domingo, 18 de março de 2018

Uma Banhada de Ética

Se o ridículo matasse, Rui Rio não precisava de desesperar à espera da demissão do senhor Barreiras Duarte. Espanta-me que alguém que sempre passou, ou tentou passar, uma imagem séria da forma de fazer política, possa ser amigo pessoal de outro alguém que não tem vergonha de mentir no seu curriculum apropriando-se, de forma simplória e patética, de um estatuto que nunca teve. Não diz o ditado “Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”? Forjar habilitações académicas não é coisa de somenos e está muito longe de uma “imprecisão” que já “foi corrigida”. Rui Rio sabe-o muito bem.

Os argumentos de Barreiras Duarte são tão ridículos quanto o seu pseudo-estatuto de visiting scholar; como ridículas são as tentativas de justificar o seu entendimento do que é a morada “relevante” para poder receber ajudas de custo e subsídios de deslocação. A mania que algumas pessoas têm de nos fazerem de parvos. O senhor, pasme-se!, até perdeu dinheiro com a confusão da morada. Querem ver que ainda vamos ter de lhe agradecer a generosidade? E o que é, exactamente, ser-se visiting scholar, numa universidade americana, para alguém estar “convencido” de que tem esse estatuto sem nunca ter posto os pés na dita? É-se mais “convidado” do que “investigador” ou pode ser-se coisa nenhuma e deixar à imaginação de cada um? Ah, os conspiradores e intriguistas do PSD-anti-Rio que só querem é fazer a folha ou, se calhar, os papers, ao senhor secretário-geral-de-saída-e-já-vai-tarde…

Mas, não é só a ridiculez de Barreiras Duarte que espanta. Parece que a mesma professora que tão prontamente classificou de “forjado” um documento com a sua assinatura, não demorou muito a corrigir a pena: afinal, a própria assinou o documento, embora este representasse, apenas, uma inscrição. A ligeireza com que pessoas supostamente responsáveis tratam de assuntos sérios assusta-me sempre.

E, se no início era o curriculum do senhor Duarte, a seguir veio a tese. Oh, essa pérola da expressão escrita e não só (por estes dias, escarrapachadinha na net, com direito a outras tantas piadas e dissertações, pronta a ser consultada pelos mais corajosos), a quem eruditos avaliadores atribuíram um prestigiante 18! Prestigiante, mas, pelos vistos, sem grande rigor pois, apesar da unanimidade, um dos membros do júri da altura também já veio esclarecer que a nota foi dada "em função da defesa de dissertação (CV + estudo) mais do que o trabalho apresentado" e que, do pouco que se recorda, até “queria dar uma nota inferior àquela que ele teve”, mas, parece que os seus “colegas jurados preferiram dar uma nota superior" (https:// www.sabado.pt/portugal/politica/detalhe/a-fabulosa-vida-de-estudante-de-barreiras-duarte). Fantástico, não é? Até quase que se percebe que Barreiras Duarte se sinta um alvo; e a teoria da conspiração sempre inspira amores e ódios, de igual e intensa violência e paixão.

De modo que, para o “banho de ética” que o Rio Rui quer iniciar é bom que comece a escolher melhor a sua gente. Francamente, já estamos todos um pouco fartos de que nos façam de parvos…com mais ou menos banho.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Make Israel Great Again

Há uma frase que se atribui (dizem que erradamente) a Isaac Newton de que gosto particularmente, embora nada tenha a ver com qualquer das três famosas leis da Física: "Tact is the art of making a point without making an enemy".

 

Ora, todos sabemos que tacto é coisa que o mais recente e alaranjado presidente dos Estados Unidos não tem. De facto, Donald Trump é o elefante da loja de porcelanas e a loja de porcelanas é o mundo ao seu redor. Cada vez que o homem levanta a mão direita para debitar os 4 ou 5 adjectivos que enriquecem o seu léxico, ou para disparar mais um twitte naquele que é o seu de comunicação predilecto, parte-se mais uma peça. Desta vez, a peça partida tem um valor incalculável porque não consta que a paz tenha preço, pelo menos, em termos monetários apesar das modernices das moedas virtuais, como as bitcoins e afins.

