segunda-feira, 4 de maio de 2020

Tele(sobre)viver


Fiquei em casa assim que fecharam as escolas. Por questões de trabalho, algo contrariada, e com a sensação de que o caso não era para tanto, embora fosse bastante mais do que a gripezinha que se fez refrão dos que cospem as entranhas contra a mansidão do povo. Afinal, já se desenhava a lágrimas a tragédia em Itália, as mortes iam ganhando contornos alarmantes e, logo no início de Março, ampliaram-se, aí, as medidas da quarentena que se tornou, subitamente, o eixo do mundo. Mas resistia. Sem grande escolha, na verdade. Sem os habituais pupilos a quem explicar presencialmente os meandros das ciências exactas e inexactas e o contrabalanço das regras por que se regem os labirintos da educação, por força do vírus e dos seus desígnios não fui capaz de prosseguir adiando os dias de cárcere e dos silêncios com que me bastava quando eram outras as circunstâncias.
Entre o teletrabalho, a telescola, a televigilância, a telecensura, enfim, esta telexistência insalubre que nos invadiu os dias e nos assoberbou de desassossego e histeria, limitei drasticamente o número de saídas à rua. Uma vez por semana para compras no sítio de sempre, onde, com a excepção do álcool, das luvas que usei toda a minha vida emancipada, e a outra inclusive, e do desinfectante de que me fiz aliada contra bactérias, ainda este vírus não era vírus, nunca vi faltar nada, sem nunca ver, porém, carrinhos de compras esmagados pelo peso do apocalipse anunciado na forma de açambarcamento (até a palavra é reles) de bens de primeira e última necessidade. Talvez seja uma questão de sorte, ou da hora do dia a que vou, manhã cedo, ao abrir da normalidade que resta e se arrasta.
Mas, falava das saídas escassas. As das compras, por necessidade, e, mais raramente, as do lazer possível para manter uma réstia de sanidade.

Ainda não consegui habituar-me ao distanciamento que nos obriga a fugir dos outros. Constantemente. Ao trocar de passeio à menor suspeita de que nos cruzaremos com alguém a menos dos 2 metros higiénicos, redentores; a ser olhada com arreganho soberbo se não tomo a iniciativa de me afastar o suficiente para manter a nova ordem.
Esta náusea com que aprendemos a medir-nos sem pudor, a diário, permanecerá para lá deste tempo, ou o medo que nos despedaça a vida impedir-nos-á, também, de colar os cacos do que sobrar de nós e dos outros?
Pesa-me esta desconfiança surda, palpável. Temo-a mais que ao vírus.

Circunstâncias Sociais


Chegam, com estrondo, à caixa auto-serviço. O miúdo tenta ajudar, mas a máquina é implacável e vai resmungando bips de protesto contra a altercação da ordem pré-estabelecida pela engenharia que a comanda. A mãe exaspera-se. Uma daquelas mães cujo desespero em crescendo transparece com caprichada fúria e a dose de drama necessária para atrair todas as atenções. A assistente vai olhando de soslaio com o enfado típico de quem se fartou de presenciar dramas de mães exasperadas e outros de gravidade idêntica. 
A máquina grita - com a mãe, com o miúdo - a assistente, sem sair da cadeira, atira com um ainda não pode tirar as coisas daí, o miúdo encolhe-se, a mãe tem a máscara pelo pescoço e os nervos por todo o lado e vai rosnando contra a incompetência do filho, de todos os filhos, vocês agora não têm jeito p'ra nada, desfiando, em seguida, um rol de rosários de sentenças e agravos, até que a assistente lá se decide, finalmente, a prestar algum auxílio no resgate das verduras que mirram do lado errado do mono de metal e acrílico programado ao detalhe para lhe facilitar a vida.
Voltamos a cruzar-nos no parque de estacionamento. A mãe, agora, de máscara no sítio, já toda ela amor e doçura, de brandos modos, segurando os sacos de compras sem a menor denúncia de alvoroço de há pouco. Só o miúdo continua encolhido. Os olhos turvos esbarrando nos meus.

sábado, 2 de maio de 2020

Depois do confinamento



Pergunto-me como vai ser a vida depois do confinamento. Como irão conviver os do rebanho com os do tudo isto é um exagero, independentemente da máscara de cada um. Vamos olhar-nos de lado e mandar às urtigas o amor pelo próximo que derramámos às janelas virtuais e convencionais nas últimas, longas, semanas, ou seremos capazes de nos tolerarmos, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza que há-de vir, até que a liberdade de viver sem medo de morrer nos faça esquecer do perigo que é existir?

