terça-feira, 16 de abril de 2024

True Detective


“Calmly we walk through this April’s day,   

Metropolitan poetry here and there,   

In the park sit pauper and rentier,   

The screaming children, the motor-car   

Fugitive about us, running away,   

Between the worker and the millionaire   

Number provides all distances,   

It is Nineteen Thirty-Seven now,   

Many great dears are taken away,   

What will become of you and me

(This is the school in which we learn ...)   

Besides the photo and the memory?

(... that time is the fire in which we burn.)

 

(This is the school in which we learn ...)   

What is the self amid this blaze?

What am I now that I was then

Which I shall suffer and act again,

The theodicy I wrote in my high school days   

Restored all life from infancy,

The children shouting are bright as they run   

(This is the school in which they learn ...)   

Ravished entirely in their passing play!

(... that time is the fire in which they burn.)

 

Avid its rush, that reeling blaze!

Where is my father and Eleanor?

Not where are they now, dead seven years,   

But what they were then?

                                     No more? No more?

From Nineteen-Fourteen to the present day,   

Bert Spira and Rhoda consume, consume

Not where they are now (where are they now?)   

But what they were then, both beautiful;

 

Each minute bursts in the burning room,   

The great globe reels in the solar fire,   

Spinning the trivial and unique away.

(How all things flash! How all things flare!)   

What am I now that I was then?   

May memory restore again and again   

The smallest color of the smallest day:   

Time is the school in which we learn,   

Time is the fire in which we burn.”

Delmore Schwartz

 

Gostei particularmente da terceira temporada e da primeira temporada. Por esta ordem.


Em Decomposição

O país mudou, o mundo mudou, tanto e tão vertiginosamente, que é sensato escolher a ruína a que nos entregamos. Podemos seguir as “polémicas” caseiras – ninguém, do primeiro ao quarto poder, parece minimamente preocupado com o estado de coisas que não sejam as suas, comezinhas –, discussões circulares, miseravelmente estéreis, como o cão que tenta apanhar a própria cauda, do logotipo esdrúxulo (logotipo é esdrúxulo?), ao “embuste” do IRS e de um jornalismo sensacionalista, ávido de escândalos de alcova: é claro que Luís Montenegro e Miranda Sarmento foram intencionalmente vagos e omissos, como é claro que quem assinou aquela notícia do Expresso, mais o seu director João Vieira Pereira, foram, no mínimo, de uma ingenuidade amadora e confrangedora – aquela “nota do director” é risível.

Entretanto, Passo Coelho, barítono, unívoco, imolou o ministro do irrevogável. Com que intenção ninguém sabe. Uma pequena vingança. O recato acabou com estrondo e promete. Dá uma boa teoria da conspiração: Passos Coelho – quem sabe, umas dessas forças vivas que prometeu o colo a André Ventura – apostado em minar o terreno por onde se move a AD de Luís Montenegro, e o país em eleições lá para Novembro.

Há um mundo a ruir. Não sobreviverá a Novembro. Donald Trump, ganhe ou não as próximas eleições nos EUA, é o epicentro do terramoto, e não há pontos nem portos seguros. Ainda me espanta; tanto quanto a impossibilidade de os Democratas encontrarem outro candidato a presidente. Parece que Joe Biden é o melhor, diz quem percebe do assunto. Quem não percebe, não acredita. Mas não importa: ainda que Biden volte a vencer, a América perecerá, e, com ela, o nosso mundo. Acordaram a Besta, alimentaram-na. Donald Trump não vai aceitar outra derrota. O infame 6 de Janeiro parecerá um passeio no parque. E se Donald Trump ganhar? Como será um segundo mandato de Trump?

Israel promete responder ao ataque do Irão. Retaliação sobre retaliação. Outra boa teoria da conspiração. Israel vinha a enfrentar duras críticas sobre a forma como vem dizimando o povo palestiniano em resposta ao hediondo ataque do Hamas. O ataque do Irão, como resposta ao ataque de Israel à embaixada iraniana em Damasco – é nisto que andamos, jogos de guerra em directo –, reconciliou os aliados de Israel com o horror que grassa na faixa de Gaza. Tenho sentimentos contraditórios sobre tudo isto.

