. O segundo, mais para o mal, foi professor assistente na Faculdade de Direito
na Univesidade de Lisboa; não nessa qualidade mas enquanto nessa qualidade,
inventou, escreveu e publicou no jornal Sol, where else?, uma calúnia
em forma de artigo, visando José Pacheco Pereira: este seria um agente a mando
do Governo do Irão, a quem os ayatollahs mimavam com luxos e privilégios
vários a troco de uma espécie de consultoria e etceteras que cabiam
apenas na imaginação injuriosa de João Lemos Esteves – era a “liberdade de
expressão” do senhor professor de Direito na versão colunista a funcionar. José Pacheco Pereira exigiu provas da liberdade que Esteves expressava e, como não
existissem, o caso seguiu com uma queixa-crime.
O
ex-professor, ex-colunista e, agora, caluniador assumido, confesso e condenado, apresentou-se
em tribunal, munido de um rol de vinte testemunhas, entre as quais, Donald Trump e Michael Pompeo: se é para sonhar, que seja em great, como n'América daquele outro senhor, desculpando o termo.
A montanha de invenções pariu um rato careca, e João Lemos Esteves foi obrigado a admitir a infâmia e a ler um delicioso desmentido que começa assim: "Afirmo publicamente não corresponder à verdade tudo o que escrevi sobre a relação de José Pacheco Pereira com o Irão num artigo publicado no jornal Sol de 9 de Janeiro de 2021, que acabou por ser republicado em várias publicações anónimas", além de ter sido condenado a pagar uma indemnização a Pacheco Pereira; e Pacheco Pereira, ao zelar pelo seu nome, exerceu, também, um rigoroso acto de serviço público – será uma pequena gota na oceano da liberdade da calúnia, mas é qualquer coisa.
quarta-feira, 13 de setembro de 2023
terça-feira, 12 de setembro de 2023
O Atlas não se conta. É preciso ter lá estado, no meio daquele nada em estado bruto, embriagante, quilómetros e quilómetros de estrada que às vezes nem é bem sem avistar uma alma viva e, nada mais parar o carro – todo-o-terreno, e um jerrican na mala porque nunca se sabia –, ver surgir gente sabe-se lá de onde, crianças curiosas que caminham horas para chegar a uma quase escola e conversam e falam francês. Pedem esferográficas, a lata vazia de rebuçados e umas sapatilhas velhas, que trazemos de reserva, porque dizem Nike, e os miúdos caminham quase descalços. Os desfiladeiros de rocha vermelha e árida, e, aninhadas nos seus vales pequenas aldeias de adobe, casas cor-de-rosa, cor da terra; ao longe, parecem de brincar, pouco mais do que barro moldado à mão, e, ainda assim, algumas com três e quatro andares e um sistema rudimentar de saneamento básico: um canal escavado na parede, do último ao primeiro andar, para um buraco enterrado no chão. Junto aos rios há verde, às vezes palmeiras, às vezes não chegam a ser rios, e tudo se mistura num cenário irreal de violentos contrastes. Por algum motivo não recordo os homens dessas minhas viagens pelo Atlas, na minha memória moram apenas as crianças; e, das mulheres, a das mãos de barro também, que nos ofereceu do pão acabado de cozer sobre a pedra quente – é bom, muito bom – os olhos fechados num sorriso pela alegria de partilhar o pouco que tinha, recusá-lo seria um insulto. A essa gente perdida nas entranhas da terra não há ajuda que chegue.
quinta-feira, 7 de setembro de 2023
quarta-feira, 6 de setembro de 2023
Há muito anos que não passava férias em Espanha. Espanha e um pedacinho de França, mesmo ali à mão, um pulinho para visitar Saint-Jean-de-Luz e L’Église Saint-Jean-Baptiste, a bela igreja basca onde se celebrou o casamento de Luís XIV com a infanta Maria-Teresa. Não foi por isso que lá fui, mas queria muito vê-la. Também dizem que aí se filmaram algumas das cenas d' A Paixão de Shakespeare; não sei, lembro-me quase nada do filme, e o que dizem é o que dizem, talvez volte a vê-lo um dia destes.
Mas
foi pelas Astúrias que me encantei. Apesar de quase quase ter sido atropelada
por uma vaca. Não seria a primeira vez, é um facto, mas seria a primeira vez no
sentido literal. Para que conste, nunca me meti com os bichos, segui
escrupulosamente as instruções das guias (que guiavam pouco, diga-se, uma
pequena apresentação, duas ou três instruções e a informação vital de que estaríamos
incomunicáveis na maior parte do percurso), andava distraidamente maravilhada
com os céus (dos Picos) da Europa àquela hora, e a coisa poderia ter corrido
muito mal. Valeu-me o meu anjo da guarda, que me fez surda aos cuidado!, cuidado!
que me gritavam do outro lado, e ainda bem. Se me tivesse voltado,
reagido de alguma forma àquela galopar solto e fundo no meu caminho, pois
claro, era isso que ressoava e fazia tremer ligeiramente o chão sob os meus
pés, é preciso estar mesmo com a cabeça nas nuvens…, talvez me tivesse enfiado, numa atrapalhação, na boca do lobo, que é como quem diz, nos cornos, generosíssimos, da vaca.
Assim, só vi o quadro quando o quadro já não era mais do que aquele corpanzil a
passar-me ao lado, rasante. Obrigada, Anjo Meu.
Dizia
que me encantei com as Astúrias. Mais do que tudo o resto, e o resto também é história;
e História: depois de ver a Catedral de Burgos podemos morrer sem ver qualquer
outra. Digo eu, que as persigo há anos e sei que ainda me falta caminho.
Sobre
o Guggenheim, que também vi e nunca tinha visto. Um amigo um pouco bruto e
muito avesso aos humores da “arte moderna” achou por bem prevenir-me: basta
vê-lo por fora; o que há dentro não interessa nada. O que há dentro, pelo menos
em parte, vai mudando, isso eu também sabia. Desta vez, entre outras artes, havia dentro Yayoi Kusama, Lynette Yiadom-Boakye e Oskar Kokoschka. Aquilo de que gostamos
ou não, na arte como no demais, não é explicável e importa apenas a nós próprios. Eu não gosto de Lynette Yiadom-Boakye, Oskar Kokoschka era um génio e Yayoi
Kusama é realmente esquizofrénica – no sentido formidável do termo. Não
compraria nenhuma das suas obras, até porque a minha conta bancária não permite;
se permitisse, não sei se me atreveria. Há um magnetismo quase maligno,
fabulosamente maligno, naquela explosão de formas e cores e traços e pontos e telas,
labiríntico, pegajoso como uma densa teia de aranha: um breve momento de pânico
e é o fim.
Já falei de Oviedo? Podia viver lá.