À
pergunta se Portugal é um país racista, a minha primeira resposta é, instantaneamente,
não. Portugal não é um País racista. Explico-me. Não tenho a percepção de que,
enquanto país, tratemos de forma diferente – para pior, entenda-se – um negro,
um brasileiro, um africano (é essencialmente deles que se fala; se forem pobres, claro) por essa
condição exclusivamente. O que não é o mesmo que afirmar – ou sentir – que não
haja pessoas racistas em Portugal. Como há machistas nojentos, e um sem número
de escumalhas várias, para todos os (des)gostos e (maus) feitios. Porque o que não
há, realmente, é uma sociedade perfeita, isenta de pecados, em lado nenhum do
mundo. Há sociedades que se pretendem justas, que é coisa bastante diferente.
É
possível que esteja totalmente errada. Por ignorância imensa, por falta de
sensibilidade, por ser ingénua, ou, simplesmente, imbecil. Os que asseguram que
Portugal é um país racista, sem dúvida, argumentam com a existência de um número
residual (às vezes, nulo) de negros, por exemplo, entre os jornalistas, os deputados,
os principais rostos de televisão, na hierarquia das forças de segurança, e em
tantas outras áreas de relevo para o bom funcionamento das sociedades
democráticas, as tais que se querem condignas. Se não por racismo, porquê,
então, essa inegável evidência? Não há número suficiente de negros –
portugueses ou não – para que a sua presença se faça sentir fora dos empregos
que designamos por pouco qualificados?
O
racismo, porém, não está apenas em tratar mal o outro pela sua
diferença: está, também, em ignorá-lo; ou tratá-lo com a benevolência que se reserva
aos incapazes, seja qual for a incapacidade com que o vemos. Desse
ponto de vista – de importância enorme, diga-se – talvez a conclusão inevitável
seja a de que somos, de facto, um país racista.
Vem isto
a propósito de duas notícias recentes. O racismo está na ordem de todos os
dias, nem sempre com o decoro que merece.
Uma
delas já fez correr imensa tinta: a morte de Giovani Rodrigues, o estudante cabo-verdiano,
barbaramente agredido por um grupo de selvagens como só os cobardes mais imundos
o podem ser.
Os rebanhos que povoam e pululam pelas redes sociais foram céleres e implacáveis a classificar o ataque como um crime de ódio porque sim, sem saberem nada sobre
o assunto, abrindo caminho para todo o tipo de teorias conspirativas, montando
um espectáculo asqueroso à volta da morte do jovem.
A outra,
li-a há pouco. Uma mulher acusa um agente da PSP de a ter agredido brutalmente na
sequência de uma altercação com um motorista de autocarro da agência Vimeca; na origem, o facto de a filha de oito anos não estar na posse do necessário passe para prosseguir
viagem. Na fotografia, Cláudia Simões aparece com a cara horrivelmente deformada,
os olhos e os lábios inchados, sangue, feridas, o nariz esmurrado, uma imagem
perturbadora. Cláudia é uma mulher negra e diz-se vítima de racismo por parte,
quer do agente policial, quer do motorista do autocarro. A PSP sustenta que Cláudia
agrediu o agente Carlos Canha (mordendo-o), constituíram-na arguida, e afirma-se que
Carlos Canha utilizou a força estritamente necessária para proceder à
algemagem da mulher.
A
descrição que Cláudia faz dos acontecimentos e da agressão a que foi sujeita é,
no mínimo, assustadora. Mais uma vez, não sabemos exactamente o que terá acontecido.
Mas é difícil entender que a força estritamente necessária para um
polícia treinado manietar uma mulher normal tenha sido capaz de desfigurá-la, mesmo
que esta o tenha mordido – Cláudia confirma-o: mordeu o agente porque ele estaria
a sufocá-la.
