segunda-feira, 5 de setembro de 2022
quinta-feira, 1 de setembro de 2022
Não saberia o que fazer com um blog “popular”. A ideia de uma legião de seguidores, e adoradores, é tentadora para muitos, mas não para todos; desde logo, não para mim. O que não é exactamente o mesmo que assumir ser-me indiferente que haja ou não haja quem se faça presente e me empreste do seu precioso tempo, aqui e ali no meu email: não é. Se fosse, manteria esta página oculta a motores de busca, acho que é assim que se diz.
Não passa aqui muita gente, mas passa aqui gente de quem gosto muito. Diria que me basta, mas na verdade é mais, porque é mais do que suficiente e sinto-me bastante grata por isso: por voltarem; mesmo quando não estou, mesmo quando não estive. Obrigada, é o que quero realmente dizer.
Salman Rushdie
O primeiro amuo sério – a sério! – que tive com a minha irmã foi a propósito d’Os Versículos Satânicos: eu tinha acabado de ler o livro, fascinava-me (talvez não seja o melhor verbo) tudo aquilo de uma forma que eu não sabia ainda dizer, inclusive a fatwa – era uma miúda na altura, parecia-me coisa acabada de sair das páginas das mil e uma noites.
Tanto contei que (aparentemente) encantei, e uma amiga da minha
irmã pediu-lhe que mo pedisse. Emprestei-o e nunca mais o vi; penso que à amiga
também. Não sei se foi quando decidi não voltar a emprestar os meus livros
a ninguém, mas é verdade, não empresto os meus livros a ninguém: se for alguém
que mereça, ofereço um novo exemplar. Por coincidência, precisamente, tinha
voltado a comprar para mim um novo exemplar de Os Versículos Satânicos no
início deste ano. Não queria acreditar quando soube do atentado contra Salman Rushdie;
não por duvidar dos fanáticos, nunca duvidar dos fanáticos, mas por tudo o
resto, a idade do rapaz, a facilidade com que levou a cabo o ataque e,
sobretudo, o tempo que separa aquela extraordinária condenação à morte desta
quase execução. Só não falo dos urros de embrutecido êxtase dos que celebraram o
quase assassínio, porque tentar racionalizar o absurdo talvez seja mais absurdo ainda.
Salman Rushdie vem recuperando do bárbaro ataque, e ainda bem. Quase tive um acesso de ciúme e soberba, como Taika Waititi com a febre recente de Running Up That Hill (também gosto de Running Up That Hill, por sinal) e os novos estranhos fãs de Kate Bush – mas quem são estes fedelhos, que descobriram Rushdie agora e correram a comprar-lhe O livro, a carpir as suas dores, sem fazerem ideia da obra (ou do homem, mas sou quase sempre mais pela obra)? Para me redimir, recomecei os versículos, deixei Quichotte na linha de sucessão e pus na lista de compras Os Filhos da Meia-Noite. É imperdoável que nunca tenha lido Os Filhos da Meia-Noite. No fim de contas, também eu sou uma fedelha.
De resto, o jejum prolongado de actualidade requer, como o outro, moderação na hora de ser quebrado. Ainda convalesço.
sábado, 6 de agosto de 2022
“Te
voglio, te cerco, te chiammo,
te veco, te sento, te sonno”
(“excerto da letra de uma canção napolitana”)
Está a Fazer-se Cada Vez Mais Tarde
Antonio Tabucchi
Escolher
o que levar na mala para ler nas férias. Continua a dar-me o mesmo prazer de
antes, quando era miúda e as férias grandes duravam uma eternidade e tanto
tempo fazia-se-me sempre demasiado tarde.
Levo outra vez Tabucchi – "um romance em forma de cartas", e eu gosto de cartas; e da capa do livro. Também levo duas das irmãs Brontë – há uma que nunca li.
Vinha dizer mais qualquer coisa, mas, por qualquer motivo, deixei que me escapasse.
