terça-feira, 25 de fevereiro de 2020
Oh, sôtor...
Fidalgos, e outros géneros
Temos sempre uma certa tendência para alimentar polémicas para lá do necessário. Dispensava-se. Mais ainda, quando o assunto é realmente sério e envolve toda a sociedade.
quarta-feira, 22 de janeiro de 2020
Do Racismo
Cláudia é uma mulher negra e diz-se vítima de racismo por parte, quer do agente policial, quer do motorista do autocarro. A PSP sustenta que Cláudia agrediu o agente Carlos Canha (mordendo-o), constituíram-na arguida, e afirma-se que Carlos Canha utilizou a força estritamente necessária para proceder à algemagem da mulher.
A descrição que Cláudia faz dos acontecimentos e da agressão a que foi sujeita é, no mínimo, assustadora. Mais uma vez, não sabemos exactamente o que terá acontecido. Mas é difícil entender que a força estritamente necessária para um polícia treinado manietar uma mulher normal tenha sido capaz de desfigurá-la, mesmo que esta o tenha mordido – Cláudia confirma-o: mordeu o agente porque ele estaria a sufocá-la.
segunda-feira, 20 de janeiro de 2020
Dos Santos
e dos muitos pecadores.
E, sim, Isabel dos Santos é inocente até a tal prova em contrário. Aquela que tarda sempre em chegar, a não ser aos mais incautos, a quem os densos labirintos da lei não se aplicam, antes, abrem-se como botões de rosa. Havíamos de encontrar uma figura jurídica com carácter intermédio para que, tendo em conta os tempos da justiça, pelo menos em Portugal, não fôssemos todos obrigados a fingirmo-nos de parvos a bem da inocência.
quinta-feira, 16 de janeiro de 2020
Vigas e Velas
segunda-feira, 13 de janeiro de 2020
A diplomacia da violência
É possível que tenha sido sempre assim e só agora me tenha dado conta. Um pouco como quando nos garantem que, por exemplo, os crimes de violência doméstica não terão propriamente aumentado: o que haverá é mais casos denunciados. A forma como estamos ligados permite que as notícias (e, claro, também os rumores, os logros, o que se vulgarizou chamar de fake news, factos alternativos, e uma série de outras variantes das emoções desenfreadas com que passamos a alimentar a nossa fome soberba de razão e justiça) circulem à velocidade das redes e à mercê do politicamente útil, de acordo com as melhores agendas. É, por isso, possível, sim. Mas não creio. Que não estejamos a assistir a um aumento efectivo e generalizado da violência, quero dizer.
Um processo de impeachment aplicado a um presidente acusado de perjúrio e de obstrução da justiça num caso de relações extraconjugais é uma prova exemplar do bom funcionamento da democracia; já se o presidente for Trump, acusado de chantagear um outro país a troco de benefícios pessoais e políticos, enquanto proíbe testemunhos vitais, insulta quem se lhe atravessa ao caminho e despede os que ousam contrariá-lo, nesse caso, trata-se de uma injuriante caça às bruxas, um embuste, uma vingançazinha ranhosa da "crazy Nancy". O despotismo alcançou o estatuto do melhor dos regimes, alimentando-se das mesmas regras que faziam da democracia o pior deles à excepção de todos os outros. Richard Nixon está próximo de se converter num elevado exemplo de nobreza de carácter. E o banquete ainda vai no adro. No antro. Que irrompeu das entranhas do submundo digital para as cadeiras do poder. Os anti-sistema sabem bem como usá-lo, porque o esvaziaram de empecilhos morais e éticos.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2020
Santa Paciência
O Papa Francisco
(talvez tenha sido mais o Jorge Bergoglio) teve um acesso ríspido de
humanidade. Irritou-se com uma “fiel” e deu-lhe duas palmadas na mão, como se
faz(ia) aos miúdos mal-criados. Logo se ergueu um coro de críticas mais
indignadas que o próprio Papa, que os tempos assim o exigem. Os tempos, aliás,
vivem-se de forma bastante curiosa: aos bons exige-se que sejam santos; os
maus, os escroques, levam-se em braços, embalando a sabujice e exaltando os méritos
da coragem anti-sistema e outros engodos do género.