Também
não sei se foi ou não foi racismo o que motivou a agressão de que Cláudia foi
vítima. Mas, seguramente, não foi o estrito cumprimento da lei e do dever. Se
fosse esse o caso, nenhum de nós estaria seguro com esta força de segurança.
Nem sequer aqueles que não se inibem de dizer que Cláudia Simões estava a
pedi-las, ou não entrasse no autocarro sem bilhete. Onde é que já se viu, não cumprir regras. A mania que as vítimas têm de se porem a jeito.
É mais "fácil" – leia-se, "horrível", "absurdo", "macabro" – perceber (sem que perceber seja possível) que o jovem cabo-verdiano morreu de forma criminosa às mãos de
um bando de delinquentes cobardes a quem pouco interessaria a cor da vítima, do
que compreender que aquele agente estava no cumprimento escrupuloso das suas
funções. Portugal não precisa deste tipo de autoridade.
Finalmente,
a bomba explodiu. Depois de várias acusações de Ana Gomes (e não só, mas poucos...), com a subtileza que (felizmente) não se lhe conhece, Isabel dos Santos passou da boca daquela para as bocas do
mundo – que é como quem diz – para as primeiras páginas de tudo quanto é
jornais de referência, por suspeita de fazer fortuna, imensa, subtraindo
montantes obscenos ao erário público angolano (principalmente). E como sempre faz quem tem
muitos telhados de vidro, de cristal puro em condóminos de luxo e torres no
Dubai, sem esforço maior de trabalho ou talento que não seja o de nascer bem,
no seio de famílias do poder absoluto, a defesa da empresária passa por
acusar os seus acusadores de “perseguição política”, “racismo” e “colonialismo”. Como não?
A mulher
que é filha de um homem cujo governo em causa própria mandou prender angolanos
pelo grave delito de ler livros atentatórios do bom regime de Angola, à época,
que usou e abusou da hipocrisia e bajulação, no mínimo, da fina flor da elite
portuguesa e não só, que construiu uma reputação de empresária brilhante,
espalhando o seu poder e influência por várias empresas em Portugal, vem agora
dizer-se vítima da mesma condição que cavalgou astutamente para se promover e
montar fortuna sobre o espólio de um país subjugado à ditadura que a elevou em
braços ao estatuto de “princesa” multimilionária, “a mulher mais rica de África”.
Os documentos que estão sob investigação são,
por isso, falsos, segundo Isabel dos Santos. Todas as movimentações de
dinheiro, incluindo os tais 115 milhões de dólares em consultoria que a
Sonangol transferiu para a conta bancária de uma convenientíssima companhia
offshore – daquelas com um funcionário ou menos, a que não se reconhece outra
actividade que não seja a de servir de canal entre transferências avultadas de
dinheiros de reputação claríssima, como se sabe, no intuito, apenas e só e devidamente
enquadrado na lei feita à medida dos que dela gozam, de minimizar a dor que é
pagar um ror de impostos maçadores (enfim, uma daquelas empresas exemplarmente
retratadas no filme da Netflix, The Laundromat, A Lavandaria, cuja exibição os advogados
de Jurgen Mossack e Ramon Fonseca pretendiam impedir) – e com a qual Isabel dos
Santos não tem qualquer relação, obviamente, dizem respeito, dizia, a contratos
negociais imaculados. Só por má fé racista e colonialista se pode pensar o
contrário. Apesar de os documentos mostrarem que a “Matter Business Solutions tinha como principal gestor de negócios e como directora duaspessoas próximas da empresária que a representam em importantes empresas de que é accionista em Portugal”. Está quase tudo aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, e não só; é só ler, interpretar,
interrogar, duvidar, unir pontos…pensar. Sobretudo, desconfiar por que motivo
quem nunca tem nada a esconder, se preocupa mais em exaltar os fantasmas das
perseguições pessoais e/ou políticas, em vez de mostrar, na justiça, provas de
que, efectivamente, a sua fortuna nasceu com seu carácter, a sua inteligência,
educação, capacidade de trabalho e perseverança, como Isabel dos Santos
referiu nos inúmeros tuites que tem dedicado à sua “defesa”.