Até Setembro.
quarta-feira, 3 de agosto de 2022
Festival Internacional de Música de Marvão
Christoph
Poppen
Não me lembro da última vez que estive no Marvão e acabei de ser atropelada por uma série de sentimentos contraditórios, entre o encantamento e a vergonha, não necessariamente por esta ordem: são escorregadios e ainda não consegui domesticá-los. Vergonha por não recordar ter ouvido falar alguma vez deste Festival, e o Encantamento é coisa que não se explica. Também há agradecimento e reconciliação, numa altura em que me sinto cada vez mais afastada deste país de pequeninos. De quando em quando perco-me de parte da parte de mim que aqui escreve. Estou num desses quandos.
quinta-feira, 28 de julho de 2022
“Chegando
em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto
de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo,
fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que
não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava
as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade.
A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia.
Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha
delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no
colo, sem tocá-lo,
em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o
seu amante.”
Felicidade Clandestina
Clarice Lispector
sábado, 23 de julho de 2022
Silly Season, e outros impropérios
Não é que eu deteste o Verão. Detesto o calor de Verão, o Inferno dos incêndios de Verão, a luz escorrente e baça de Verão, as cores mortiças e o ar obeso que me sufoca como uma mortalha de aço. Mas gosto de algumas noites de Verão. Do fim de praia, da areia morna quando o Sol, finalmente, sossega, e do gin tónico gelado com uma rodela de limão. Demasiado vulgar, talvez, mas o meu Verão é melhor assim.
Também
gosto do tempo de Verão. O do relógio. Uma transição electrónica entre dois
níveis de energia num átomo de césio-133, nove milhares de milhões cento e
noventa e dois milhões seiscentos e trinta e um milhares e setecentas e setenta
oscilações completas num segundo, todos os segundos de um dia, qualquer dia de
qualquer estação, mesmo que os segundos me pareçam sempre mais lentos no tempo que dura o Verão, suponho que como deva ser, para poder desperdiçá-lo sem remorso.
De
todas as silly coisas que a desdita season tem, a mais esdrúxula ouvi-a
ontem: Pedro Abrunhosa cantou “Vladimir Putin, go fuck yourself”, num
concerto em Águeda, e a embaixada russa em Portugal emitiu um comunicado para
dizer da indignação russa e da indignidade de um homem da cultura, cujas
palavras “foram (ali) ouvidas” e “respectivas conclusões serão tiradas”.
Há qualquer coisa de apocalíptico naquele gorgolejar histriónico das gaivotas à minha janela, ainda a manhã não é bem manhã. Um chinfrim circular, sinistro. Lembro-me dos pássaros de Hitchcock, talvez pelo ainda torpor do sono e uma qualquer memória solta que devo ter trazido de um daqueles sonhos que nunca recordo. Depois, uma cascata de estilhaços de vidro, uma sinfonia laminada, quase metálica, cala o alarme das gaivotas. Há de certeza uma lei que proíbe a recolha estrondosa de lixo antes das sete e meia de uma manhã de sábado. Se não há, devia.
Jafar Panahi
Vou oferecer outro artigo e cometer mais um pequeno crime. Se eu partilhar aqui um artigo "exclusivo" e ninguém o ler, continua a ser um crime? Pois, também me parece. Mas há pessoas e histórias que merecem.
"E no meio de tudo isto, o cineasta iraniano Jafar Panahi voltou a ser preso. Já perdi a conta ao número de vezes, mas agora é diferente: arrisca ficar na prisão até 2028.
Não
vale a pena fingir que a sua prisão perturba o mesmo que a dos outros presos
políticos no Irão — e há muitos. Aprendi com uma amiga que os artistas são a
consciência do mundo e há anos que Panahi é a consciência do Irão. Não está
sozinho, claro. É herdeiro de Abbas Kiarostami
e mestre da nova geração, da qual faz parte o filho, Panah Panahi, cujo filme Estrada Fora
acaba de estrear em Portugal.
Mas os seus filmes, uma longa crónica do Irão contemporâneo, são manifestos
políticos eloquentes que, com histórias simples e uma aparente inocência de
contos do quotidiano, desobedecem e desafiam o poder. Com poesia, imaginação,
humor e coragem. Difícil pedir mais a um só homem.
