sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Verdade Sem Consequência

“Torne a mentira grande, simplifique-a, continue a repeti-la e, eventualmente, todos acreditarão nela.”

Assim construiu Adolf Hitler uma demente ideologia para tornar a Alemanha grande outra vez; assim se começa, hoje, a fazer política para ser levada a sério, quase oitenta anos depois do sanguinário e tresloucado genocídio de (maioritariamente) judeus sob o regime nazi.

Podia ser exagero, estabelecer comparações radicais entre a Alemanha de Hitler e a América de Trump, ou o Brasil que há-de ser de Bolsonaro; ou a Hungria de Viktor Orbán; ou a Venezuela de Maduro; ou os apelos nacionalistas de Le Pen e Salvini, o Brexit do Reino Unido, a subida da extrema direita na Suécia e na Europa, em geral. Podia ser exagero, não fosse dar-se o caso de – cada vez mais – a verdade ser descartável. Já ninguém se interessa pela verdade, até porque a verdade muda ao sabor do momento e o momento tornou-se instantâneo, fugaz como a chama de um fósforo, exuberante e fogosa, a princípio, para depressa definhar, enegrecida e em agonia. A verdade passou a medir-se pela ousadia do insulto fácil e popular; pela capacidade de vitimização dos tiranos, pela dimensão da fama e poder dos abusadores, pela falta de recato das vítimas, pelo oportunismo de ambos, pela assertividade e elegância da retórica cheia de nada, mas que enche almas desesperadas e exalta multidões cegas e esvaziadas de qualquer capacidade de pensar e reflectir.

 Nos dias de hoje, a política do pão e circo já não precisa da imponência do Coliseu, do desassombro e da perícia dos gladiadores ou do confronto violento entre animais selvagens. Basta um “estadista” imberbe com o despudor suficiente para ridicularizar o outro, seja uma pessoa com deficiência, um militar morto em combate, um apresentador de televisão ou uma mulher abusada. O povo aplaude, goza e rejubila. Já não faz falta debater ideias. Chamar um opositor político de “marmita de corrupto preso” faz mais pelo divertimento das massas do que discutir problemas reais, discordar e tentar encontrar soluções. A urgência dos tempos e das modas choca de frente e violentamente com a lentidão do apuramento da verdade, porque, essa, demora, não é efémera. E a negação da verdade mutila a justiça, que, se já não era completamente cega, foi impiedosamente esmagada pelas circunstâncias do acusado e do acusador, independentemente do crime. As provas deixaram de ser necessárias, foram substituídas por autos de fé. Há quem minta descaradamente no conforto da não existência de qualquer “prova”, mesmo que a história que conta seja absurda e há quem esteja absolutamente certo, quer da inocência, quer da culpabilidade de alguém apenas pela conjuntura do momento, pelo que fez ou deixou de fazer, pelos méritos ou deméritos alcançados até à data. Amar ou odiar, sem apelo nem agravo ou espaço para indagar.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Não nos envergonhem mais!

Azeredo Lopes indignou-se com Rui Rio, pela comparação do caso Tancos com a guerra de Solnado. Pois bem, eu indigno-me com este ministro burlesco que, em qualquer país decente, há muito já teria posto o seu cargo à disposição. O caso Tancos, há muito ultrapassou o patamar da anedota para passar ao do nojo e da vergonha! António Costa defende o importante “activo”; dá-se ao luxo de fazer comentários jocosos no Parlamento, tão à-vontade está no vazio de uma oposição digna desse nome, porque a falta de coragem é concubina do poder mesquinho e miudinho e ninguém quer perder o estatuto, por mais miserável. Entretêm-se, antes, a debater banalidades, atirando insultos como rebuçados, sem qualquer respeito pelas instituições que juraram honrar e representar. Compactuam com a fraude do outro para garantir o direito à fraude própria, quando a vez chegar. Dormem com quem ontem tratavam por inimigo, sem sobressaltos, sem insónias, sem dores de barriga ou de consciência, dormem sem pesadelos, ainda que sem explicar onde deixaram, entretanto, a verticalidade das convicções, a verdade dos credos, a seriedade das propostas, a honradez dos compromissos, a validade das palavras. Os argumentos políticos convertidos em contorcionismos linguísticos ao nível das conversas de café, o entretém do circo, a minha ironia é melhor do que a tua, casamentos e carochinhas varrendo indolentemente a dignidade de todos e nós, João Ratão, ardendo no caldeirão do escárnio.

