sábado, 16 de maio de 2020
É o bicho. Foi(-se) o bicho.
segunda-feira, 11 de maio de 2020
Das mortes insuportáveis e das notícias a condizer.
segunda-feira, 4 de maio de 2020
Tele(sobre)viver
Pesa-me esta desconfiança surda, palpável. Temo-a mais que ao vírus.
Circunstâncias Sociais
sábado, 2 de maio de 2020
Depois do confinamento
Pergunto-me como vai ser a vida depois do confinamento. Como irão conviver os do rebanho com os do tudo isto é um exagero, independentemente da máscara de cada um. Vamos olhar-nos de lado e mandar às urtigas o amor pelo próximo que derramámos às janelas virtuais e convencionais nas últimas, longas, semanas, ou seremos capazes de nos tolerarmos, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza que há-de vir, até que a liberdade de viver sem medo de morrer nos faça esquecer do perigo que é existir?
Às armas!
sexta-feira, 1 de maio de 2020
Manobras de Diversão
Donald Trump sobreviveu ao processo de impeachment com a esperada bênção dos republicanos apostados, como ele, em manter-se no comando a qualquer preço. Não se tivesse instalado o caos à custa da pandemia do século, Novembro chegaria sem sobressaltos e, com ele, a canonização do maior presidente que a América já viu e o mundo pasmou. Nem seria preciso matar ninguém a tiro, em plena 5ª Avenida. Mas, a morte é caprichosa, implacável, e o momento Fifth Avenue de Donald Trump instalou-se com aviso mas sem remorsos, e a confiança do homem de imensa e superior sabedoria começa a fraquejar.
quarta-feira, 29 de abril de 2020
Desconfi(n)amentos
Uma, pelo menos uma, das palavras não existe, eu sei,
mas, como divago entre conspirações, aplica-se.
Que “a realidade supera a ficção” é daqueles clichés,
como se diz, que se resgata de cada vez que o mundo – mesmo que seja só o
nosso, num momento – nos espanta. E o mundo espantou-nos para lá do razoável.
Esbofeteou-nos. Ninguém estava preparado para o que por aí veio,
também costuma dizer-se. A diferença, dramática, está na extensão da tragédia.
Nos dias que se arrastam, penosos, à mercê dos números e dos modelos
matemáticos que a pandemia insiste em iludir. Há uma cacofonia
de modelos, e métodos, e percepções, e abstracções, e juízos
atabalhoados, erres-zero e erres-tê que
marcam a fronteira onde a teoria e a prática esbarram com estrondo, ora no
número de infectados, ora no das mortes que engordam as notícias, a notícia,
e a curva que se quer plana a todo o custo, sem que que o custo se revele igual
para todos. Morre-se da doença ou morre-se da cura, ouve-se,
encurralados que estamos entre ponderações que nunca pensámos ter de fazer, não
assim, não em directo, escandalosamente.
Percebo que se discorde, percebo que é importante pensar
contra-corrente para que se possa avançar, encontrar alternativas, delinear
estratégias, apontar soluções. Já percebo menos a contra-corrente apenas
para ser do contra, o chique que é agora, entre a classe dita instruída,
académica, especialista, científica, até, dissertar sobre a encenação montada
pelos vários Governos para amansar os seus rebanhos, a coberto de uma pandemia
que – segundo os iluminados – existe mas pouco, ou nada, ou existe com o
propósito diabólico e único de instalar o medo, amordaçar livres vozes e
suspender a democracia por muito mais do que alguns meses.
Por partes, e sem modelos matemáticos – que os há para
todos os gostos, e erres, e esses, e sigmas, e intervalos de confiança e
desconfiança, variâncias e afins.