Às armas!



JEFF KOWALSKY/GETTY

Leio que, no estado de Michigan, nos EUA, há manifestantes armados a protestar contra as medidas de confinamento impostas, por estes dias, aos habitantes. Seria inevitável, num país onde comprar legalmente uma arma é quase coisa para crianças e onde o presidente apela, ou finge, à responsabilidade cívica às segundas, quartas e sextas, e à rebelião do povo contra os seus governadores às terças, quintas e Sábados. Aos Domingos deve rezar pela perpetuação do poder que pretende eterno. 

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Manobras de Diversão


Photograph: Jim Lo Scalzo/EPA

Donald Trump sobreviveu ao processo de impeachment com a esperada bênção dos republicanos apostados, como ele, em manter-se no comando a qualquer preço. Não se tivesse instalado o caos à custa da pandemia do século, Novembro chegaria sem sobressaltos e, com ele, a canonização do maior presidente que a América já viu e o mundo pasmou. Nem seria preciso matar ninguém a tiro, em plena 5ª Avenida. Mas, a morte é caprichosa, implacável, e o momento Fifth Avenue de Donald Trump instalou-se com aviso mas sem remorsos, e a confiança do homem de imensa e superior sabedoria começa a fraquejar. 
O pânico, como a pressa, é mau conselheiro. Para desespero do autoproclamado génio, há considerandos indespedíveis, surdos a qualquer nível de insulto, insubornáveis e pouco dotados de obediência. É a covid, estúpido, ou lá como é que se diz.
No rescaldo, à falta de melhor arma, o Presidente dos Estado Unidos da América dispara com as que podem causar mais estragos entre as extraordinárias circunstâncias que ameaçam a sua reeleição. Para grandes males, grandes remédios. Se não se pode iluminar, nem lixiviar, pode-se ludibriar. Servem-se vídeos gulosos sobre estranhos avistamentos ovnícos, com a bênção da Casa Branca, enquanto se agita com esmerada devoção a teoria do vírus chinês, agora com provas trumpistas, inequívocas, mais ou menos, como ele só, de que o bicho foi mesmo gerado num laboratório do dito território. Se não for suficiente, há-de mudar-se o estilo da figura, ou a figura de estilo, que o show, perdão, a economia, ao que parece, não deve nem pode parar. E eles andam aí, chineses ou não, a embalar o Biden, com o pérfido desejo de impedir o estrondoso sucesso da administração Trump, patifes (ainda que o sejam). O tempo é de guerra e, como não podia deixar de ser, estalou o inevitável escândalo sexual – não questiono a verdade da denúncia, aparentemente, nem sequer é verdadeiramente nova, não faço ideia, de repente, parece que todos os homens para lá dos sessenta foram, em seu tempo, num qualquer, uns pervertidos nojentos; excepto Trump, claro está, o único que se pode gabar, loud and clear, de agarrá-las por onde muito bem lhe apetecer, nada belisca a magnificência de Donald, great guy, the best, may god himself bless a sua américa.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Desconfi(n)amentos

 

Uma, pelo menos uma, das palavras não existe, eu sei, mas, como divago entre conspirações, aplica-se.

Que “a realidade supera a ficção” é daqueles clichés, como se diz, que se resgata de cada vez que o mundo – mesmo que seja só o nosso, num momento – nos espanta. E o mundo espantou-nos para lá do razoável. Esbofeteou-nos. Ninguém estava preparado para o que por aí veio, também costuma dizer-se. A diferença, dramática, está na extensão da tragédia. Nos dias que se arrastam, penosos, à mercê dos números e dos modelos matemáticos que a pandemia insiste em iludir. Há uma cacofonia de modelos, e métodos, e percepções, e abstracções, e juízos atabalhoados, erres-zero e erres-tê que marcam a fronteira onde a teoria e a prática esbarram com estrondo, ora no número de infectados, ora no das mortes que engordam as notícias, a notícia, e a curva que se quer plana a todo o custo, sem que que o custo se revele igual para todos. Morre-se da doença ou morre-se da cura, ouve-se, encurralados que estamos entre ponderações que nunca pensámos ter de fazer, não assim, não em directo, escandalosamente.