Por favor, não nos envergonhem mais!

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

O Meu Feminismo É Melhor Que o Teu

“Sei porém que este tipo de mulher não me representa em momento algum, nem pode representar nenhuma mulher agredida. Aliás é o tipo de mulher que eu gostaria de nunca me cruzar na vida, jamais por exemplo andarei lado a lado numa manifestação de luta pela igualdade ao lado destas tipas.”

“Agora ver uma mulher que recebeu mais de 300 mil dólares de um homem para ficar calada e ficou, demonstra o esgoto moral que o Metoo é. Uma acusação de violação entre um casal que se relacionou está na capa de jornais mas uma mulher receber 300 mil dólares de um homem para não falar em público da relação e aceitar não é manchete, é normalíssimo...”

“Nunca recebi um euro de um homem para não falar sobre as minhas relações porque jamais falaria sobre os homens com quem me relacionei. As minhas familiares, amigas, colegas idem, nunca passei sequer perto de uma mulher ou um acordo deste tipo.”

 

Aquelas frases preciosas – e outras mais, igualmente elegantes e articuladas – foram escritas pela "historiadora, investigadora e professora universitária", Raquel Varela. A mesma "historiadora e especialista em conflitos sociais" que, aqui há uns anos, no programa Prós e Contras, não soube o que responder a um miúdo de 15 ou 16 anos que vendia T-shirts e pagava o salário mínimo às costureiras. As “mulheres deste tipo” não sei bem quem são; o meu leque de amizades e familiares é mais variado e menos impoluto. Mas, no caso, Varela referia-se ao tipo de mulher que ameaça a reputação de Cristiano Ronaldo.

Há mulheres tão puras e virtuosas que não se misturam com a escória. A violência sexual pode, asseguram-nos, acontecer a qualquer mulher, mas…umas põem-se mais a jeito do que outras. A violação é um crime hediondo, mas há tipas que estão mesmo a pedi-las. E, evidentemente, mulher séria, como elas, jamais venderia a dignidade, porque, se vendesse, perderia automaticamente, o direito a queixar-se. Então, não sabemos todos, como se comporta uma verdadeira vítima de violação? Deve ser formidável ser dotado de tanta sapiência e rectidão! E cansativo, também.

Do alto das suas cátedras amarelecidas e podres, muitos estudam o povo, mas não lhe pertencem. Limitam-se a debitar sentenças ocas embaladas numa presunção de intelectualidade, mas sem se misturarem muito, porque o Povo é interessante como objecto de estudo, em abstracto; mas o povo, esse que vive, ri e chora, é peganhento, cheira mal e é pouco educado.  Talvez por isso, Raquel Varela tenha também, em tempos, abominado o tipo de “fato de alfaiate de segunda, morador suburbano” de Pedro Passos Coelho.

O feminismo de Raquel Varela é polido e erudito. O meu é mais do tipo, nem todos os homens são violadores em potência, nem todas as mulheres são santas. Mas, isso não se mede pela profissão, fama ou estatuto social. E, tal como muitos portugueses, espero que Cristiano Ronaldo esteja inocente ou que seja exemplarmente punido, se for culpado, independentemente do tipo da tipa.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Chega!

O ponto de exclamação é meu, mas “Chega” parece que é o nome do próximo novo partido político português. André Ventura, para quem as ideias de Bolsonaro são “refrescantes”, não suportou o calor, talvez, do PSD de Rui Rio e vai avançar com uma “nova força política ao centro-direita”.

De momento, André Ventura ainda vai “apenas” pela defesa do fim do casamento homossexual, pelo regresso da prisão perpétua para homicidas e violadores e pela castração química de pedófilos, além da diminuição (para 100) do número de deputados na Assembleia da República. Assim de repente, com excepção da primeira, até parecem causas simpáticas e de encontro ao desamor e descontentamento do povo. É capaz de ser suficientemente radical para um país de brandos costumes, embora bem abaixo da fresca vitalidade do companheiro Jair. Por enquanto.