Mas, falava de
Papas. Há dois, e eu vi o filme. Por acaso, logo no finado dia 23, sem saber
nada daquilo. Abri a Netflix, vi o título e o Anthony Hopkins e bastou-me. O
que é um pouco injusto, até, já que Jonathan Pryce tem, também, uma
interpretação extraordinária. Mas, Hopkins é Hopkins. Rendo-me sempre ao seu
talento que, pelos vistos, não se esgota no grande ou pequeno écran. Não fazia
ideia que pudesse, por exemplo, compor uma valsa, até a minha irmã me mostrar o
André Rieu a tocá-la com a sua orquestra. Enfim. Já o disse por aqui. Há
pessoas que escolhem talentos e talentos que escolhem pessoas.
Gosto de ver filmes – e de ler livros – por acidente, sem
saber nada deles, sem ter ouvido um simples rumor que seja, de surpresa, para
poder beber dos seus defeitos e virtudes sem pré-conceitos nem pára-raios, sem
rede de segurança e vendada a instruções alheias. Só eu e eles, para
pensar o que me muito bem ou mal me apetecer.
Ao contrário do que ouvi, depois, a alguma gente, passei
a apreciar mais, e não menos, a figura de Joseph Ratzinger. É bem provável que
a culpa seja, novamente, de Anthony Hopkins, mas vi um Bento XVI brilhante como
nunca me tinha (a)parecido antes, na época em que ocupava o Vaticano. Não que
lhe tenha prestado assim tanta atenção, nessa altura, a bem da verdade.
Maravilhei-me com a riqueza dos diálogos que sei que não
ocorreram, na sua grande maioria, embora os textos que os inspiraram possam ser
reais; recordei as críticas mais assanhadas feitas aos dois homens, Ratzinger o
nazi e Bergoglio cúmplice do regime ditatorial de Jorge Videla;
reconheci a intelectualidade brilhante, bela, de um e o delicioso humor do
outro e encantei-me com a magnífica cena do tango que sei também que os dois
nunca dançaram. Não prestei atenção ao lado religioso da coisa, nem ao drama
Papa-Mau versus Papa-Bom que alguns ensaiaram à laia de ralhos e exaltados de
crenças, dentro e fora da Igreja. É maravilhoso não possuir dotes de análise
profunda sobre o que é, ou é suposto ser, a arte em qualquer uma das suas
formas. Assim, posso dizer que detesto ver uma banana colada à parede com fita
adesiva, ou uma data de vigas brancas plantadas em frente ao mar,
independentemente do preço das peças, do génio do autor, e da
pseudoprofundidade do seu alcance artístico, da mesma maneira que posso
deslumbrar-me com um filme sobre dois homens extraordinários que, por acaso,
são Papas. Maio ou menos.
Como posso ler “A Outra Margem do Mar” de um fôlego, arrebatada, e não nutrir grande simpatia pela pessoa de António Lobo Antunes. Ou não ficar rendida ao “Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos”, de Olga Tokarczuk, apesar do prémio Nobel, que nunca (ainda?) entregaram a Lobo Antunes. E claro que também li o “Imortal”. O melhor das férias é dispormos de tempo para desbaratar, embora o tema da Inteligência Artificial seja para levar bem a sério. Muito a sério, mesmo na escrita que muitos acusam de pouco erudita de José Rodrigues dos Santos.
Por falar em férias, parece que temos um ano novo. Pelos
menos, nós, que medimos o tempo pelo calendário do Papa Gregório XIII,
para não fugir tão descaradamente ao tema de partida.
Não tenho resoluções de ano novo. Um ano é uma imensidão
de tempo, independentemente da forma como o medimos, pelo que, nunca sou capaz
de dizer “que ano magnífico!” nem, ao contrário, que “ano horrível!” foi este
que acabou agora mesmo. Esforço-me por dispor felicidades (e desgostos)
uma-a-uma, peça-a-peça, como numa construção de legos. Só saberei se valeu a
pena quando chegar ao fim e, para isso, preciso de mais do que um ano, ainda
assim; preciso de uma vida, e ainda não acabei.