 

Donald Trump é o rufia valente do agarrem-me-senão-vou-me-a-eles e parte do problema é que ninguém o agarra. Já se percebeu. Arrogante e autoritário (e mais uma série de títulos bem menos eufemísticos), manda nos Estados Unidos como manda nas suas empresas, trata todos quantos o rodeiam como trata os seus empregados e, se não concordam, estão despedidos! Espanta-me sempre como é que um homem que parece menos inteligente do que o meu filho de 10 anos (que tem, pelo menos, um vocabulário mais vasto) seja um reconhecido empresário de sucesso, um monstro dos negócios, um magnata não self-made, mas quase e, já lá vai um ano, presidente dos EUA. É fantástico!

 

O Hamas já apelou, vigorosa, perigosa e apaixonadamente, a uma nova Intifada contra Israel, pelo que, entre os enormes atributos de Trump, também constará para a História, a habilidade de ter feito mais do que o próprio Daesh pelo ódio contra o mundo ocidental. Creio que não será preciso ser grande analista político ou especialista em questões do Médio Oriente para imaginar o que por aí vem. A não ser que a imaginação não chegue.

 

Donald Trump escolheu colocar-se ao lado de Benjamin Netanyahu. Assim, numa espécie gémea do Make Israel Great, talvez sem o Again, mas definitivamente com a sua bênção. Ao mesmo tempo,  tenta lavar as mãos do desastre que se avizinha assegurando que EUA apoiam a solução de dois Estados “se ambas as partes estiverem de acordo”. Só sou eu a não entender bem o alcance deste raciocínio?

 

Parece que foi em 1995 que se aprovou, no Congresso norte-americano, uma lei para, efectivamente, mudar a embaixada dos EUA de Telavive para Jerusalém, estipulando 31 de Maio de 1999 como a data definitiva para essa mudança. E parece também que, desde 1995, todos os seis meses o presidente americano em exercício assinava um documento em que suspendia essa transferência.  De modo que, aos fervorosos adeptos e fãs de Donald Trump é fácil fazer o discurso do assim-é-que-é, basta-de-hipocrisias, acabe-se-com-o-Islão, os-muçulmanos-são-todos-terroristas e quem-não-está-comigo-está-contra-mim.

 

A urgência do politicamente correcto, a imposição por decreto de formas de pensar, a higienização da sociedade dita ocidental, a tentativa de reeducação em massa das populações, onde se pretende abolir os sexos e suspender os géneros, impedir as meninas de gostarem de se vestir de côr-de-rosa e de “quererem ser” princesas e os meninos de serem machos e usar azul, eliminar os estatutos de pai e mãe substituindo-os por gestantes-progenitores-cuidadores, criminalizar o mais inofensivo dos piropos e mais um ror de absurdos, tem feito bastante pela crescente onda de insatisfação das gentes, mesmos das mais pacíficas.

 

Enquanto continuarmos a confundir aceitar e respeitar a diferença- a nossa e a do outro- com a obrigação de pensarmos e agirmos todos da mesma forma, os “Trumps” deste mundo vão continuar a brotar como cogumelos, a escalada de violência não vai parar de aumentar e o ódio acabará por fazer mais vítimas.


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

"The Handmaid´s Tale": ficção ou possível realidade?

Acabei de ler esse (dizem que) profético romance da escritora canadiana Margaret Atwood. “The handmaid´s tale” (em português, O Diário de uma Serva, ou a História de uma Serva), escrito há, qualquer coisa como, 30 anos relata a história de uma Serva, que veste de vermelho, cuja identidade violentamente arrancada e descartável se traduz apenas por um “De”, de posse, seguido do nome próprio do seu dono e senhor, marcada como gado fértil para fins reprodutores das casas mais ricas.