Também por enquanto, André Ventura estará muito longe de Marine Le Pen e de Matteo Salvini que, ontem, apelaram a uma “revolução” nas próximas eleições europeias, em Maio de 2019. Mas, talvez fosse melhor não subestimarmos aqueles que vêem o futuro, nomeadamente, o da Europa, sem os valores democráticos que tanto custaram a construir. Por muito insignificantes ou ridículos que nos pareçam à primeira vista, porque já vimos até onde isso nos pode levar.

Matteo Salvini, segundo li num jornal de referência, saudou a vitória de Jair Bolsonaro na primeira volta das eleições presidenciais no Brasil. Que palavra teremos nós a dizer?

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

A Implosão das Democracias (2)

Uma amiga que estimo e que não tenho por fascista, nem sequer por radical, confessou-me o seu voto em Bolsonaro. “O Brasil precisa de uma ditadura”, respondeu perante o meu ar de espanto. E continuou, “o criminoso, no Brasil, já não é um criminoso comum, a vida não vale nada, as ruas estão tomadas pelo crime, é impossível ter uma vida normal, criar os filhos, viver com tranquilidade. Eu não concordo com tudo o que Bolsonaro diz, mas é preciso alguém que contenha a escalada de violência”.

Uma coisa é um fascista defender Bolsonaro. Outra coisa, bem diferente e que tem, obrigatoriamente, de nos pôr a pensar a todos é uma pessoa comum, pacífica, educada, vivendo em função de valores democráticos, considerar que um homem como Bolsonaro pode ser uma solução para o Brasil. Como Donald Trump, para os EUA, e Viktor Orbán, para a Hungria, embora estes não estejam ao nível de Bolsonaro. Ainda?

Vale a pena lembrar que Bolsonaro preferia ter um filho morto do que homossexual; que afirmou que o voto, no Brasil, não mudará nada, só “uma guerra civil, fazendo o trabalho que o regime militar não fez”; que vai “bater” se “vir dois homens se beijando na rua”;  que não viola mulheres feias, porque elas não merecem; que o “erro da ditadura foi torturar e não matar”; que os seus filhos foram “muito bem educados” e, portanto, “não correm o risco” de se relacionarem com mulheres negras ou com homossexuais e ele, Bolsonaro, não discute “promiscuidade com quem quer que seja”. Ao quinto filho, Bolsonaro deu “uma fraquejada e veio mulher” e as mulheres devem ganhar menos do que os homens porque engravidam; os índios, ou, alguns deles, deviam “comer capim” para “manter as origens” e os pobres devem ser “esterilizados” como forma de combater a criminalidade e a miséria.

Admitindo que há muitos que votam em Bolsonaro e não partilham destes juízos, como explicar, de facto, a decisão de correr o risco de apoiar um homem como este?

Há quase dois anos, os EUA elegiam Donald Trump como o seu 45º presidente. Poucas semanas, poucos dias!, antes daquele 8 de Novembro de 2016, a grande maioria dos analistas e comentadores políticos, de vários quadrantes e nacionalidades asseguravam que Trump não seria eleito. Era impensável e impossível. E, no entanto, nem mesmo qualquer um dos típicos escândalos – sexuais, financeiros, de interferência política – que já fizeram cair outros candidatos presidenciais e abalaram reputações chegou para abanar Trump, antes ou depois da sua eleição. As instituições que, afiançavam-nos, iriam contrabalançar o poder do presidente dos EUA, eram o garante inabalável do normal funcionamento das instituições democráticas americanas. As convicções informadas, esclarecidas, eruditas, experientes, vão caindo como peças de um dominó populista, demagogo e demoníaco, sem escrúpulos, porque as pessoas estão cansadas, incrédulas e assustadas. E desesperadas!

