“Il faut éviter de penser à ces difficultés que présente le monde, quelquefois. Sans ça, il deviendrait tout à fait irrespirable”
Marguerite Duras
Os cachinhos do cabelo tremem-lhe como molas pendulares, ao ritmo da birra que o faz espernear deitado no chão do supermercado. Um miúdo daqueles a quem faltam muitos banhos de água fria, vê-se logo. O meu filho fez-me uma parecida, uma vez única: enfiei-o imediatamente numa banheira… mentira. Veio uma velha atrás mim, de carro, enquanto eu ainda lutava para enfiar o puto na maxi-coisa do meu: mas o que é que está a fazer ao menino, vou já aí, como se eu estivesse a estrangulá-lo. E veio. Deu a volta com o carro para saber, afinal, que mal fazia eu à pobre criança. Trazia sempre rebuçados no bolso, para os netos (dos outros também, evidentemente), e enfiou-se-me no carro, determinada a calar-me o menino a bem. Estive tentada a puxar-lhe o cabelo branco imaculado, mas estava exausta. O meu filho calou-se, eu tirei-lhe os rebuçados e a velha foi-se embora, a resmungar não sei o quê.
Adiante.
A irmã (parece uma irmã) do pequeno ditador segura-o pela
mão, enquanto o arrasta pelo chão, mas o diabrete resiste. Quando a irmã
desiste e lhe solta a mão minúscula, a fera levanta-se de um salto e corre para a
secção dos brinquedos. Não é aqui!, não é aqui!, ouço-o gritar lá
do fundo, com o cabelo aos saltinhos, a preparar nova investida.
Ainda não estou preparada para dizer mal. Não achei
péssimo nem fantástico.
É interessante e demasiado, belo e cacofónico, infantil e subtil, crítico e cómico, exuberante e trágico nem sempre no mesmo sentido da genialidade de William Shakespeare, apesar das citações e das poses artificialmente, propositadamente, teatrais e dramáticas.
Desarmonioso.
O que eu acho mesmo é que há um grau de loucura ao
alcance de poucos – pelos menos, em estado sóbrio – que às vezes invejo. Anormalidade
em estado puro.
Por acaso discordo. É mesmo um realizador de primeira. Apocalypse
Now – que também eu já vi várias vezes, e nunca deixa de me apunhalar e surpreender
– teria bastado. Impressionante. "Ouvir o filme. É o filme que nos diz como é
que se faz". É exactamente o que ali transparece. Esquizofrénico. Absurdo.
Tão boa, esta entrevista de Francis Ford Coppola ao Ípsilon.
Fotografia: Jeroen Hoekendijk
"A sperm whale in the Azores, photographed by Jeroen Hoekendijk, who spent a week on the archipelago capturing the abundance of marine life there. “This sub-adult female, about 10 metres long, hung beneath the clear surface of the water,” says Hoekendijk. “It almost looked like a chlorinated swimming pool – except that it was 1km deep.”"
Fotografia: Harish Tyagi/EPA
Sei que posso ser muito ingénua, mas há sempre pior. Por
exemplo: os que acreditavam piamente que Pedro Nuno Santos ia “analisar”, “ponderar”
e decidir “responsavelmente” viabilizar ou não viabilizar a proposta de Orçamento
de Estado do Governo de Luís Montenegro, há uma semana, quando era evidente desde a noite em que
assumiu estoicamente a derrota que o líder do PS não confiava
nada naquele “não é não”. Creio que a pressa vinha daí: uma vitória curtíssima
da AD mais uma subida estrondosa do Chega igual a aqueles tipos vão ter mesmo de
se entender, e eu posso lavar as mãos como Pilatos.
Luís Montenegro não será o estratega brilhante que levou
a sua vontade a bom porto contando com a impetuosidade suicida do enfant cada
vez menos terrible: soube esperar, arriscou, e, a dada altura, os astros
alinharam-se. No dia em que anunciou ao país as alterações ao Orçamento de Estado
para ir ao encontro das exigências do PS, ainda deglutia um pequeno sapo; muito
longe do sorriso quase escarninho de ontem. Esperou, desejou, conseguiu, diria
o senhor presidente. Esteve muito bem.
Podíamos, agora, parar por aqui no quem é que humilha quem,
mas o povo gosta de sangue e a comunicação social faz as exéquias com indisfarçável gula. Nem falo das
outras “forças políticas”, porque não há nenhuma realmente interessada em
discutir soluções; AD incluída. É uma guerrinha de bastidores, ataques pessoais,
mediocridade ao mais alto nível.
Ontem assinalou-se o Dia Internacional da Erradicação da
Pobreza. Portugal tem mais de dois milhões de pobres. Mesmo entre os que
trabalham a tempo inteiro, há quem trabalhe apenas para pagar contas. Será assim
tão difícil encontrar pontos comuns para acomodar uma discussão séria sobre
isto? Pergunta a parte ingénua de mim.
Nesta margem, a avenida é limpa e o bairro é chique. Há um leve cheiro a jasmim, e edifícios elegantes e esterilizados do outro lado da rua. Observo-os, perdida por detrás da lente da minha máquina fotográfica. Os outros seguem mais à frente. Os miúdos riem e falam de coisas que, à distância, apenas adivinho. É espantoso, o tanto que têm para conversar, juntos as quase 24 horas dos dias de férias.