Como não podia deixar de ser, a acção desenrola-se nessa América que alguns querem “great again” onde, a coberto de extremismos religiosos e falsas protecções da moral e dos bons costumes (seja lá o que isso for), a sociedade, em geral, passa a ser reprimida obedecendo a uma elite de duvidosas boas intenções, enquanto as mulheres, em particular, vêem decapitados os seus direitos mais básicos.

Nessa nova América de exacerbadas virtudes, as mulheres são divididas por “classes” ou “tipos”. Há as Martas, que vestem de verde e prestam apenas para os afazeres das casas senhoriais e para tratar do desejado bebé que a Serva de serviço há-de parir, se Deus quiser. As Servas, essas, servem para ser violadas em cerimónias inspiradas na Bíblia e na benevolência e submissão de Sarai, mulher de Abrão, que entrega ao marido a sua serva Hagar para que com ela se deite e com ela conceba um filho. Nesta América nova, imaculada e virtuosa, a falta de descendência é culpa das Esposas, como não, pelo que os machos têm a obrigação de copular com as Servas com o único propósito, claro está, de procriar e inverter a fatal tendência de diminuição da natalidade. Os teocráticos podiam, apenas, ter impedido as mulheres de trabalhar, mas, há 30 anos, não consta que o polaco Janusz Korwin-Mikke fizesse campanha pela supremacia masculina no Parlamento Europeu e era capaz de dar menos gozo.

As Esposas vestem de azul e expiam a sua culpa e incompetência suportando, entre outras coisas e deitadas de costas, o peso de parte do corpo da Serva entre as suas pernas enquanto o marido, sobre esta, se afadiga na sua tarefa bíblica e suprema. A Serva não pode abrir os olhos, só as pernas, durante o acto e o contacto entre ela e o senhor da casa é, por lei, estritamente restringido a essa solene formalidade.

O relato da autora é tão cru e violento como parece e, ao fim de algumas páginas, estou nauseada o suficiente para parar. Mas, entretanto, Donald Trump acaba de cumprir um ano de presidência dos EUA, ou será de Gileade?, janta alegremente com assassinos confessos e pede-lhes para cantar, cultiva e promove uma postura de arrogância e violência e, com excepção de alguns jornalistas, analistas políticos e alguma arraia-miúda, o mundo parece ter-se adaptado bem à mudança e, então, eu tenho uma curiosidade imensa em continuar.

As mulheres pobres, ou melhor, as mulheres dos homens pobres são, talvez, as menos infelizes. Afinal, gozam do direito de permanecer junto das suas famílias e, se se portarem da forma tida como decente, talvez não venham a ser enviadas para as colónias e envenenadas pelos resíduos tóxicos acumulados por décadas de todas as formas de pouca vergonha. Mas, sobretudo, não serão nunca disciplinadas e amestradas pelas Tias, nem obrigadas a rodar de casa em casa, a passar de mão em mão, até terem gerado e parido um número suficiente de filhos para sossegar as hostes até, finalmente, serem deixadas em alguma paz.

Ainda não consegui ver a série. Imagino que a reprodução visual do horror descrito por Margaret Atwood no seu livro não deixe ninguém indiferente. Muito menos, se esse alguém for mulher de corpo e alma e inteiramente livre. E, quando penso nisso, invade-me uma sensação viscosa, já que ninguém é, de facto, inteiramente livre. Como se a noção de liberdade pudesse ser moldada e modelada à urgência do tempo e das circunstâncias e o que hoje é abominável, amanhã possa vir a ser tolerado para depois de amanhã ser aceite como inevitável.

Esfrego os olhos energicamente e sigo em frente, afastando o nojo e o possível pânico. Afinal, é só um livro. Não é?

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Oh inclemências indignadas!