A imposição de um “politicamento correcto” que nos tornou refém das palavras e minou os debates políticos e sociais; os movimentos activistas que querem promover uma igualdade que apenas oprime diferentes formas de pensar; a exaltação dos direitos das minorias como formas veladas de reeducação em massa das sociedades, confundido a obrigação do respeito pelo outro com a negação da identidade do próprio; a visão romântica e simplista de que todos os problemas sociais são possíveis de resolver com solidariedade e “aceitação”, e a soberania ignorante e descontrolada do logro sofisticado – ou apenas popular – instigado pelas redes sociais, esmagou a verdade, a vontade, a cultura, a civilidade e, pior, a capacidade de reagir e contrariar.

Os políticos sem escrúpulos crescem, estão bem e começam a recomendar-se porque a verdade deixou de ser importante, a justiça deixou de ser cega e os factos passaram a ser, não só alternativos, como moldáveis à vontade de cada um.

O Brasil não sobreviverá a Bolsonaro e eu temo que a Europa sucumba à onda de "segurança" promovida pelo medo.

domingo, 7 de outubro de 2018

A Implosão das Democracias

Hoje, Bolsonaro vai sair vencedor das eleições no Brasil. Ontem Brett Kavanaugh foi confirmado juiz do Supremo Tribunal dos EUA.  Na passada semana, Trump gozou (para gáudio do seu público circense) com a mulher que se apresentou, no Senado, como vítima do novo juiz, apesar de ter reconhecido, anteriormente, que o seu depoimento parecia credível. Os famosos checs and balances que todos os entendidos juravam que garantiriam a democracia americana apesar do seu presidente, parecem ruir como castelos de cartas. Pessoas supostamente educadas, esclarecidas e informadas sucumbem aos juízos mais primários, confundindo vontades, desprezando factos e distribuindo insultos por quem tem opinião diferente. O Porto e o Benfica jogam hoje e, como sempre, esse é um tema que ocupa as televisões desde a manhã, porque, em Portugal, só o futebol tem direito a horas e horas de emissões contínuas, porque nada é mais importante para o país. O presidente da Interpol está desaparecido, quiçá, preso pelas autoridades chinesas, mas isso é apenas uma nota de rodapé. A Serra de Sintra voltou a arder. E eu estou zangada.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

"Estava disponível para"...ser violada?

Nos meus tempos de adolescente, quando comecei a sair à noite, os meus pais davam-me conselhos, como faz a maioria dos pais. Nunca eram proibições porque quem percebe qualquer coisa de miúdos e adolescentes sabe que não vale a pena proibir o que quer que seja. Mesmo os mais sensatos, inteligentes, ponderados, introvertidos e “santos” têm, em algum momento, um deslize só porque sim, porque nunca fazer um disparate também é estúpido e, além disso, cansa.

Nessas saídas nocturnas, também não me era imposta uma hora para chegar a casa. Mas não me era permitido sair todos os fins-de-semana e, enquanto não tive carta de condução, quem me ia buscar a casa tinha que estacionar o carro e subir, temos pena. E, quem me ia buscar, também era responsável por me trazer, mas, eu sabia que se alguma coisa corresse menos bem, ou muito mal, podia ligar ao meu pai para me ir buscar, fosse onde fosse e a que horas fosse. Mesmo que fosse uma amiga, e não eu, a precisar de ajuda, podia contar com o meu pai e com a minha mãe. Foi sempre assim e acho que só nos últimos anos, já na idade adulta e sendo também mãe tenho plena consciência desta sabedoria dos meus pais, já há tantos anos, primeiro comigo e, depois, com a minha irmã.

 Entre os conselhos que, nomeadamente, o meu pai me dava estavam o “nunca largues o teu copo”, “nunca aceites bebidas de ninguém”, “prefiro que não fumes, mas, se fumares, eu compro-te os cigarros”, “não vás à casa de banho sozinha” e outras coisas aparentemente tão básicas e, no entanto, tão avisadas e actuais. Nunca, no entanto, me disse o meu pai não vistas essa mini-saia, não uses salto alto, não pintes os lábios de vermelho. E também nunca me disse se fores sedutora com um homem, se aceitares ficar sozinha com ele e te rires coquetemente dos seus disparates, prepara-te, minha filha, porque estás mesmo a pedi-las e se, por acaso, ele te violar, azar, não o tivesses provocado. Mas, lá está, isto era o meu pai que é e sempre foi um homem inteligente, sério e digno, qualidades que parecem cada vez mais raras nos dias de hoje.