Costuma dizer-se que o cinema de Panahi-pai fala de política nas entrelinhas.
Mas não consigo pensar em intervenção política mais directa e frontal do que fazer
um filme em casa após as autoridades o terem proibido de sair de casa e de
filmar e chamar-lhe Isto Não é Um
Filme. Foi o que Panahi fez a seguir à sentença
de 2010 que o proíbe de viajar e filmar até 2030. É nesse filme que diz:
“Sentenciaram-me a uma interdição de filmar durante 20 anos. Mas não há
interdição em interpretar ou ler um guião. Graças a Deus!” O trailer
cita excertos dos críticos. “Simples, radical, surpreendente, comovente” (New
York Times). “Jafar Panahi transforma a censura em arte” (IndieWire).
Desde a proibição, fez, além de Isto Não é um Filme (2011), Cortinas Fechadas (2013), Táxi (2015) e Três Rostos (2018). Num país onde a pena de morte é comum, como são comuns as sentenças para amputar, cegar e chicotear os condenados, é difícil pensar num gesto mais político.
No
Irão, a violência do Estado é real e diária. Em 2014, sete jovens foram
condenados a seis meses de prisão e 91 chicotadas por terem publicado um vídeo
caseiro a cantar a canção Happy, de Pharrell Williams.
Em 2018, Maedeh Hojabri, de 18 anos, foi presa e condenada a quatro anos de
prisão e 80 chicotadas por publicar no Instagram vídeos a dançar no quarto. Em
2021, Hadi Rostami foi chicoteado 60 vezes como castigo por ter feito greve da
fome na prisão em protesto contra a possibilidade de a sua sentença de
amputação ser aplicada. Pouco depois, Hadi Atazadeh morreu na prisão de Ahar
após ter sido chicoteado. Pelo menos 152 pessoas foram
condenadas a chicotadas no ano passado. Em
Julho desse ano, 11 pessoas foram mortas a tiro durante protestos pela falta de
água nas províncias de Khuzestan e Lorestan. Este Julho, os cineastas Mohammad
Rasoulof e Mostafa Al-Ahmad foram presos por criticarem a violência policial.
Há dez anos que os ex-candidatos presidenciais Mehdi Karroubi e Mir Hossein
Mousavi estão em prisão domiciliária.
Por
causa da ditadura iraniana, Panahi trata os seus filmes como os traficantes
tratam a droga: manda-os para a Europa em pens escondidas em bolos. Sem
isso, saberíamos menos do que se passa no Irão hoje.
Caro
leitor: isto não é um obituário. Panahi, espero, vai voltar a filmar. Isto é um
convite para vermos e revermos o cinema de Panahi, para falarmos do cinema de
Panahi e para nos juntarmos às campanhas da Amnistia Internacional e de todos
os que pedem a libertação dos presos políticos no Irão. Resulta. Ainda ontem li
a história dos irmãos Afkari. Vahid, Navid e Habib Afkari foram às
manifestações de 2017 e de 2018 de protesto contra a pobreza, a corrupção e a
repressão do regime. Quase 30 pessoas foram mortas logo ali, pela polícia, e
milhares foram detidas arbitrariamente. O irmão Vahid foi um deles. A sua
história destacou-se porque foi condenado a 33 anos e 9 meses de prisão e a 74
chicotadas, mas também porque, a seguir, a polícia prendeu os dois irmãos. Em
Setembro de 2020, Navid Afkari foi executado em segredo. Com dois filhos
destruídos pelo regime — um morto e outro em isolamento e condenado a morrer na
prisão —, a família montou uma campanha global para salvar o terceiro filho.
Após anos de cartas,
apelos e protestos de activistas e organizações
de direitos humanos, Habib Afkari foi libertado em 2022.
Como
nas alterações climáticas e em tudo o que importa, não fazer nada é uma opção
esquisita. Até nas férias."
Bárbara Reis, PÚBLICO