Oh inclemência! Oh indignação! Estará porventura periclitante a saúde mental desses pouco nobres e nada queridos deputados, ministros, conselheiros e (ir)responsáveis detentores de cargos públicos que todos nós ajudámos a criar? Bem sei que a frase não era exactamente assim, mas, a tirania é intemporal. Vai é assumindo diversas formas e, actualmente, trasveste-se de “redes sociais”. São úteis, porque servem para tudo: para perdoar ou humilhar, para amar ou odiar, para abafar ou inflamar, para denunciar ou camuflar, para ignorar ou indignar. E, indignar está na ordem do dia. A mim, ensinaram-me que quem não se sente, não é filho de boa gente. Mas, agora, não chega sentir. É preciso indignarmo-nos com todo o poder da nossa alma, um grito que nos sobe das entranhas mais profundas e que urge despejar como água benta sobre os impuros, ao mesmo tempo que sacudimos as gotinhas para longe do capote porque, passada a exibição honrada e honrosa da indignação, não queremos ter nada mais a ver com o assunto. Afinal, a falta de virtudes é tanta que temos que passar, lestos, de uma indignação à outra, sob pena de ficarmos rapidamente desactualizados e de reputação manchada. Não obstante, não sei bem contra quem me indignar. Vejamos. Há uma série de edifícios, assim mais ou menos importantes, quiçá, históricos que, em países que se honram de a ter, à História, se chama Património. Cultural e não só. Manda, se não mais nada, pelo menos, o bom senso, que um povo, que um país, respeite e faça respeitar o seu património histórico, cultural, monumental. Mas, por vezes, é difícil ser pobre e manter alguma dignidade, mesmo que histórica. Pelo que, aparentemente, alguém se lembrou que melhorar as finanças públicas talvez pudesse passar por cobrar uns trocos (literalmente, tendo em conta esse magnífico preçário incluído no despacho nº 8356/2014, publicado no Diário da República) pelo aluguer de monumentos históricos para o pessoal promover jantares e cocktails, proceder a filmagens para televisão ou cinema, lançar livros encantados ou não, sem esquecer os eventos académicos, infantis e os ligados à moda. Está lá tudo no despacho e é capaz de não ser mal pensado. Talvez assim haja mais gente a visitar museus. A primeira indignação surgiu com as imagens do jantar desse Founders Summit, presidido pelo admirável e não menos despenteado Paddy Cosgrave no nosso Panteão Nacional, lugar de memória e homenagem aos portugueses que se distinguiram por serviços prestados ao País. Essa gente ilustre dignificou, em vida, Portugal, e, Portugal, reconhecidamente e em retribuição, dignificaria, na morte, esses que foram e serão sempre seus. Simples, não é? Suponho que a segunda indignação, mas, essa, não expressa publicamente, tenha sido a do Paddy. Então, a malta marca um jantar num restaurante chiquérrimo, cheio de História, nem sequer precisa de se vestir a rigor, pode levar um casaco de ganga, paga o que está na tabela, regista na agenda pública do evento que entrega, até, em mão a membros do Executivo e, agora, desata tudo aos gritos, como se tivessem tomado a igreja de assalto? WTF? Pelo sim, pelo não, o Paddy pediu desculpa aos portugueses. Cai sempre bem e, mesmo assim, Portugal e a sua incrível cidade de Lisboa ainda devem ser dos locais mais incríveis para realizar uma incrível feira tecnológica, com abraços de pé igualmente incríveis. O único senão é que, para a próxima, o jantar talvez seja menos incrível… Depois, veio a indignação mais estrondosa, a do nosso primeiro-ministro. Mesmo depois daqueles abraços todos na Web Summit, da troca de mimos e exclamações, António Costa desconhecia que o Paddy levaria os seus colegas empreendedores a jantar à luz das velas no nosso Panteão Nacional. Não se faz! A indignação do nosso primeiro é mais que justa. Além disso, a culpa de se poderem fazer banquetes nos nossos museus, igrejas e jardins históricos não é deste governo, é do outro. Como sempre. Independentemente de quem governa, quando alguma coisa corre mal, a culpa é sempre do governo anterior, seja qual for esse ou o actual. No atirar de culpas, a nossa democracia é exemplar! O professor-presidente Marcelo também desconhecia o evento, que também achou indigno, enquanto Jorge Barreto Xavier- que aprovou em 2014 o tal despacho que regula a permissão da realização de eventos privados em monumentos nacionais- se indigna contra a cobardia política do actual governo e contra a falta de sensatez de se ter autorizado o jantar do momento! De indignação em indignação, pergunto-me por que motivo não terá havido nenhuma relativamente aos outros nove jantares que, pelo que li na imprensa, precederam este, no Panteão, e que já ocorrem desde 2002! Terei lido bem? Entretanto, a Directora do Panteão Nacional não pensa demitir-se já que se limitou a “submeter o pedido” para o dito jantar, “um entre tantos outros jantares que se realizaram no Panteão, de acordo com o regulamento em vigor”. De modo que, como também se dizia noutro clássico genial, chapéus há muitos. Cada palerma que escolha o que melhor lhe assente.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