Entre os comentários que mais me enojam na desculpabilização de um abusador sexual estão, exactamente, aqueles que estabelecem uma tosca, arbitrária e asquerosa relação de causa-efeito entre o que a vítima veste, diz ou faz e o consequente (?) abuso ou mesmo violação. O circo do momento é defesa incondicional e acéfala de Cristiano Ronaldo, o mítico e inatingível CR7, o atleta de outro planeta, o melhor embaixador do Portugal da moda e a quem, supõe-se pelos comentários de alguns imberbes, as mulheres deviam pagar pelo usufruto da sua magnânima presença e, não, queixar-se de supostas violações. E, é verdade, Cristiano Ronaldo é um atleta fora de série, nada disso está em causa.

Eu não sei – e, parece-me que, ninguém a não ser os próprios – se Cristiano Ronaldo violou ou não Kathryn Mayorga. Mas tenho o mínimo de inteligência para suspeitar, pelo que li no extenso artigo da revista alemã Der Spiegel, que, se a “história é estranha” ou “está mal contada” é mais pelo lado de Ronaldo. A Der Spiegel é uma revista séria e afirma estar na posse de documentos válidos e comprometedores para o atleta, entre outras coisas, que só não sabe quem não quer saber, porque estar informado e tirar conclusões pela sua própria cabeça está fora de moda. É melhor consultar o facebuque e ler caixas de comentários nos jornais que ainda o permitem. É mais fácil, relativamente barato e dá milhões…de likes.

Por outro lado, sabemos que, infelizmente, a justiça não é, de facto, igual para todos; quanto mais não seja, porque só alguns tem capacidade financeira para pagar os honorários quase obscenos dos advogados mais expeditos e ardilosos. Por isso, não é provável que uma mulher desconhecida, com um passado que não é propriamente o de uma freira casta, abnegada e isenta de calores pecaminosos, se atrevesse a acusar um semi-Deus do desporto, adorado e idolatrado, só à procura de fama e de dinheiro. Vamos lá fazer um esforço por não insultar a inteligência de quem tem mais do que dois neurónios e os usa, pasme-se!, para reflectir e duvidar.

E, quando é uma mulher a tecer comentários machistas e a atacar outra mulher, sem conhecimento de causa, num crime hediondo como é o da violação, só me ocorre desejar (apesar de não ser muito católica) que Madeleine K. Albright esteja certa e que o Inferno tenha, realmente, um lugar especial para as mulheres que não ajudam outras mulheres.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Não é Defeito, é (Mau) Feitio

“A moderação é uma coisa fatal (...). Nada tem mais sucesso do que o excesso”. De modo que, vários homens e mulheres de sucesso têm, de quando em vez, os seus genuínos e apopléticos excessos. Os atletas e desportistas de topo, por exemplo, manifestam, muitas vezes, esses dramáticos excessos com explosões de personalidade, adrenalina e testosterona, sendo que – estando a Biologia a aproximar-se do género ciência oculta – a última já há muito deixou de pertencer exclusivamente ao género masculino.

Desde partir raquetas e insultar árbitros, a pontapear ou socar adversários e (porque não??) apertar o travão dianteiro da mota de um outro piloto, em pista e a uma velocidade, assim, parece que, a mais de 200 km/h, vale de tudo porque o mundo da competição não é para meninos. Nem para meninas. Ou, pelo menos, não é para meninos e meninas bem educados; craque que é craque deve possuir, e exibir!, a sua boa dose de mau feitio.

Mas, como há castigos mais exemplares do que outros, porque os excessos também não são todos iguais, Romano Fenati, piloto italiano de 22 anos, foi suspenso, desclassificado, despedido e perdeu a sua licença de competição, depois de se ter vingado do colega que também já tinha sido mau para ele, durante a prova de Moto2 em San Marino. Agora, Fenati vai voltar a estudar para ver se aprende a arte de como não estragar, de forma estúpida e em poucos segundos, uma carreira promissora.