Percebo que se discorde, percebo que é importante pensar contra-corrente para que se possa avançar, encontrar alternativas, delinear estratégias, apontar soluções. Já percebo menos a contra-corrente apenas para ser do contra, o chique que é agora, entre a classe dita instruída, académica, especialista, científica, até, dissertar sobre a encenação montada pelos vários Governos para amansar os seus rebanhos, a coberto de uma pandemia que – segundo os iluminados – existe mas pouco, ou nada, ou existe com o propósito diabólico e único de instalar o medo, amordaçar livres vozes e suspender a democracia por muito mais do que alguns meses.

Por partes, e sem modelos matemáticos – que os há para todos os gostos, e erres, e esses, e sigmas, e intervalos de confiança e desconfiança, variâncias e afins.

Como não podia deixar de ser – em sendo plana a Terra, a vacinação um plano obscuro com o único e pérfido intuito de enriquecer a indústria farmacêutica e seus derivados, a ida à Lua uma pitoresca produção de Hollywood e o aquecimento global uma inevitabilidade mais Terrestre do que terráquea, quando não fictícia -, conjuram-se avisos de alerta contra a patranha. A maior de todas, a taxa de mortalidade da Covid-19. Todo um mar de teorias. Mesmo que seja uma e o seu contrário. Morre mais gente por Covid-19 do que aquilo que o Governo admite. O Governo mente para evitar o pânico. Morre menos gente por Covid-19 do que aquilo que o Governo admite. O Governo mente para gerar o pânico.

É evidente que nunca nos contam tudo. Seria mais do que ingenuidade acreditar no contrário. A pandemia e o medo que (também) a alimenta servem tentações várias, inclusive a de impor regimes autoritários, e é preciso olhar atentamente para o que está a acontecer, por exemplo, na Hungria. Mas há teorias e teorias, conspirações e conspirações. E, francamente, explicar as imagens brutais de mortos empilhados em camiões frigoríficos, deslocados em camiões militares, enterrados numa espécie de produção em série macabra, sem direito ao tempo e ao espaço dignos da despedida, com a lentidão dos serviços funerários, por medo de tratar dos mortos e/ou necessidade de os transferir para pontos centrais por obrigações dos sistemas de saúde, e outras coisas que tais, está, para mim, ao nível do resfriadinho do Messias que não faz milagres e da tremenda luz que ilumina os alucinados, lixiviados e desinfectados por dentro e (menos) por fora.

 

Outra coisa bem diferente é discutir os riscos que queremos correr. Com verdade. Assumir que o país - os países - não pode permanecer encerrado em casa, que nem todos continuam a receber salário, muito menos, por inteiro. Que há um certo privilégio em ficar em casa que não assiste a todos e que se estende para lá de hashtags fofas, das aulas de catequese do Rodrigues Guedes de Carvalho, das palmas à janela e das sessões de ópera do meu vizinho de frente: sou sensível a tudo, mas, como muitos, já esgotei a graça de tal estado de coisas. Os equilíbrios que urge encontrar e nos inquietam – entre a saúde e a economia, entre a segurança e a liberdade, entre a vida e a morte – já são suficientemente graves e dramáticos, não carecem de delírios. E também não são de hoje, os equilíbrios e os desafios que enfrentamos. A diferença está em que o "hoje" despiu-nos, e nem sempre gostamos do que vemos.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

"Nós, os velhos"

Não sei bem se são as crises que fazem os líderes, como profetizam alguns. Mas, seguramente, são as crises que nos despem e nos revelam. E, nesse sentido, farão eclodir esse “nós” que há em nós; eventualmente, esse carácter de excepção, privilégio apenas dos melhores entre os melhores.
Nos últimos dias - semanas que mais parecem meses, que se arrastam ao dissabor dos números: de infectados, de mortos, dos poucos recuperados - tenho prestado (mais) atenção à forma como esperneiam os vermes. Não deixarei de espantar-me, nunca, com o culto que se presta à cobardia mais abjecta. Foi, por isso, reparador ouvir a entrevista do General Ramalho Eanes, ex-Presidente da nossa República Portuguesa, ontem à noite. No mínimo, reparador, sim. E já é bastante, neste tempo que se nos escapa por entre os dedos, por entre o choque e os estados de alma.