A Bíblia Como Instrumento do Direito

Num primeiro instante, achei que me tinha enganado e que estava a ler, afinal, o suplemento humorístico do Público, aquele formidável Inimigo que, tantas vezes, me delicia com uma pitada de humor negro. Tive que ler a notícia várias vezes, em vários jornais de referência, para ter a certeza absoluta que, não, não era piada. O senhor Neto de Moura e a senhora Maria Luísa Arantes, parece que são juízes, assinaram uma sentença em que, entre outras coisas, citam a Bíblia para atenuar um crime de violência doméstica. Ainda incrédula, afinal, o jornalismo de referência também padece dessa nova tendência denominada fake news-barra-alternactive facts, fui ler o acórdão, preto no branco. Deixo aqui, transcrito desse acórdão, parte do que os supracitados senhores não se inibiram de escrever e, no fim, assinar: “Este caso está longe de ter a gravidade com que, geralmente, se apresentam os casos de maus tratos no quadro da violência doméstica. Por outro lado, a conduta do arguido ocorreu num contexto de adultério praticado pela assistente. Ora, o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem. Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte. Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte. Ainda não foi há muito tempo que a lei penal (Código Penal de 1886, artigo 372.0 ) punia com uma pena pouco mais que simbólica o homem que, achando sua mulher em adultério, nesse acto a matasse. Com estas referências pretende-se, apenas, acentuar que o adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou e condena fortemente (e são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras) e por isso vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher”.

Só para ter a certeza que percebi: o caso não tem a gravidade de outros de violência doméstica, porque o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à masculinidade; vivêssemos nós noutras sociedades e noutros tempos e a senhora poderia ser apedrejada até à morte; e, morte houvesse, mesmo nesta sociedade, a pena para o assassino, perdão, para o homem, assim vexado e humilhado seria meramente simbólica. Mais, a nossa sociedade condena, ainda e sempre, ámen, fortemente, o adultério da mulher! Perdi-me um pouco na parte das “mulheres honestas” são as primeiras a “estigmatizar as adúlteras”. Ou não sou tão honesta como pensava ou não frequentei a mesma escola que a excelentíssima senhora doutora juíza Maria Luísa Arantes.

Não sei se me ria se chore. Sou tão ignorante em matéria de Direito que não fazia ideia que, em Portugal, ou, pelo menos, na minha bela cidade do Porto (o acórdão é do Tribunal da Relação do Porto, estou profundamente envergonhada…), não fazia ideia, dizia, que a Bíblia fazia parte daqueles calhamaços que os senhores advogados e os senhores juízes têm que estudar e a que podem recorrer para elaborar sentenças e redigir acórdãos. Estamos sempre a aprender…

Entretanto, parece que Conselho Superior da Magistratura já reconheceu que as proclamações, vulgo disparates, do senhor Neto de Moura e da senhora Maria Luísa Arantes (já sei, são juízes, não sei porquê, o título académico soa-me mal; mas, pensando bem, também não sei se merecem o “senhor” e a “senhora”…)  são “arcaicas”, mas, não pode intervir. Parece que nem todas as barbaridades que cospem alguns juízes são passíveis de assumir relevância disciplinar. Já procuraram bem na Bíblia? Às tantas…

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Porque não se calam?

As férias que a Constança não teve, a varinha mágica que o António não tem e a resiliência que as populações devem passar a ter, que isto de estar à espera que seja a Estado, na forma da sua (Des!)Protecção Civil a cuidar do povo, é coisa que já não se usa: o que se impõe é ser proactivo!

