sexta-feira, 5 de julho de 2024

"A Gaffe Inquirida" - Tão Bom


Não sei se estamos a pensar na mesma Amiga, mas há, pelo menos, um pequeno caso que eu gostava muito de voltar a ler.

Sabes que eu tampouco gosto de ostras? Na verdade, nunca as provei; e enquanto me lembrar disto nem me atrevo. Deves ter conseguido que um ror de gente deixe de provar ostras nos tempos mais próximos.

Nunca bati em ninguém, ao contrário da minha irmã, que, uma vez, assentou um murro nos queixos de um tipo pela enésima piada estafada sobre loiras – muito menos interessantes do que aquelas sobre ruivas, é um facto, coisa, aliás, que tem muito menos que ver com as piadas, como aqui se comprova facilmente.

A propósito, por motivos que não vêm ao caso, acabo de esbarrar num documento sobre a gastronomia do Alentejo, coisa de ir às lágrimas, de gula. Melhor: não há ostras.


Muito bom!


quinta-feira, 4 de julho de 2024


São dias de saudade imperfeita. Vão de versos estilhaçados, tombando sombrios, lâminas afiadas sobre os véus do desgosto. Labirintos de veludo escarlate de paixão e cólera, que lavram febris na vertigem da perda.

Invento o impossível.

Sob o manto diáfano da luz de esmeril, ambarino, descendo sobre as encostas sulcadas do monte, velando o rio que jaz na profundeza estreita do vale. Beber a ausência ao limite da embriaguez, da nudez bruta dos sentidos.

Um hálito de fantasma aflorando breve a linha suave do meu ombro.


Isto também é sobre encontros felizes


Há um lugar sombrio em todas as almas, sim, também o sinto, também o temo.

Sabes, querida Gaffe, que considero um sacrilégio a generosidade que emprestas a este sítio. Tu, um dos meus mais preciosos exemplos da arte de bem pensar e de bem escrever.

É tão bom ter-te de volta, já te disse que é tão bom ter-te de volta?



E se Michelle Obama...

Quando Joe Biden reapareceu como possível candidato do partido Democrata para um segundo mandato na presidência dos EUA, disse, por piada, que Michelle Obama, sim, daria uma boa candidata contra Trump (depois de um exagerado o quê?!, mas aquela gente é doida?, ou qualquer coisa assim). Ainda nos rimos muito cá em casa, mas foi numa época em que se falava, até, da Oprah, pelo que era uma tolice perfeitamente aceitável. De repente (não sei se de repente, não acompanho tão intimamente os meandros da política americana), o nome de Michelle Obama começou a surgir um pouco por todo o lado. Carmo Afonso (entretanto, dispensada pelo PÚBLICO, dizem que por razões obscuras) foi uma das pessoas que escreveu sobre o assunto, e, agora, o Expresso refere uma sondagem em que a antiga primeira-dama surge como a única “alternativa a Biden que venceria Trump”. E é mesmo capaz de ser a única alternativa a Trump. Vejo-a capaz como poucos – como poucas, no caso – de não se deixar intimidar por aquele modo grosseiro e desdenhoso. Não faço ideia da sua competência ou não para governar um país como aquele, ou outro que fosse, mas há muito que a escolha deixou de ser feita sobre tão elevados parâmetros. 


O meu rico fato Ralph Lauren...

A mente detém-se nos detalhes mais bizarros nos momentos mais insólitos. A minha, seguramente. A de Salman Rushdie afligiu-se com a mutilação do seu rico fato Ralph Lauren, enquanto o próprio se esvaía em sangue no chão de um anfiteatro em Chautauqua, esfaqueado por um tipo que não gostava dele: um par de páginas da obra do escritor, umas palestras no YouTube, Rushdie era insincero, concluiu, logo, merecia morrer. Não morreu. O atacante chama-se Hadi Matar, outro extraordinário detalhe, pelo menos, para quem lê português.

Um dos médicos terá dito a Salman Rushdie que a sua sorte fora a ignorância do agressor sobre como matar um homem com uma faca. “Faca, Meditações na Sequência de uma Tentativa de Homicídio” lê-se numa tarde, e eu tinha alguma curiosidade. Não é fabuloso, penso que nem o pretende – talvez seja apenas a última etapa para a cura absoluta, o derradeiro passo para a reconciliação. Há violência, claro, o relato cru do ataque e dos diferentes estágios da recuperação dolorosa e lenta; há a história de amor do seu actual matrimónio; e há momentos de humor, vários, às vezes negro. A., como Rushdie vai chamando ao seu agressor ao longo do livro, esfaqueou-o 15 vezes durante 27 segundos, o tempo de ler o soneto nº 130 de Shakespeare, o seu preferido. Seu, de Rushdie, claro, A. nem deve saber o que é um soneto. Na entrevista ao escritor no programa 60 minutos Anderson Cooper liga o cronómetro do telemóvel para contar 27 segundos de silêncio críptico, e é realmente perturbador.

Em Janeiro de 1938, fiquei também a saber, Samuel Beckett também foi atacado e esfaqueado. Por que o fez?, perguntou ao agressor: “Je ne sais pas, monsieur, je m’excuse”. Sempre encarei o ódio como um sentimento denso, profundamente envelhecido como um néctar, quase nobre, embora apenas no sentido oposto ao da leviandade, e tão difícil de assumir como o Amor. Mas talvez não. Talvez haja quem possa, simplesmente, amar e odiar sem volúpia, que sei eu, que não odeio ninguém?


terça-feira, 2 de julho de 2024




 

André Ventura tem o instinto político de um abutre. O apelo à manifestação das forças policiais junto ao Parlamento, e nas galerias do Parlamento, na data em que será votada a proposta do seu partido para o aumento do subsídio de risco para a PSP e GNR tem o travo da decomposição onde medra o animalismo do Chega. Claro que é um apelo à desordem, uma pensada e propositada tentativa de intimidação. Há quem não veja nisto mal algum, é a democracia a funcionar, encalhados que estamos entre um pensamento único de esquerda e um pensamento único de direita. Salvé os que pensam pela própria cabeça, desde que a cabeça desses pense o mesmíssimo que a nossa. O que não se pode é considerar que há inadmissíveis de ambos os lados do abismo. Julgar, por exemplo, que este artigo roça o injurioso até no título, mesmo rejeitando aquela exaltação culposa, permanente, do nosso passado racista e colonizador; repudiar a violência abjecta do Hamas e criticar a orgia de destruição e morte com que a Israel de Netanyahu pretende legitimar o seu direito à defesa, e Israel tem direito à sua defesa; estar do lado da lei e da ordem e renegar uma justiça que condena uma mulher que mordeu um agente da PSP que a asfixiava, mas não o (ou os) agente da PSP pelo espancamento animalesco dessa mulher, por desobediente – a culpa foi toda sua, evidentemente: não sei se há racismo nisto, mas duvido que haja justiça. 



Menos mal que nos resta o futebol. Não chorei porque não calhou, vá lá uma pessoa entender-se nas desrazões do coração, ou lá o que é. 


segunda-feira, 1 de julho de 2024

 



sábado, 29 de junho de 2024