"Nós os velhos", nós os novos, nós os de todas as idades, de todas as cores, de todos os credos, de credo nenhum, agradecemos a lucidez, o sentido de Estado e a tal coragem que distingue Uns dos outros; dos simplesmente imbecis, sem distinção de género, sobretudo, já que cabem todos no mesmo.

domingo, 22 de março de 2020

Em desalinho

 

Os últimos dias abateram-se sobre nós com a fúria implacável que costumam ter as tragédias naturais: sem piedade, sem contemplações de espécie alguma, sem pudor nem remorsos. Olho para os números (é mais suportável, se formos números?) de Itália e pasmo de incredulidade, e de algo mais que ainda não aprendi a definir. Ainda não aprendi a definir uma enormidade de coisas.

Um dia qualquer desta semana – uma semana, apenas? –, ao ouvir Boris Johnson anunciar, finalmente, uma série de medidas da contenção possível em tempo de todas as incertezas, o meu filho perguntava, sem esperar pela resposta, “já ninguém se lembra da Theresa May, pois não?”, e, naquele desabafo infantil, inocente, resumia o atropelo de acontecimentos que tentamos fazer encaixar com a resiliência que nos falta quando achamos que somos invencíveis.

De todas as metáforas com que nos entretêm, a da onda gigante que varreu (e não terminou, ainda) impiedosamente o nosso modo de vida é a que me ocorre mais vezes. E, ainda assim, a comparação é quase obscena. Também não estamos em guerra, mas, talvez seja possível virmos a olhar, depois disto, com menos distanciamento para outras guerras, as que mantemos à distância higiénica e segura de um écran de televisão chique. 

A propósito de guerras - ou de que imaginamos ser a ameaça maior à nossa existência-, enviaram-me, ontem, o vídeo de uma palestra de 2015, onde Bill Gates avisava quem o ouvia de que seria mais sensato – e urgente – prepararmo-nos, eficazmente, para a probabilidade de virmos a enfrentar um vírus altamente contagioso; mais do que, propriamente, uma guerra. Nuclear, no caso.




Não estávamos preparados, como não estamos preparados. Nunca estamos preparados.

Não olho para esta pandemia como a remissão bíblica, ou romântica, de todos nossos pecados. Como se a consequência natural de toda esta balbúrdia inusitada(?) e sinistra fosse um idílico mundo melhor; tardio, sim, mas inevitável, obviamente emergente dos nossos escombros, como a Fénix que ressurge das suas próprias cinzas. As águas mais limpas dos canais de Veneza (mesmo sem golfinhos, nem cisnes - precisamos de acreditar em qualquer coisa...), o chilrear ressuscitado de pássaros regressados, a dramática diminuição da mancha de poluição sobre os céus, primeiro, da China, depois, de Itália, ainda não chegam para me fazer sonhar com as coisas boas que hão-de vir. E hão-de vir, seguramente. De que outra forma poderíamos manter vivo isso a que chamamos esperança? Mas, enquanto isso, há gente que morre sem tempo para lágrimas. Mais uma vez, as imagens que chegam de Itália, as notícias que chegam de Espanha, da Síria, e de todos os cantos do mundo onde a tragédia se instalou sem pedir licença, são avassaladoras. O preço é demasiado alto.

 

No outro dia, no fim de mais um “Governo Sombra” - numa grelha programática onde ainda se ensaia a normalidade possível - ouvi o Carlos Vaz Marques citar uma frase de Franz Kafka: “Não é necessário saíres de casa. Ficas à mesa, e escuta. Não escutes sequer; espera. Não esperes sequer; fica completamente quieto e só. O mundo oferecer-se-á para que o desmascares. Não lhe resta outra coisa. Arrebatado, contorcer-se-á perante ti.” Costumava gostar de silêncios. E dessa solidão que nos preenche quando estamos em paz. Se essa paz me escapar, não saberei o que fazer do mundo que se me oferece e se contorce diante de mim. Nunca estamos preparados para o absurdo, fora das páginas dos livros. Mesmo dos livros que nos consomem.