 

Há acontecimentos que envergonham uma nação dita civilizada, como há posições e posturas que muito dizem sobre a capacidade e a preparação das pessoas para ocuparem cargos de responsabilidade. A incompetência, frequentemente, tem custos. E, quando esses custos são vidas humanas, enoja ouvir falar certas pessoas. Quando essas pessoas são directamente responsáveis, senão pelas mortes, pela total falta de competência para evitá-las ou minimizá-las, devemos ter medo. Quando, para lá da incompetência, se entretêm com discursos da treta, como se fossemos todos uma plateia de idiotas acéfalos, devemos ter vegonha! Todos!

 

Na Galiza, milhares de pessoas saíram às ruas, manifestando-se contra a vaga de incêndios que, ontem, matou 4 pessoas. Em Portugal, morrerem mais de 100, ao que tudo indica, por sórdida incúria, e ninguém assume qualquer responsabilidade porque o governo não tem uma “solução mágica” para o problema dos fogos! Terá alguma, ainda que não mágica?

 

Entretanto, Constança Urbano de Sousa, que tem o poder de retórica de uma criança chorona em sendo contrariada, mantém-se de pedra a cal a fazer nada, a não ser lamuriar-se. Quatro meses depois de 65 pessoas terem perdido a vida de forma terrível, estúpida, num cenário dantesco e inimaginável num país europeu, o que fez a senhora ministra, além de não ir de férias? Que medidas tomou, tão ocupada andava, para evitar que o fogo, esse demónio voraz e inclemente, voltasse a matar?

 

António Costa, com muito mais eloquência e manha e, portanto, com muito menos vergonha, veio falar ao país. Para repetir ad nauseam que a tragédia vai continuar, habituem-se!, que isto demora décadas a resolver. Pelo caminho, deixemos de pedir, infantilmente, a cabeça da senhora ministra, coitada, que não é altura de demissões! Acabemos com a “obsessão” de que falhou alguma coisa! Não falhou coisa nenhuma! Ou talvez tenham falhado as “próprias comunidades” que têm que ser mais “proactivas” e “resilientes”…

 

Até quando vamos continuar a permitir a ignomínia? Se é para nos continuarem a enxovalhar e a desonrar as nossas vítimas e os nossos mortos, porque não se calam?

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Independente sim, Independente não...

Às vezes, a política diverte-me. De um modo algo sado-masoquista, mas diverte-me.

Diverte-me ver os aflitivos contorcionismos, linguísticos, intelectuais e outros (físicos, não, porque isso, para alguns, já seria arriscar demais) que políticos e comentadores políticos fazem para tentar dar um ar sério às engenhosas explicações que são obrigados a produzir, para explicar monumentais fiascos. Sem lhe chamarem fiascos, evidentemente, porque aí reside a sua arte.

O último poderia dar pelo nome de “Independência Suspensa”. Da Catalunha, pois claro, que, num majestoso golpe da maior arte do flop, Carles Puigdemont se viu obrigado a ensaiar até ser capaz de o disferir com a dignidade que lhe foi possível. Aconteceu ontem, em directo, com um atraso simbólico da difícil digestão do maior sapo por alguém engolido, na História recente. A Catalunha será independente! Um dia, quem sabe, à semelhança do que já ansiavam uns quantos antes do referendo que produziu a mais estapafúrdia votação e subsequente contagem de votos, numa democracia europeia. Carles Puigdemont montou uma cilada que se voltou contra ele próprio. Pelo que é quase hilariante, não fosse o caso grave, ver tantos procurarem justificações honrosas, hábeis, inteligentes e moderadas no gesto de um homem que, começou por ser ardiloso e acabou a mostrar que, se a Catalunha merece, um dia, vir a ser independente, não o merece, seguramente, pela rédea de Puigdemont.