Tenham, então, uma boa vida, mais do que um bom ano.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2020
(Uma espécie de) Prólogo
"Um Mundo Infestado de Demónios"
segunda-feira, 30 de dezembro de 2019
Inquietude
Talvez
não tenha sido um acaso, lembrar-me do homem do café. Aquele que dava vida aos
restos negros, aguados, que ficavam no fundo, no fim daquele primeiro momento
de prazer. Findo aquele instante, breve para quem olhava sem ver nada, deitava
a chávena sobre o pires, inclinando-a com a delicadeza firme e apaixonada que
guia a mão dos artistas. Com um pincel fino, muito fino, despia com amorosa
minúcia o acidental excesso tombado no corpo branco da pequena chávena de
louça, e desenhava, num caderno de argolas, o que os seus olhos admiravelmente
anteviam naqueles restos de café espesso, inerte e frio ainda há pouco, vivo
agora, torrencial, enchendo de desejos encarnados as páginas brancas e lisas do
bloco.
Ele
sabia que eu o observava. Em silêncio inquieto. Pasmada diante daquela
imensidão de mundo que cabia e, porém, vazava do caderno de argolas.
Embalada
por recordações antigas, descobri-me a rever fotografias de outros tempos. Das
que revelava, ainda, antecipando essa mesma ansiedade inquieta do
desconhecido. Consumida de vontades inadiáveis, sim, mas sem a insipiência
precisa do rigor digital de agora.
Organizava-as
em álbuns. As fotografias. Inventários de capa dura e páginas decoradas com
bolsinhas de plástico sobranceiras às linhas rectas onde vertia, deslumbrada, o
meu encantamento pelos dias passados.
Voltei
a passar as mãos pelas folhas. Senti o cheiro das memórias. Deixei-me tomar
pelos encantos que imortalizei a cada época, a cada página, em frases simples,
tão simples, de uma ingenuidade tão completa e eloquente que quase me
desconheço. Ou talvez não. Talvez me reencontre, apenas, entre essas
recordações. “Pareces una niña, es
que te encanta todo!”.
E encantava-me. Encanta-me, ainda, não
sendo já tão menina. As rugas dos rostos que se cruzam comigo, e os sulcos da
terra que me sustenta e me embala. Sem pressa. O sussurro das vozes carregadas
pela brisa ansiosa e meiga, a que ofereço a face, rendida, para que me mime e
me acalente. As montanhas soberbas, escarpadas, arrogantes como a vida que se
vive sem amarras, ao sabor dessa gente que descobrimos sem querer e sem pedir;
e sem pedir nem querer nos preenche os sentidos com a mesma avidez sem aviso
que recordo quando rio. Quando choro. Vou procurando o equilíbrio no tempo que
roubo para mim, resgatada entre os instantes em que me ouço. Como ouço as
preces dos pássaros. E a sofreguidão do vento, rouco, que me agarra e me
confunde, que me sopra ao ouvido segredos que não ouso descobrir.
Li e
reli, vezes sem conta, perdendo-me, encontrando-me, absorvendo cada palavra
como o ar que me falta por momentos.
Recordei
rostos queridos, passados, que a Morte apressada nos seus insondáveis
caprichos, resolveu levar sem aviso nem demora. E dou por mim a pensar, tonta,
que o homem do café talvez desenhasse para mim. Às vezes. Perturbando o meu
sossego, sem que o pudesse imaginar.
terça-feira, 5 de março de 2019
Quem Engana Quem, Até Eu Sei...
Na
terça-feira passada, António Mexia
foi ao Parlamento dizer, entre outras coisas, que, não só não há nada disso de rendas
excessivas na EDP, como a empresa a que preside é o abono de família do Estado.
Ricardo Salgado
deu uma entrevista à
TSF, na qual, como habitualmente, clamou por inocência sua e má vontade dos
outros. Por entre as respostas às habituais perguntas fofinhas que este
tipo de gente sempre inspira aos jornalistas – mesmo os mais prestigiados e
competentes – voltou a dizer que os lesados do BES, em quem o próprio pensa
todos os dias, coitado, são culpa do Banco de Portugal, de Pedro Passos Coelho
e da maldita resolução, e não dos seus actos de gestão.