Um
africano vale tanto como um europeu, e vice-versa, ao contrário do que a
reputadíssima empresária vai carpindo nas redes sociais. Os que a bajularam e
foram cúmplices com o seu império à custa da espoliação dos mais pobres, por
exemplo, são almas-gêmeas, idênticos em tudo, decalcados a papel químico.
Honra
seja feita a Ana Gomes que nunca se deixou intimidar nas suas denúncias, ao
contrário de outros que fingem ter acordado agora para o monstro que a bela
alimentou com avidez miserável, à custa também desses que, não só sabiam de tudo, como se foram saciando no mesmo banquete. E, sim, Isabel dos Santos é inocente até a tal prova em contrário. Aquela que tarda sempre em chegar, a não ser aos mais incautos, a quem os densos labirintos da lei não se aplicam, antes, abrem-se como botões de rosa. Havíamos de encontrar uma figura jurídica com carácter intermédio para que, tendo em conta os tempos da justiça, pelo menos em Portugal, não fôssemos todos obrigados a fingirmo-nos de parvos a bem da inocência.
Li que
Gwyneth Paltrow teria posto à venda velas com cheiro a vagina. À sua, mais
concretamente. Espicaçada pela curiosidade, fui procurar fontes mais ou menos
fiáveis.
Descobri
que, afinal, só o nome da coisa é bizarro. Da vela, quero dizer. E da ideia,
talvez. Parece que, enquanto Gwyneth procurava uma fragância mais ou menos
sofisticada, em parceria com o perfumista Douglas Little, ter-se-á deixado
entusiasmar (ou não) por um aroma em particular e, num momento de (des)inspiração, deixou escapar um "Uuh... isto cheira à minha vagina!". Qualquer coisa assim. Sendo que a interjeição, pelo menos, se presta a várias interpretações.
O certo é que o nome ficou no ouvido, ou lá onde foi, e como há aqueles
a quem basta querer e poder – parece, mas não é bem a mesma coisa, digam o que
disserem – as velas começaram a ser vendidas sob a égide “This Smells Like
My Vagina”…só que não.
Lembrei-me
disto a propósito das vigas de Cabrita Reis (a minha mente é capaz de associações
estranhíssimas). O artista plástico e pintor português, como diz a
Wikipédia, escreveu um artigo no jornal PÚBLICO a defender a sua obra mestra, A
Linha do Mar. Diz o autor, aquele conjunto de vigas brancas frente ao mar
de Leça da Palmeira – talvez menos serenamente do que desejaria o
próprio – é uma obra de arte, porque sim; porque ele assim o afirma. Mais
exactamente, tem de o fazer, deve fazê-lo e pode fazê-lo. Sem
mais. Mas, há mais, afinal. O artigo (além de um insulto aos que pagam impostos, como eu, mas nisso o senhor não está sozinho e, convenhamos, há piores, embora não sirva de consolo...) é um enjoativo exercício de vaidade em causa e cousa própria, e um atestado de ignorância, no que a ignorância tem de mais
ignóbil, aos que ousam desgostar daquilo . Como se atrevem?
Confesso
que só vi a escultura em fotografias de jornais e revistas. Ainda não tive a
oportunidade de experienciar, ao vivo, em frente ao mar para lá das majestosas
vigas – ao que parece, exemplo maior de formidável abstracionismo, ao alcance do entendimento
de poucos –, o fervor de me deixar arrebatar pelo génio de Cabrita Reis.