Os analistas políticos verão isto de outra forma. É a sua função, e ainda bem. Eu vejo assim: um homem com muita ambição e alguma sede de protagonismo quis liderar uma batalha para a qual não estava preparado. Apoiado numa ideia algo poética aliada a uma interpretação bastante enviesada das leis e dos direitos dos povos, este homem quis impor uma vontade que julgou legítimo liderar. Eis senão quando um pragmático, e nada romanesco, revés surge-lhe ao caminho. O capitalismo e a economia gostam de ficção, mas, no cinema, e a debandada de empresas com sedes na Catalunha começou a fazer tremer os alicerces de um sonho que, afinal, parecia não caber nas ruas de Barcelona. Confrontado com o fracasso, não lhe restou outra alternativa que a de fingir que declarava a “independência”, adiando a dita para momento oportuno, porque agora parece que não dá muito jeito… Ou, talvez, a última manobra, não sendo honrosa nem moderada, pode, seguramente, ser inteligente e hábil no mais puro sentido espanhol de “tramposo”, porque, convenhamos, Puigdemont está ferido, mas não está morto. E, morto estivesse, os deputados da CUP encontrariam maneira de ultrapassar esse problema menor. Afinal, não aplaudiram o discurso, mas assinaram, ordeiramente, a suposta declaração de independência. É sempre bom ver alguém lutar, com integridade e carácter, pelos seus ideais, não é?

Chegámos, então, a um novo impasse. Não sei se a Catalunha tem “direito” a ser independente. A não ser que queiramos alterar completamente as leis das sociedades em que também queremos viver, essas leis existem para manter alguma ordem nessas sociedades e para as fazer funcionar eficazmente. E, comparar o direito à autodeterminação do povo catalão com o direito à autodeterminação do povo de Timor, por exemplo (como já li), parece-me de uma absurda falta de senso comum, para não dizer que é quase um insultuoso abuso.

Mas, o diálogo impõe-se sempre como a melhor maneira de vencer desafios desta ordem, embora se torne difícil dialogar quando cada uma das partes parece já ter previamente tomadas todas as decisões…

A independência da Catalunha, a ocorrer, merecia mais glamour e, sobretudo, mais seriedade.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

E agora, Catalunha?

 

Bem me quer, mal me quer… assim vai papagueando, imagino eu, Carles Puigdemon, esta manhã, enquanto prepara a presença, mais logo, no parlamento catalão. As jogadas políticas têm destas coisas: às vezes, correm mal. Muito mal.

Depois de estender a armadilha a um impreparado e imbecil Mariano Rajoy, atirando velhinhas e crianças para a frente de batalha, matreiramente consciente que algo correria a favor do seu ardil, Puigdemon vê-se a braços com uma vontade de independência que, pelos vistos, não era tão fervorosamente desejada. Não tanto como ele pensava ou desejaria, pelo menos. Às transferências anunciadas das sedes de várias empresas e bancos para fora da Catalunha (quem diria?!), seguiu-se uma manifestação maciça, nas ruas de Barcelona, contra esse desejo de independência e por uma Espanha unida. Não sei se seriam 350 mil manifestantes ou 950 mil, mas, a não ser que as imagens fossem manipuladas, ao melhor estilo Trump, o que vimos nos écrans de televisão foram muitos milhares de pessoas (catalães e suponho que não catalães, eventualmente), a negarem, de forma surpreendentemente pacífica, o que Carles Puigdemon lhes quer, tão patrioticamente, oferecer. Até os jornalistas que cobrem o drama passaram de romanticamente adeptos da “causa catalã” a uma não menos romântica moderação, nas expectativas à volta da declaração unilateral de independência.

E agora? Agora, não me admirava nada que o senhor Puigdemon voltasse atrás nos seus intentos e refreasse paulatinamente a sua sede de fazer estória.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Demasiado para um só dia...

Carles Puigdemont montou, inteligentemente, a ardilosa armadilha. Mariano Rajoy, trôpega e ingenuamente, caiu. A grande questão é: e agora? De facto, a arte e a responsabilidade de gerir um país não são, de facto, para qualquer um...