Como não podia deixar de ser – em sendo plana a Terra, a
vacinação um plano obscuro com o único e pérfido intuito de enriquecer a
indústria farmacêutica e seus derivados, a ida à Lua uma pitoresca produção de
Hollywood e o aquecimento global uma inevitabilidade mais Terrestre do que
terráquea, quando não fictícia -, conjuram-se avisos de alerta contra a
patranha. A maior de todas, a taxa de mortalidade da Covid-19. Todo um mar de
teorias. Mesmo que seja uma e o seu contrário. Morre mais gente por Covid-19 do
que aquilo que o Governo admite. O Governo mente para evitar o pânico. Morre
menos gente por Covid-19 do que aquilo que o Governo admite. O Governo mente
para gerar o pânico.
É evidente que nunca nos contam tudo. Seria mais do que
ingenuidade acreditar no contrário. A pandemia e o medo que (também) a alimenta
servem tentações várias, inclusive a de impor regimes autoritários, e é preciso
olhar atentamente para o que está a acontecer, por exemplo, na Hungria. Mas há
teorias e teorias, conspirações e conspirações. E, francamente, explicar as
imagens brutais de mortos empilhados em camiões frigoríficos, deslocados em
camiões militares, enterrados numa espécie de produção em série macabra, sem
direito ao tempo e ao espaço dignos da despedida, com a lentidão dos
serviços funerários, por medo de tratar dos mortos e/ou
necessidade de os transferir para pontos centrais por obrigações dos
sistemas de saúde, e outras coisas que tais, está, para mim, ao nível do
resfriadinho do Messias que não faz milagres e da tremenda luz que ilumina os
alucinados, lixiviados e desinfectados por dentro e (menos) por fora.
Outra coisa bem diferente é discutir os riscos que queremos correr. Com verdade. Assumir que o país - os países - não pode permanecer encerrado em casa, que nem todos continuam a receber salário, muito menos, por inteiro. Que há um certo privilégio em ficar em casa que não assiste a todos e que se estende para lá de hashtags fofas, das aulas de catequese do Rodrigues Guedes de Carvalho, das palmas à janela e das sessões de ópera do meu vizinho de frente: sou sensível a tudo, mas, como muitos, já esgotei a graça de tal estado de coisas. Os equilíbrios que urge encontrar e nos inquietam – entre a saúde e a economia, entre a segurança e a liberdade, entre a vida e a morte – já são suficientemente graves e dramáticos, não carecem de delírios. E também não são de hoje, os equilíbrios e os desafios que enfrentamos. A diferença está em que o "hoje" despiu-nos, e nem sempre gostamos do que vemos.
quinta-feira, 2 de abril de 2020
"Nós, os velhos"
domingo, 22 de março de 2020
Em desalinho
Os últimos dias abateram-se sobre nós com a fúria
implacável que costumam ter as tragédias naturais: sem piedade, sem
contemplações de espécie alguma, sem pudor nem remorsos. Olho para os números
(é mais suportável, se formos números?) de Itália e pasmo de incredulidade, e
de algo mais que ainda não aprendi a definir. Ainda não aprendi a definir uma
enormidade de coisas.
Um dia qualquer desta semana – uma semana, apenas? –, ao
ouvir Boris Johnson anunciar, finalmente, uma série de medidas da contenção
possível em tempo de todas as incertezas, o meu filho perguntava, sem esperar
pela resposta, “já ninguém se lembra da Theresa May, pois não?”, e,
naquele desabafo infantil, inocente, resumia o atropelo de acontecimentos que
tentamos fazer encaixar com a resiliência que nos falta quando achamos que
somos invencíveis.
De todas as metáforas com que nos entretêm, a da onda
gigante que varreu (e não terminou, ainda) impiedosamente o nosso modo de vida
é a que me ocorre mais vezes. E, ainda assim, a comparação é quase obscena.
Também não estamos em guerra, mas, talvez seja possível virmos a olhar, depois
disto, com menos distanciamento para outras guerras, as que mantemos à
distância higiénica e segura de um écran de televisão chique.
