domingo, 1 de março de 2026

Outro Monte dos Vendavais

Emerald Fennell não transformou nada aquilo numa grande história de amor; a relação entre Catherine e Heathcliff continua a mostrar-se com o seu quê de maligno. Os cenários são magníficos, assim como o guarda-roupa; o filme é visualmente belo, cheio de todos os vícios que lhe apontam, mas belo. Há a música de Charli XCX, que não conhecia, cujo género ainda não sei se faz o meu, porque só ouvi o que está lá, e o que está lá está muito bom. Bom de ver, bom de ouvir.

Um livro também será um autor e as suas circunstâncias, e o mesmo para os realizadores. Quem foi ver o filme de Fennell com Emily Brontë sobre os ombros saiu frustrado, muito provavelmente, sobretudo se esperava uma reprodução fiel. Não é.

Há um grotesco quase cómico, um erotismo gasto e bastante distante da narrativa de Brontë, dispensável em muitos momentos, não por pudor, mas por fastio e, francamente, a tal e tão publicitada química entre Jacob Elordi e Margot Robbie não o é mais do que tantos outros pares, em tantos outros filmes. Talvez seja eu, mas Jacob Elordi não convence. Se é para falar de fraude, talvez seja essa: o Heathcliff-Elordi de Fennell não é demasiado branco, é demasiado insípido. Há excessos, e é uma pena que, precisamente, a personagem mais demoníaca do romance de Brontë, a mais apetecível para canalizar e explorar toda essa transgressão tenha sido reduzida a um, cito e subscrevo, “latagão ainda mais tristonho e inofensivo do que o seu monstro de Frankenstein” (tão bom, o texto do Casanova, que inveja pensar e escrever assim).

Depois, parece que há uma data de adolescentes a ler o livro de Emily Brontë. Não é bom? A miúda que estava ao meu lado chorou baba e ranho, silenciosa e ininterruptamente, a partir de certa altura e até ao fim, coisa a que já me desabituara no cinema. No meu Hamnet, ninguém chorou e falava-se tanto da comoção daquilo. É um bom filme, mas, podia ter menos meia hora sem se perder nada. Com perdão para Jessie Buckley e para o amoroso Jacobi Jupe.

Não interessa nada.

Há um sol lindo na minha varanda. Macio. O mar ao fundo, prateado, cheio de brilhos, uma paz que urge beber antes do fim do mundo.