Pertenço àquele grupo de pessoas que aprecia mais a arte dos que foram
tocados por deus, no isolamento melancólico dos seus ateliers, o que
Cabrita Reis lamenta, mas sempre vai dizendo que já não é bem assim. O que
me leva a desconfiar que poderei chorar ante a visão de A Linha do Mar,
mas, possivelmente, por motivos diferentes dos que me levaram às lágrimas sob o
tecto da Capela Sistina. Enfim, não saberei assim tanto. Quem sabe (e viu?) diz que aquilo é de uma beleza sublime, uma obra-prima da arte contemporânea, obviamente
parida (mas não de forma suada, a não ser que o autor tenha transportado as
vigas em ombros) por uma mente tão brilhante quanto incompreendida, e é
absolutamente lamentável que haja tanto populacho parolo incapaz de prestar o
devido culto ao mestre, tanta gente absolutamente inapta para perceber a
dinâmica observador-envolvente essencial para sucumbir ao deleite daquela manifestação artística.
De modo
que, voltamos aos que podem, porque podem. Vender velas, ou fazer-se pagar (bem)
por uma arte, para lá da arte propriamente dita.
E fico-me por aqui. Para disparate, bem bastam as vigas e as velas. Não necessariamente por esta ordem.
É
possível que tenha sido sempre assim e só agora me tenha dado conta. Um pouco
como quando nos garantem que, por exemplo, os crimes de violência doméstica não
terão propriamente aumentado: o que haverá é mais casos denunciados. A forma
como estamos ligados permite que as notícias (e, claro, também os
rumores, os logros, o que se vulgarizou chamar de fake news, factos
alternativos, e uma série de outras variantes das emoções desenfreadas com
que passamos a alimentar a nossa fome soberba de razão e justiça) circulem à
velocidade das redes e à mercê do politicamente útil, de acordo com as
melhores agendas. É, por isso, possível, sim. Mas não creio. Que não estejamos
a assistir a um aumento efectivo e generalizado da violência, quero dizer.
Há, nos
últimos tempos, um escalar de crueldade, de tirania – por palavras, actos e
omissões –, por parte (também) de altos representantes de vários Estados,
que tem contribuído para um extremar consentido e aplaudido (exigido?) de
ataques às mais básicas regras democráticas. A barbárie tornou-se mais que
vulgar: é, actualmente, exaltada como a mais bela liberdade de todas as expressões,
da imbecilidade mais impudica ao mais selvagem e profundo dos ódios. O insulto passou
de banal a apetecível e apetecido. Em particular, o actual presidente dos EUA isentou-o
de barreiras morais, elevou-o a estatuto de hino evangélico fremente e tornou-o
na mais eficaz arma de combate político. O povo, em delírio, aprova e
aplaude com gula.
Há uma diplomacia
da violência em enérgica ebulição, desconcertante, descontrolada, perigosa, que
ninguém parece ser capaz de travar. Os argumentos que, outrora, não serviam
para desmentir factos, sucumbiram ao poder das verdades algorítmicas. Já não se
trata de ser rei quem tem olho em terra de cegos; antes, de uma obscena ode
à cegueira como o único caminho para a salvação de uns quantos (demasiados),
mutilando, para isso, os próprios olhos se preciso for. E o mais assustador é
perceber que todas as estratégias ensaiadas para combater o monstro, tornam-no
mais forte a cada dia. A nova democracia alimenta-se de um po(l)vo que, afinal,
não gosta da antiga tanto quanto se pensava. A não ser, claro, quando as
regras da senhora servem sofregamente os seus próprios interesses. Duterte é um
facínora, Trump é um estadista brilhante e destemido. Omnisciente. O Pentágono não possui qualquer prova das intenções de Soleimani em atingir alvos americanos, mas "O Presidente" (o único, o melhor, o enviado) sabe mais. Muito mais. Sempre. E quem olha para a morte de Soleimani como, conveniente e maioritariamente, um assassínio encomendado por Trump e para Trump, claro que está com o regime do Irão. Imbecis. Um processo de impeachment
aplicado a um presidente acusado de perjúrio e de obstrução da justiça num caso
de relações extraconjugais é uma prova exemplar do bom funcionamento da
democracia; já se o presidente for Trump, acusado de chantagear um outro país a
troco de benefícios pessoais e políticos, enquanto proíbe testemunhos vitais,
insulta quem se lhe atravessa ao caminho e despede os que ousam contrariá-lo, nesse caso, trata-se de uma injuriante caça às bruxas, um embuste, uma vingançazinha ranhosa da "crazy Nancy".
