Voltei ao cinema para ver “Moonage Daydream”, o documentário que não é bem um documentário, com David Bowie no princípio, no meio e no fim, nas linhas, nas entrelinhas, no visível e no invisível. David Bowie para quem gosta de David Bowie e para quem não gosta de David Bowie. É fabuloso seja qual for o ângulo. Um caleidoscópio de sons e imagens, de vida e de morte, do tempo e da arte. Obviamente camaleónico. É absurdamente bom e, não, não pode ser visto noutra sala que não numa sala de cinema. Demorei a decidir-me. Outra vez. A pandemia – não sei se ainda se pode dizer – tornou-me mais avessa ainda a espaços fechados com muita gente e, no caso dos cinemas, secou irremediavelmente a minha pouca paciência para todo aquele aparato quase sinistro e ritualista das pipocas e afins, incluindo os donos das pipocas independentemente da idade e do género. Estive quase quase a levar máscara, mas, escolhi a última sessão, fui espreitar os lugares ocupados antes de comprar os bilhetes e imediatamente antes de sair de casa, e, no total, éramos três cadeiras ocupadas: acabei por refrear a paranóia. Acabámos por ser cinco numa sala com mais de 400 lugares – o que também não deixa de ser espantoso –; e ninguém comeu pipocas.
segunda-feira, 19 de setembro de 2022
domingo, 18 de setembro de 2022
Conta-me.
Dos caminhos cruzados onde os nossos silêncios se encontram. Da saudade inacabada, do fogo lento da ausência, punição, redenção, quarto escuro, geada, e o canto da maré cheia quando a noite se encerra numa solidão de túmulo onde batem todos os sentidos e a esperança se despe dos excessos da promessa, até que o amanhecer se levanta e as cinzas se desvanecem no rubor da aurora.
sexta-feira, 16 de setembro de 2022
Move-se com o roçagar áspero do voo das traças contra a luz baça dos candeeiros de rua. É velha, muita velha, de uma idade corrupta, sem a solenidade do Tempo e da Memória, e tudo nela me repugna, a pele encarquilhada e lívida, o cheiro acre, fermentado, a voz num assobio agudo como o silvo dos répteis. Mas é, sobretudo, o assombro com que me olha; com a devassidão da cobiça. Detesto-a, detesto-a. Torna-se-me insuportável.
Distrai-me o ressoar lamuriento do vento nos tubos de aço do andaime em frente à Igreja, um colossal corpete de varas metálicas amparando-lhe a ruína de séculos. O ar sabe a penitência. Sexta-feira de cinzas.
Volto o rosto e já não a vejo, sumiu-se numa nuvem de agoiros, como as
bruxas dos contos que não se contam agora. Ainda a detesto.
sábado, 10 de setembro de 2022
sexta-feira, 9 de setembro de 2022
Verde, Amarelo, Decadente
Mantenho desde passado Março uma aposta (mais ou menos) com uma amiga brasileira: ela garante-me que Bolsonaro sairá democraticamente pelo seu pé se perder as próximas eleições no Brasil, e eu garanto que não, que Bolsonaro ensaiará o seu 6 de Janeiro, com consequências talvez mais trágicas. E ela, a minha amiga, que eu sei que há-de apoiar Bolsonaro pelo menos até ao acto de votar (embora ela nunca chegue a assumi-lo frontalmente – coisa a que, evidentemente, não está obrigada), pergunta-me que faria eu se me visse confrontada com a decisão de escolher entre José Sócrates e André Ventura. Não é muito fácil, de facto, embora eu veja Sócrates como mais patife que Lula e Ventura como menos cretino que Bolsonaro. Além de que os brasileiros têm outros candidatos à Presidência do Brasil; talvez entre um corrupto como dizem ser Lula, um energúmeno como eu digo ser Bolsonaro, e outra criatura qualquer, outra criatura qualquer não fosse pior opção.
Não
sei quase nada das outras criaturas que se candidatam. Ainda arrisco um “então
e o Ciro Gomes?”, mas devo ter dito uma besteira de todo o tamanho,
porque a minha amiga ficou roxa, “outro corrupto?”, vociferou, e se calhar
também é, sei lá eu.
Claro
que, tudo isto, foi antes do dia de ontem. Anteontem, este texto ficou pendente.
Bolsonaro não é "Trump sem a escolaridade obrigatória", como gracejou, uma vez, Pedro Mexia: ao lado do presidente “imbrochável”, vocábulo magnífico, Trump começa a parecer um tipo quase decente. Ver Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República Portuguesa, acompanhar, sorridente, aquele circo é bastante penoso. Havia mesmo necessidade?
quarta-feira, 7 de setembro de 2022
Judite
Fui rever a história de Judite, de quem o Papa Francisco gosta por ser "uma mulher inteira”, “capaz de cortar a cabeça ao inimigo”. Maria, a Virgem, vem em segundo lugar. Fica com Maria, mas já é tarde. Não admira que lhe chamem herege.
Ocorrem-me dois ou três sítios para onde me sentiria tentada a enviar em missão uma Judite.
Se me perguntassem
agora mesmo com quem gostaria de jantar hoje à noite? responderia com
o Papa Francisco, e não é pela Judite nem pela Virgem Maria. É apenas por Francisco
– ou Bergoglio, nunca sei onde acaba um e começa outro – ser um conversador
apaixonado e apaixonante, magnético, desconcertante.
Nada disto abona a favor da minha coerência – essa virtude tão exaltada pela gente prenhe de lisura, que nunca erra nunca prega nunca aponta –, deixar-me deslumbrar assim pelo representante máximo da Igreja Católica Apostólica Romana. Há anos que nada me liga à Igreja; passei a vê-la como um organismo obscuro, hipócrita, mais do que qualquer outra coisa, e enoja-me tudo o que se sabe e o que se desconfia sobre os criminosos abusos sexuais sobre as crianças à sua guarda. Se existir esse Inferno bíblico, desejo que esses homens de Deus lá apodreçam, os criminosos e os cúmplices, pela acção ou omissão, numa putrefacção eterna perpétua infinita, sem redenção nem misericórdia, não sem antes padecerem agonias idênticas nesta vida pela justiça da Lei.