E já pouco se fala sobre a miséria da Ucrânia. Donald Trump entregá-la-á de bandeja a Vladimir Putin, se ganhar as eleições nos EUA.

Consola-me pensar que, se tudo correr menos mal, pelo menos, viverei tempo suficiente para ver morrer alguns destes homens maus.




segunda-feira, 15 de abril de 2024



sexta-feira, 5 de abril de 2024

Viver a vida como num questionário de Proust


Uma volúpia de lucidez. Há dias em que o invejo. Saber sempre apontar o pior defeito a melhor virtude o maior medo o melhor livro. Um lema de vida, santo Deus, um lema de vida, e eu que a levo de mãos tão vazias. Serve-me, talvez, o de António-Pedro Vasconcelos, com a devida vénia: também eu desejo tudo e desejo muito, espero pouquíssimo e tento não pedir nada, mais por orgulho que por modéstia. Mas, não raras vezes, danço com o Diabo, consciente da sua malícia, de todas as tentações com que me embala, inclusive a leviandade perversa, tão doce, de crer em ti.



quinta-feira, 4 de abril de 2024

In Your Room




Fui vê-los. Era uma promessa por cumprir, e só isso teria bastado. Depois, como diz outro amigo, porque parece haver sempre qualquer coisa por descobrir. Quarenta e tal anos e, afinal, é sempre e apenas um ontem. Como reler um clássico, voltar, sim, aos lugares onde já fomos felizes, um Bolero de Ravel, amar-te todos os dias, um cardume de pássaros de guelras brilhantes nas asas, voluteando em espiral como confetti de festa.

"Gahan é uma garça a mexer-se: é ginga, gangster e bailarino, é mestre de cerimónias e sex symbol a fazer simulações provocantes, é um monstro de palco sem idade", escreveu-se. E é. E foi. E Martin Gore é outra coisa qualquer espantosa de que me lembrava pouco; lamento não me ter atrevido também a gravar o seu "Strangelove" acústico (não propriamente angélico, mas despido, e lento, e belo), mas sou do tempo do cinema sem pipocas e dos concertos sem telemóveis – quais filhos, é isto que me põe velha.

Nem sou muito destes concertos; uma mole de gente arrebanhada, aos pulos, a tresandar à vulgaridade do espectáculo de massas, comercial e afins, e, com excepção de que não pulo nem grito (pelo menos, entre desconhecidos), foi tudo fantástico. Memento Mori, e faço por não esquecer. 

Ainda hei-de vê-los em Berlim, parecem-me sempre mais felizes nos concertos em Berlim. 


quarta-feira, 3 de abril de 2024

"Meu país desgraçado!...
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas ...

Meu país desgraçado!...
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anêmico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar

as que só por Amor te não desprezam!"


Sebastião da Gama 

MNAA

 



Não é a orgia de talento que ressoa pelos corredores do Prado, mas não desmerece nada do tempo que lhe entreguei. 

Há uma pequena multidão (eu sei, é como o "beijinho grande") em frente às Tentações de Santo Antão, atenta às explicações (im)possíveis sobre os mistérios de Bosch, e vem-me à memória, o rapaz de barba curta e rosto de Cleópatra, unhas azuis impecavelmente pontiagudas e clutch pelo ombro, corrente dourada e fina, pasmado também diante d’ O Jardim das Delícias Terrenas, não sei se entre o Céu e o Inferno, se por amor a Deus ou ao Pecado.


do tríptico Tentações de Santo Antão, Hieronymus Bosch, MNAA

 


um arcanjo de Berlinde de Bruychere, entre Zurbarán e Ribera




Adoração dos Magos (pormenor), Domingos António de Sequeira


terça-feira, 2 de abril de 2024

Vemo-nos em Agosto

Gabriel García Márquez não queria, e lá teria as suas razões. Nem inconfundível, nem fascinante (ou nem por isso). E exuberante deve ser o que se diz quando não se quer dizer mal, porque o senhor não merece. A culpa foi dos filhos, ao que parece.