Em pouco mais de dois meses, uma avalanche de acontecimentos rasgou a normalidade dos meus dias. De todos os dias. Caio em câmara lenta, preparada para o embate iminente. Ninguém, ainda, sabe ao certo quando, nem como, mas o ponto de impacto está ali, à espreita, à espera, voraz como todas as catástrofes. Sempre me comocionou a capacidade de resistência dos que suportam em ombros e em carne viva todas as contrariedades das miseráveis vidas que, só por acaso, não são as nossas. Estamos tão impreparados para a adversidade que só por idiotice poderemos comparar o nosso infortúnio com o de outros; e, no entanto, ninguém sabe o que trará o próximo dia, se é que o soubemos alguma vez. Estarão certos, os que crêem que há uma sobreavaliação do perigo que corremos, um quase histerismo não necessário e mais difícil de vir a ultrapassar do que a própria pandemia? E claro que não me refiro à classe de imbecis onde cabem os trumps e os bolsonaros. Se alguma coisa resultar de realmente benigno para o mundo que sobrar, espero que seja, precisamente, a queda estrondosa deste tipo de líderes: cínicos, cobardes e fraudulentos. 

 

Entretanto, vejo o mar da minha janela. Tranquilo. Alheio ao turbilhão de acontecimentos que nos inundam as horas em suspenso. De alguma forma, tranquilizo-me, também. Há um antes, e haverá um depois. Não acredito em milagres. Mas, acredito na ciência, na inteligência dos mais competentes e na capacidade de resistência que emerge da união de esforços, quando o desafio assim o reclama

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Oh, sôtor...

Ando eu de volta aqui do blogue e calho em começar a ouvir As Causas do senhor Júdice. Sobre a "Ana" e o "André"...
Que asco. Ao que se pode chegar para tentar salvar a face.

Fidalgos, e outros géneros


Li um bonito tributo a Vasco Polido Valente. E, sim, também li os Fidalgos da Casa Mourisca, de Júlio Dinis, embora nunca tenha estudado Ciência Política. Em contrapartida, cresci numa casa cheia de livros, e estes sempre foram grandes companheiros de férias, demasiado longas no Verão, e eu sem grande paciência para dias de praia. Pode ler-se na praia, eu sei, mas é arte que não está ao meu alcance. Leio ou releio com a avidez dos loucos, impelida por uma certa obsessão ritualista que me impede de ler de qualquer maneira ou em qualquer lugar. Não leio na cama, não leio para descontrair – pelo contrário, preciso de estar no pleno uso dos meus sentidos, alerta como um vigilante – e sou incapaz de ler naqueles dez ou quinze minutos perdidos numa pausa entre labores; eventualmente, uma ou outra notícia de jornal, mas só. Caprichos. Como não beber vinho num copo sem pé, nem tomar café num copo de plástico. Já o escrevi, exactamente assim, num outro canto. As férias grandes eram  são, ainda  o meu tempo e espaço de leitura de eleição.

Para que conste, não nutria  nem antes, nem depois  especial simpatia pela pessoa de Vasco Pulido Valente. Não sei se do ar demasiado desleixado com que o via nos últimos tempos, se do eterno cigarro entre os dedos – uma mácula arrogante como ele de um vício que sempre me causou uma despropositada repulsa –, se do mau feitio que cultivava com propositado brio no trato e na prosa que vertia em colunas de opinião. Dizem que fora delas, também. E era precisamente, a prosa que me enlevava, suspensa de um delicioso enguiço bailado entre letras, e verbos, e pontos, e vírgulas, e uma inteligência ácida, assertiva e indecorosa que não poupava ninguém; nem o próprio. Não se faz. Não voltará a fazer-se. Não com tamanha indecência e desfaçatez, e a primorosa e aprimorada arte de nos manter atentos à forma, mesmo discordando, no limite, de tudo o resto.

Mas, a morte foi apenas um pretexto. Tenho passado pouco por cá, e creio ser verdade o que já ouvi dizer, mais de uma vez: parte da inspiração para escrever, vem da rotina de fazê-lo assiduamente. A outra parte – a que realmente faz a diferença – vem do génio, do género de gente como Vasco Pulido Valente, a quem as palavras obedecem com resignada humildade, sem nunca perderem, porém, a insolência, ou a elegância. Também dizem que não se trata só de jeito ou de um dom soprado à nascença; antes, de esmerado labor, de disciplina intransigente e uma busca insaciável pela perfeição. Seja. Continua ao alcance de poucos, de mau ou bom feitio. Imperdoável.