A propósito de guerras - ou de que imaginamos ser a ameaça maior à nossa existência-, enviaram-me, ontem, o vídeo de uma palestra de 2015, onde Bill Gates avisava quem o ouvia de que seria mais sensato – e urgente – prepararmo-nos, eficazmente, para a probabilidade de virmos a enfrentar um vírus altamente contagioso; mais do que, propriamente, uma guerra. Nuclear, no caso.
Não estávamos preparados, como não estamos preparados.
Nunca estamos preparados.
Não olho para esta pandemia como a remissão bíblica, ou romântica, de todos nossos pecados. Como se a consequência natural de toda esta balbúrdia inusitada(?) e sinistra fosse um idílico mundo melhor; tardio, sim, mas inevitável, obviamente emergente dos nossos escombros, como a Fénix que ressurge das suas próprias cinzas. As águas mais limpas dos canais de Veneza (mesmo sem golfinhos, nem cisnes - precisamos de acreditar em qualquer coisa...), o chilrear ressuscitado de pássaros regressados, a dramática diminuição da mancha de poluição sobre os céus, primeiro, da China, depois, de Itália, ainda não chegam para me fazer sonhar com as coisas boas que hão-de vir. E hão-de vir, seguramente. De que outra forma poderíamos manter vivo isso a que chamamos esperança? Mas, enquanto isso, há gente que morre sem tempo para lágrimas. Mais uma vez, as imagens que chegam de Itália, as notícias que chegam de Espanha, da Síria, e de todos os cantos do mundo onde a tragédia se instalou sem pedir licença, são avassaladoras. O preço é demasiado alto.
No outro dia, no fim de mais um “Governo Sombra” - numa
grelha programática onde ainda se ensaia a normalidade possível - ouvi o Carlos
Vaz Marques citar uma frase de Franz Kafka: “Não é necessário saíres de
casa. Ficas à mesa, e escuta. Não escutes sequer; espera. Não esperes sequer;
fica completamente quieto e só. O mundo oferecer-se-á para que o desmascares.
Não lhe resta outra coisa. Arrebatado, contorcer-se-á perante ti.”
Costumava gostar de silêncios. E dessa solidão que nos preenche quando
estamos em paz. Se essa paz me escapar, não saberei o que fazer do mundo que se
me oferece e se contorce diante de mim. Nunca estamos preparados para o
absurdo, fora das páginas dos livros. Mesmo dos livros que nos consomem.
Em pouco mais de dois meses, uma avalanche de
acontecimentos rasgou a normalidade dos meus dias. De todos os dias. Caio em
câmara lenta, preparada para o embate iminente. Ninguém, ainda, sabe ao certo
quando, nem como, mas o ponto de impacto está ali, à espreita, à espera, voraz
como todas as catástrofes. Sempre me comocionou a capacidade de resistência dos
que suportam em ombros e em carne viva todas as contrariedades das miseráveis
vidas que, só por acaso, não são as nossas. Estamos tão impreparados para a
adversidade que só por idiotice poderemos comparar o nosso infortúnio com o de
outros; e, no entanto, ninguém sabe o que trará o próximo dia, se é que o
soubemos alguma vez. Estarão certos, os que crêem que há uma sobreavaliação do
perigo que corremos, um quase histerismo não necessário e mais difícil de vir a
ultrapassar do que a própria pandemia? E claro que não me refiro à classe de
imbecis onde cabem os trumps e os bolsonaros. Se alguma coisa resultar de
realmente benigno para o mundo que sobrar, espero que seja, precisamente, a
queda estrondosa deste tipo de líderes: cínicos, cobardes e fraudulentos.
Entretanto, vejo o mar da minha janela. Tranquilo. Alheio
ao turbilhão de acontecimentos que nos inundam as horas em suspenso. De alguma
forma, tranquilizo-me, também. Há um antes, e haverá um depois. Não acredito em
milagres. Mas, acredito na ciência, na inteligência dos mais competentes e na
capacidade de resistência que emerge da união de esforços, quando o desafio
assim o reclama