Imagino que, como habitualmente, ainda muita água há-de correr. Afinal, exibições violentas de anti-desportivismo são, como muitos dizem, a “imagem de marca” de muitos atletas e ainda se vai defender que o miúdo, coitado, não merece, porque palermas são como os chapéus: há muitos. De preferência, belos, moderadamente limpos, mas eternamente maus.

sábado, 8 de setembro de 2018

Das Indignações e das Cretinices, em Todas as Suas Formas

Bem sei que está na moda a eterna e benevolente (às vezes, arrogante) tolerância por todas as formas do que quer que seja, desde a de expressão à da liberdade de debitar cretinices várias, umas inofensivas, outras, nem por isso. De tolerância em tolerância, de opinião em opinião, de liberdade em liberdade, confundindo direitos com embustes e minorias com sofisticados impostores, vamo-nos encarregando de destruir uma civilização que construímos e que a generalidade de nós estima. Infelizmente, para manter essa civilização, há que respeitar um conjunto de regras. Uma delas implica usar a cabeça para pensar com base em factos; para, por exemplo, poder distinguir entre ciência e crendice saloia, mesmo que a última possa ser muito mais apetecível. Observamos, colocamos uma questão, formulamos uma hipótese, fazemos uma previsão baseada na hipótese, testamos a previsão e usamos os resultados para tirar conclusões. Assim avança o conhecimento baseado no método científico. É infalível? Não. Mas é inteligente. Um pouco maçador, por vezes, sem o glamour e o ímpeto apaixonado e apaixonante dos achismos do momento e magnificência avassaladora da vida nas redes sociais. Mas permitiu-nos feitos extraordinários. Não fosse a ciência aliada à tecnologia, muitos dos indignados e defensores acérrimos de todas as formas de opinião não teriam como ocupar as suas maravilhosas (e intermináveis!) horas livres.

Ora, vem isto a propósito de quê? Bom, de há uns anos a esta parte, a propósito de quase tudo e mais alguma coisa, desde os muito chiques movimentos anti-vacinas à exaltação portuguesa da cultura cigana determinando que uma rapariga de 15 anos não estará abrangida pela escolaridade obrigatória porque, entre outras coisas, “possui as competências escolares básicas, por necessárias, ao desenvolvimento da sua actividade profissional” e à “integração social no seu meio de pertença”. Fantástico. Mas, no momento, vinha a propósito da discussão sobre se uma Universidade prestigiada, como a do Porto, onde, por sinal, me licenciei em Química, deveria ou não dar palco a um conjunto de “pessoas cientificamente muito válidas” que negam que o problema do aquecimento global esteja directamente relacionado com a actividade humana. “É um facto que não existem alterações climáticas provocadas pelo homem”, defende o meteorologista britânico Piers Corbyn. É? Por seu lado, Nils-Axel Mörner não tem dúvidas ao afirmar que o aumento dos níveis da água do mar não tem nada a ver com o degelo dos glaciares, mas com outros factores, como “a velocidade a que a Terra gira”; e, quando confrontado com dados que contrariam a sua versão, responde que (em 2003) “o registo de altimetria de satélite foi misteriosamente alterado de forma a sugerir um aumento abrupto do nível do mal de 2,3 milímetros por ano… Isto é um escândalo”, embora não haja qualquer prova deste “escândalo” conspirativo. É verdade que muitas destas pessoas têm formação académica; são geógrafos, engenheiros, professores universitários. Mas também já ouvi gente com formação em Química, que é a minha área, falar na memória da água para defender os benefícios da homeopatia, por isso…

Mas, deve ou não deve a Universidade do Porto, ou outra qualquer Universidade de referência, promover conferências como esta? Eu penso que não. Não que eu seja a favor de calar vozes discordantes, como acusam muitos dos nossos mais ilustres intelectuais, mas porque, como dizia, há uns tempos, Barak Obama, numa conferência, “se eu disser que isto é um púlpito e vocês disserem que é um elefante, começamos a discutir por onde?” Pois.

Afirmar que uma maçã é uma pêra ou que uma azinheira não é uma árvore, que o branco é preto ou que o preto é branco, não é opinião, não é liberdade de expressão, é o absurdo da imbecilidade e não serve como ponto de partida a uma discussão séria.