Os últimos dias trouxeram outras mortes, outros elogios fúnebres que dão sempre boas linhas. Como se, de repente, os mortos suscitassem simpatias impossíveis em vida, qualidades subitamente descobertas, inusitadas, antes, qual bela adormecida na apatia da nossa existência rude e indígena, de matizes ignorantes, trôpegas, anestesiada pela espuma dos dias mornos, peçonhentos. Tenho tido muitos desses.

Sendo a morte inevitável, também, mas não por isso, se falou de eutanásia. Essa morte que tantos como eu entendem como boa, sem o sofrimento desnecessário e vil que nos torna pouco mais que um corpo em fim dessa extraordinária viagem que é a vida vivida plenamente.
Não é um tema fácil, e merece que se discuta com a elevação própria, sem ruído de fundo, popularucho, obsceno, até, como se o que houvesse fosse um punhado de gente à espera de permissão para assassinar velhinhos fastidiosos, ou uma imposição aos médicos para que realizem execuções sumárias, convenientes e sob receita. A pedido. Outra coisa, bem diferente, é questionar a legitimidade de se aprovar em Assembleia da República uma lei que, aparentemente, nenhum partido político inscreveu no seu programa eleitoral. 
Temos sempre uma certa tendência para alimentar polémicas para lá do necessário. Dispensava-se. Mais ainda, quando o assunto é realmente sério e envolve toda a sociedade.

E também houve aquele outro episódio de racismo que, a princípio, todos fingiram não ver. Não fosse Moussa Marega insurgir-se contra os insultos, batendo a porta com estrondo, e seguiria a dança, embalada pelos costumeiros urros grotescos a que uns jornaleiros – por imbecilidade ou ignorância – tendem a apelidar de cânticos, como nos meninos de coro, de gente imprudente, apenas, toldada de exaltações futebolísticas avassaladoras e, por isso, perdoáveis no calor desmedido da paixão. Isso sim, com a bênção de alguns juízes que consideram admissível a injúria cuspida dentro de campo, uma espécie de permissão paternalista e higiénica à barbárie, ao abrigo de fervores (anti)desportistas. Finda a orgia, aprumam-se casacas e gorros, e ruma-se a casa com a tranquilidade dos devotos, sem confissão nem penitência, que, quem assim grunhe, não merece castigo. Além disso, parece que Marega não é flor que se cheire, mas é preto que se enxovalhe, seguindo uma certa (des)ordem natural de etiqueta e más maneiras que parece que engrandecem a festa do desporto-rei. Fica o registo, para ir recordando.
A bem da liberdade de expressão e das boas práticas democráticas, a TVI resolveu convidar André Ventura a explicar-se sobre a hipocrisia dos portugueses indignados com o episódio e solidários com Marega, e foi o que se viu. Para quem viu. Ninguém vai calar o Ventura porque ele não deixa. Literalmente. Por muito que Miguel Sousa Tavares o tent(ass)e.

Entretidos entre umas e outras coisas, enaltecendo as nossas virtudes e denunciando os defeitos dos outros, carpindo escrupulosamente mágoas contra os pecados da globalização, e esquecemo-nos, outra vez, que há vicissitudes para lá do nosso umbigo. Um vírus manhoso resolveu destruir a pálida rotina dos dias, sem conta, nem peso, nem medida, tornando-se numa séria ameaça à saúde pública global, às ambições da China como nova-mas-não-tanto potência económica no mundo e ao fenómeno da tal globalização que tantos vêem como uma ameaça à soberania e sobrevivência dos Estados. É possível que Deus exista e não jogue, de facto, aos dados. Ou isso, ou os EUA descobriram a melhor forma de refrear as aspirações de Xi Jinping, mais efeito colateral, menos efeito colateral. É menos glamoroso do que mandar assassinar um general iraniano, mas, como teoria da conspiração, dava um filme. Não sei se precisa de asterisco. O texto, não o filme.

Por falar em filmes e nos EUA, Donald Trump continua a disparar em todas as direcções. Se Bernie Sanders(?) não for capaz de correr com o homem em Novembro, temo que aquela expressão assuma um sentido menos figurativo do que o desejável. Não tarda nada, os piedosos pastores evangélicos convencem-se e convencem-nos de que, mais do que enviado por ele, Trump é o próprio, sentado à direita de si mesmo, em eterna glória, julgando vivos e mortos, implacável, incansável e insaciável, esmagando todos quantos ousem contrariá-lo. R.I.P., America.