Entretanto,
o Novo Banco – o tal que era bom – voltou a meter a mão no Fundo de Resolução para arrecadar mais 1,149 mil milhões
euros, coisa pouca, para fazer face à toxicidade
daqueles activos que tombam sempre para o mesmo lado, o do Estado, ou seja, o
do aparentemente amplo e cheio (para alguns) bolso do contribuinte
(eventualmente, de outros bancos que se portaram bem, se é que ainda sobra
algum).
Há
alturas em que se torna difícil expressar indignação com a mesma eloquência com
que somos insultados. Isto, se quisermos manter o nível dois ou três patamares
acima do gozo rasteiro e ordinário e, ao mesmo tempo, não deixar que nos tomem
por parvos. É que, mesmo entre os brandos costumes, deveria haver limites para
o desaforo.
As
comissões parlamentares de inquérito têm servido, em grande parte, para deixar
a nu a descomunal lata de alguns dos seus principais protagonistas.
Nesse sentido, António Mexia não desiludiu. Falou de “demagogia” e
“manipulação” para rejeitar as críticas aos chamados CMEC – custos para a
Manutenção do Equilíbrio Contratual – e as suspeitas que recaem sobre a forma
como esses contratos foram negociados. Para o gestor da EDP, tais contratos não
vieram favorecer a sua, literalmente, empresa. Pelo contrário, até terá perdido
dinheiro na passagem dos CAE (contratos de aquisição de energia) para os CMEC.
Se não fossem os CMEC, as compensações que Estado deve (como não) à empresa
teriam ascendido a muitos mais milhões de euros. O magnífico e competentíssimo
gestor de um gigante monopólio (não sei se a ENDESA chega bem a ser
concorrência) dedicado à distribuição e venda de um bem essencial para o
funcionamento regular de uma sociedade mais ou menos civilizada, está, até,
disponível para “para desfazer-se das barragens, se forem devolvidos os 2115
milhões de euros pagos, bem como para "fazer as contas" e reverter os
CMEC”. E, para provar que a EDP até perdeu 200 milhões de euros com a tal troca
dos CAE para os CMEC, António Mexia levava um estudo completamente independente
e idóneo, encomendado à Nova School of Business and Economics, essa cujo campus
foi patrocinado
pela…EDP.
Ricardo
Salgado, que consegue dormir apesar de não totalmente
descansado, é outro mártir incompreendido da pátria.
Não lhe cabe nenhuma culpa, nem no colapso do seu banco, nem na delapidação das
poupanças de muitas vidas (alguns terão procurado lucros demasiado fáceis, é
verdade). Era só mais uma injecçãozita de capital e resolvia-se o problema,
mas, o que havia era uma enorme vontade de acabar com o Banco Espírito Santo,
toda a gente sabe que somos um país de invejosos. Ou isso, ou o Diabo, mais as
suas coincidências.
Bom,
o caso que é Ricardo Salgado foi afastado
da liderança do BES e de outros cargos em instituições financeiras nos próximos
anos. Mas, ao ritmo a que se move a Justiça
portuguesa, o banqueiro ainda é bem capaz de regressar em emocionada e ansiada
apoteose, que é como quem diz, ainda volta a ser dono disto tudo, que há manias
que nunca se perdem.
E,
a provar como é fantástico fazer negócios com o Estado português – não para
todos, é verdade – lá chegamos, então, à nova factura desse Novo Banco. Em princípio, não será a última, já nos
descansaram quanto a isso. Afinal, ainda restam,
parece, dois mil milhões lá no fundo desse Fundo de Resolução, que dificilmente
resistirão até 2025, como se (calhar ninguém, seriamente) previa. Pelo sim,
pelo não, o Governo, diligente, pediu uma auditoria. Deve ser parecida com a da
Caixa Geral de Depósitos, mais grande devedor, menos grande devedor. Que nunca
devem nada, aliás: investem dinheiro que não é seu, se correr bem, ficam com os
lucros, se correr mal, o Estado paga. Quem disse que para ser empresário é
necessário correr riscos?
Manuel Pinho
inaugurou a tendência e continuam todos a fazer-nos corninhos. Seja na forma de
comissões de inquérito, entrevistas ou auditorias...