Criticar as políticas de Israel é uma opinião que pode e deve ser discutida, negar o holocausto é estúpido. Manifestar preocupação com possíveis efeitos secundários de vacinas pode e deve ser discutido, negar o enorme avanço em termos de saúde que os planos de vacinação representam é, no mínimo, grosseira ignorância. Discutir até onde a actividade humana afecta o efeito de estufa é uma opinião que pode e deve ser discutida, negar que essa actividade contribua para o aquecimento global é idiota e lamento que a “minha” Universidade tenha dado espaço à promoção dessa idiotice.

Ao promover, acriticamente, todas as formas de expressão, começámos a confundir o que não pode ser confundido e a comparar o que não é comparável, dando lugar a um histerismo em massa, amplamente difundido pelas redes sociais onde tudo se propaga a um ritmo vertiginoso. E, se são admiráveis a facilidade e a rapidez com que podemos consultar um livro de referência, um artigo competente, uma imagem icónica, um estudo sério, uma notícia cor-de-rosa, um mexerico de famosos ou as últimas tendências de moda, é assustador a lavagem cerebral a que nos permitimos por recusarmos dizer basta com medo de sermos acusados de intolerância.

Há uma forma boa, ou útil, de censura? Não sei. Talvez a discussão devesse começar por aí.

sábado, 18 de agosto de 2018

Bullying de Carvalho

A telenovela Bruno de Carvalho vs Sporting continua. Mais um dia totalmente dedicado a essa tão miserável quanto arrebatadora personagem, dona e senhora de uma habilidade inabalável e insuperável para manipular tudo e todos, com a comunicação social à cabeça. Hoje, o país continua refém dos transtornos emocionais de um reles desordeiro.

Porém, pecadora, me confesso. Nunca tinha visto (eventualmente, também em Donald Trump) um psicopata em acção, ao vivo e a cores, e estou absolutamente fascinada. Com aquele fascínio tremendamente mórbido que qualquer um de nós pode sofrer momentaneamente, mas não menos vergonhoso; pode ser a contemplação, pausada e macabra, de um acidente de automóvel, a esmagadora estupefacção perante a horrível derrocada das míticas Torres Gêmeas, o crepitar assassino e voraz, implacável, das chamas de Pedrogão, ou o bullying grotesco e insano do senhor Bruno de Carvalho.

Bruno de Carvalho deve ser, suponho, um apaixonante caso de psicopatologia. Mas, na verdade, o mérito não é exclusivamente seu. Está assessorado, por um lado – e de forma competentíssima – por jornalistas, televisões, amigos e inimigos, ex-apoiantes e vassalos e, por outro – e de forma perigosíssima! – por advogados cheios de expediente, que manipulam, com elegância e douta maestria, as minudências da lei, ou a ausência dela, e todo o tipo de outros subterfúgios jurídicos e assim-assim. Entre estatutos, notas de culpa, destituições, providências cautelares, tudo e mais alguma coisa que sirva para iludir e ludibriar, sem qualquer intenção de promover a verdade e a legalidade. Não têm vergonha?

Dá-me um certo asco ver como alguma suposta Justiça e alguns dos seus ilustres agentes promovem este circo, absolutamente deplorável, de verdades meias e delírios completos que vão talhando ao sabor dos acontecimentos e dos desvarios de um homem absolutamente alucinado. Não servem a Justiça. Antes, servem-se dela como de uma prostituta, adulada ou proscrita, consoante melhor servir os interesses do cliente.

Bruno de Carvalho está para o Sporting e para os sportinguistas como os maridos violentos estão para as suas vítimas: dominando pelo medo, controlando pela agressão, intimidando pela humilhação, amando com selvajaria, desejando com ódio, até à aniquilação total do objecto da sua doentia cobiça. No fim, lamentar-se-á a morte e todos tentarão fingir que não foram cúmplices, ou porque nunca viram, ou porque, oportunamente, optaram por deixar de ver. O folclore clubístico não deve tirar o sono, a não ser, eventualmente, aos adeptos mais emocionais. O circo mediático com o apoio de alguns advogados “brilhantes” e “prestigiados” na promoção da desordem, do ódio, da intolerância, do insulto fácil e desassombrado devia assustar-nos a todos.