As
árvores balançam com graça os seus ramos esguios, derramando, sobre o chão
escaldante, sombras negras, irrequietas, que logo escoam céleres pelos
sumidouros rendilhados que o sol torna mais brilhantes.
Vou distraída. Demoro um pouco a perceber que o homem se dirige a mim, em passo
largo. Um passo largo. Nem vi de onde veio, materializou-se diante de
mim, moreno de cabelo curto e negro, fardado; parece-se com um segurança. Levanta
a mão sem me tocar, não lhe entendo uma única palavra, mas sei que me manda
parar. Percebo, intuitivamente, que fiz algo que não devia. Uma fotografia. Aponta
para a minha máquina e mantém-me refém de uma suposta autoridade que me
confunde. Continua no meu caminho, impassível, e sinto o calor apertar-me mais.
Os outros, lá adiante, parecem distraídos. Não tarda, escapam-se à esquina da
rua e deixarei de os ver. Amaldiçoo-me por me ter deixado ficar tão para trás,
eu e os meus malditos instantes. Irrepetíveis, urgentes. Inadiáveis.
Continuo
a encarar o homem na minha frente. Estou agora certa de que se trata de um
problema com alguma ou algumas das minhas fotografias. Mostro o écran da
máquina e pergunto se devo apagar alguma coisa – não desconfio o quê –,
imaginando que me faço entender de algum modo. Segura na mão um walkie-talkie
obsoleto que aproxima do rosto enquanto olha para mim. Fala com alguém, e é
evidente que aguarda instruções. A esquina está cada vez mais próxima, mas não
quero chamar. Receio elevar demasiado a voz, denunciar-me na aflição
tonta que me agonia. O riso das crianças chega-me já encolhido, pálido, e o
calor também me ameaça.
Perco-me
por momentos, entre as sombras e os cantos do tempo, até o homem começar a
chamar-me, uma cacofonia insistente e confusa. Acaba por tocar-me no braço, à
altura do cotovelo, leve, mais suavemente do que sugere o enorme chinfrim em
que pretende que eu o entenda. Mas compreendo que posso ir, afinal, com a minha
máquina e as minhas fotografias intactas. Num devaneio inútil, desejo,
intimamente, poder entender e fazer-me entender todas as línguas do mundo.
Acabam
de chegar à esquina quando se voltam, finalmente, para trás. Mas já está tudo
bem. Volto a escutar as gargalhadas cristalinas, inocentes e alegres como
antes.
Há dias em que me deixo maravilhar pelo fenómeno Trump. O ex e parece que inevitavelmente próximo presidente dos Estados Unidos da América continua a acreditar (ou a fingir: para o caso e para a causa, é indiferente) que lhe roubaram a eleição de 2020; instigou os seus apoiantes à insurreição; não se demarcou dos cânticos que apelaram ao enforcamento de Mike Pence; promete perseguir e mandar prender opositores políticos; propõe um dia de purga, uma hora, vá, one really rough hour, para que a polícia possa fazer o seu trabalho livre de pressões políticas – que é como quem diz o que toda a gente suspeita –; incita permanentemente ao ódio, não só contra imigrantes, mas contra todos os que ousam dizer-lhe não; alimenta teorias conspiratórias que passam, agora, pela manipulação de fenómenos meteorológicos – de “semear” nuvens para produzir localmente chuva em regiões afectadas por secas, coisa possível, à criação de furacões obedientes, guiados como mísseis para atingirem deliberadamente estados republicanos. E, no entanto, surge como o candidato inabalável, imbatível. Intriga-me. Estúpidos ou não, não é (apenas) economia: diz quem sabe, a economia não está pior sob a administração Biden, antes pelo contrário.
Nada disto é novo, no entanto. Só nunca tinha sido omnipresente,
creio.
Donald Trump emergiu como figura política altamente, visceralmente, polarizadora, para se transformar num fenómeno cultural e sociológico de quase culto. O quase é para não deixar morrer a (minha) esperança.
Há os seus apoiantes incondicionais, capazes de embarcar em qualquer uma das realidades alternativas que o guru lança como pregões sobre a multidão em transe. O herói anti-sistema, um enviado de Deus, se não mesmo o próprio. Depois, há os cínicos. Não se sentariam à mesa para jantar com um patife daqueles, um narcisista sinistramente irritante, mas vêem em Donald Trump um veículo eficaz para aplicar a sua própria agenda; não destruir, mas moldar o tal sistema à imagem dos seus interesses, manobrando nos bastidores enquanto o show se desenrola, entretendo as massas. Será Donald Trump um político astuto ou um joguete nas mãos de vilãos mais poderosos? A História há-de mostrar, mesmo condenada a nunca ensinar.
Donald Trump tem esse carisma autoritário, repugnante, sociopata, que há-de alimentar sempre o fascínio pela transgressão, a ilusão de segurança pela força bruta, olho por olho, dente por dente, a coragem de romper convenções. E o espectáculo. A política americana sempre viveu do espectáculo. A democracia americana e a sua sociedade civil aguentarão melhor um segundo mandato de Trump ou uma nova derrota do republicano, desta vez para uma mulher que ele despreza (como, de resto, desprezará todos os que fazem questão de deixar claro que não estão para o adorar e servir)? Pacificamente, Donald Trump parece ser incapaz de aceitar até a própria vitória.