Não é mau, claro que não é mau, é Gabriel García Marquez, e um mestre há-de ser sempre um mestre; até na autocrítica. Mas está longe de ser fantástico. Digo eu, que faço tudo o que não se deve fazer na escrita: misturo o trigo e o joio, complico o que por natureza é simples, adjectivo compulsivamente e, obviamente, adverbo, muito, em modo, lugar, tempo, e tudo o resto que me apeteça mesmo sabendo que não devo.

Vou ali esbofetear-me. Ou reler Cem Anos de Solidão.


Castelo Surrealista

“O surrealismo foi um convite à poesia, ao amor, à liberdade, à imaginação pessoal. O surrealismo reuniu o romantismo, o simbolismo, o futurismo, as tradições literárias e outras correntes, e deu-lhes um sentido. Esse sentido não vai desaparecer, ficou explícito. Aquilo a que se chamou o surrealismo existiu sempre.

 Mário Cesariny

 

Não gostei da organização da exposição, mas isso importa pouco. O que importa é a linguagem, a mensagem, a liberdade vagabunda.


"Mona Lisa, Mona Lisa, Men Have Named You..."



O luxo que é viver em Madrid. Três magníficos museus no coração da cidade, dois deles com duas horas diárias de entrada gratuita a todos os públicos. Pasmar diante do Guernica de Picasso, uma experiência quase física, do arrepio na espinha à quase náusea. Pela brutalidade; do talento, da tragédia, do colosso.

Já não recordo a última vez antes desta que visitei o Museu do Prado, Dispensam-se grandes adjectivos ou outros espantos pungentes, até porque serão sempre insuficientes: aquilo é gente de conluio com o divino, não há outra explicação para que mentes e mãos humanas possam produzir arte assim. Para além do Deus quer, o homem sonha, a obra nasce, há o Deus desceu à Terra para encarnar no seio da Virgem Maria e se fazer, não um, mas vários homens que, por sua obra e Graça, se tornam também sobrenaturais; à “sua imagem”, só alguns. E algumas. Outro museu, o Thyssen-Bornemisza, rende, por estes dias (sendo que "estes dias" foram algures em Dezembro passado), homenagem a algumas dessas pintoras eventualmente esquecidas. Artemísia Gentileschi é, talvez, das mais conhecidas, Frida Kahlo mais actual, mas gosto especialmente de Henrietta Browne.

Mas é o Museu do Prado que me tem perdida; é um dos meus Museus. Tudo vive, tudo vibra. O Triunfo da Morte, de Bruegel, é uma visão assombrosa, e as pinturas negras de Goya, uma descoberta curiosa. Há, claro, As Meninas de Diego Velázquez. Rubens, van Dyck, Ribera, El Greco, Jordaens, Mengs, Ticiano, Caravaggio, Rembrandt, os demónios de Bosch, uma Gioconda que talvez seja mais original que a original exposta no Louvre. Apresentam-na como uma cópia – não vulgar, mas uma cópia –, embora as duas tenham sido produzidas paralela e simultaneamente: aquela, por discípulos de Leonardo Da Vinci e terminada antes, diz a placa identificativa. São idênticas. Menos do sfumato de Leonardo, diz quem sabe. Há as cores, claro, não são exactamente as mesmas. Não se pode fotografar. Com raríssimas e desinteressantes excepções, nada no Museu do Prado se pode fotografar. Um cão de guarda em cada sala zela ferozmente pela inviolabilidade da regra, e, embora haja sempre um prevaricador, entre o ousado e o fingidor, a senhora que olha pela Mona Lisa é vigilantíssima. Nem se percebe bem, porque algumas obras transitam do Prado para o Thyssen, e no Thyssen é possível fotografar. Sem flash. Não importa. Há que ir.