 

Passos Coelho é, hoje, um homem violentamente derrotado. Apostado num "diabo" que não chegava (e não chegou, a não ser a ele) e sem nunca ter conseguido digerir o afastamento do renovado cargo de primeiro-ministro pela habilidosa geringonça de António Costa e companhia, fez o PSD refém da sua amargura. Os resultados estão à vista.

 

Isaltino Morais deve estar a rir a bandeiras despregadas. Se eu fosse eleitor por Oeiras, hoje não sairia de casa com vergonha de que me confundissem com um dos seus apoiantes.

 

Nos EUA de Donal Trump, a demência prossegue em directo e em catadupa. Nem é preciso provocar a Coreia do Norte: o "homenzinho do foguete" tem muitos "amigos" armados e explosivos, mais neuróticos do que ele, dispostos, também a matar sem dó nem piedade. Desta vez, foi em Las Vegas...

 

Há dias em que é preciso fazer um esforço enorme para não sucumbir à escuridão...

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Papa Francisco, o (fantástico) herege!

De há uns anos a esta parte, vivo sem crenças religiosas, de espécie nenhuma. Por nada de especial, só porque sim. E, talvez, porque conheço ateus e agnósticos que têm mais honra, humildade, respeito pelo próximo, etc, etc, etc, num dedo mindinho do que muitos católicos-cristãos e por aí fora, em toda a sua devota vidinha repleta de grandes e pequenos pecados. Até vivo com um, há vários anos. Ateu, quero dizer.

Adiante. Andava eu tão tranquila na minha vida descrente de sobrenaturais endeusados e aparece-me o Francisco, esse Papa “herege”, na boca de alguns teólogos conservadores. E o que fez o Papa Francisco para merecer tal cognome, de homens de Deus, como ele (como ele?)? Parece que escreveu um texto onde manifesta abertura aos católicos divorciados que voltaram a casar, pasme-se! E autoriza os padres a absolverem as mulheres que tenham feito um aborto. E admite a possibilidade de ordenação de homens casados.

Bom, na verdade, os ditos teólogos não chamaram o Papa Francisco de herege. Acusaram-no, apenas, de “espalhar a heresia”. Não é bem a mesma coisa. Todos sabemos que um herege é, assim, uma pessoa contrária aos dogmas de determinada religião e, como tal, que não pratica os seus deveres religiosos. E, também todos sabemos, não há teólogo, cardeal, bispo ou padre que não viva de acordo com os ensinamentos da Igreja Católica ou que deixe, uma vez que seja, de cumprir com todas as suas obrigações e deveres, principalmente, os da castidade, da humildade e da pobreza. Não é? Pois, bem me parecia.

Por isso, compreendo a indignação destes castos representantes da fé católica. Onde já se viu, um Papa que quer abrir as portas da “sua” Igreja aos divorciados, aos homossexuais, aos mais pobres de entre os mais pobres, enfim, a toda essa gente nada “católica”.

O Papa Francisco, com a sua simplicidade e inteligência desconcertantes, e apaixonantes, e hereges!, já veio dizer que ouve muitos comentários “respeitáveis, porque são ditos pelos filhos de Deus, mas errados”. O Papa Francisco foi mais longe e parece que também disse que, o tal texto, para ser entendido, deve ser lido “de cima para baixo”, “começando no primeiro capítulo, continuando para o segundo e assim por diante, reflectindo sempre”. E, com total desplante, parece que ainda acrescentou que a teologia e a filosofia não devem ser “reflexões laboratoriais”.

Eu, que não percebo nada disto, mas tenho opinião sobre tudo, acho que o Papa Francisco terá muitos defeitos, mas há muito tempo que um Papa não me tomava um segundo, sequer, do também muito meu precioso tempo. Como há muito tempo que não ouvia falar de um Papa que tivesse abdicado de tantos “direitos” e mordomias para estar mais perto daqueles que ainda creem na Igreja Católica e que dela mais parecem precisar.

De modo que, continuo a não acreditar muito na Igreja, católica ou não, mas acredito muito nas qualidades humanas deste Papa. É perfeito? Não. Mas alguém é?