O despotismo alcançou o estatuto do melhor dos regimes, alimentando-se das mesmas
regras que faziam da democracia o pior deles à excepção de todos os
outros. Richard Nixon está próximo de se converter num elevado exemplo de nobreza de carácter. E o banquete ainda vai no
adro. No antro. Que irrompeu das entranhas do submundo digital para as cadeiras
do poder. Os anti-sistema sabem bem como usá-lo, porque o esvaziaram de empecilhos morais e éticos.
Porém, o
mesmo discurso que apontamos aos apoiantes de trumps e seus derivados vira-se
contra nós. Deixámos que a liberdade servisse os propósitos perversos de
gente para quem a mentira serve, ora como divertimento, ora como lucro: seja na
forma de likes que engordam contas bancárias de influencers
virais, ou na de um inusitado cargo político inatingível de outra forma. Os “padrões
das comunidades” várias de Mark Zuckerberg servem para censurar o nu de Courbet
ou o cozido galelo, mas não para impedir que as mentiras mais sórdidas
proliferem como larvas no lixo. E com o deepfake ao virar do todo-poderoso algoritmo, estamos prestes a entrar num outro nível.
Não sei
se vamos a tempo de evitar maiores desgraças, mas receio bem que o caminho para
isso não passe apenas por continuar a apontar as afrontas destes novos democratas.
Trump e o seu séquito – como Bolsonaro e outros que tais – chegaram, viram e já
venceram uma vez, neste tempo que achávamos de paz (deste lado do mundo, pelo
menos). Derrotá-los vai exigir muito mais do que criticar-lhes o método, por mais nojento.
O Papa Francisco
(talvez tenha sido mais o Jorge Bergoglio) teve um acesso ríspido de
humanidade. Irritou-se com uma “fiel” e deu-lhe duas palmadas na mão, como se
faz(ia) aos miúdos mal-criados. Logo se ergueu um coro de críticas mais
indignadas que o próprio Papa, que os tempos assim o exigem. Os tempos, aliás,
vivem-se de forma bastante curiosa: aos bons exige-se que sejam santos; os
maus, os escroques, levam-se em braços, embalando a sabujice e exaltando os méritos
da coragem anti-sistema e outros engodos do género.
Mas, falava de
Papas. Há dois, e eu vi o filme. Por acaso, logo no finado dia 23, sem saber
nada daquilo. Abri a Netflix, vi o título e o Anthony Hopkins e bastou-me. O
que é um pouco injusto, até, já que Jonathan Pryce tem, também, uma
interpretação extraordinária. Mas, Hopkins é Hopkins. Rendo-me sempre ao seu
talento que, pelos vistos, não se esgota no grande ou pequeno écran. Não fazia
ideia que pudesse, por exemplo, compor uma valsa, até a minha irmã me mostrar o
André Rieu a tocá-la com a sua orquestra. Enfim. Já o disse por aqui. Há
pessoas que escolhem talentos e talentos que escolhem pessoas.
Gosto de ver filmes – e de ler livros – por acidente, sem
saber nada deles, sem ter ouvido um simples rumor que seja, de surpresa, para
poder beber dos seus defeitos e virtudes sem pré-conceitos nem pára-raios, sem
rede de segurança e vendada a instruções alheias. Só eu e eles, para
pensar o que me muito bem ou mal me apetecer.
Ao contrário do que ouvi, depois, a alguma gente, passei
a apreciar mais, e não menos, a figura de Joseph Ratzinger. É bem provável que
a culpa seja, novamente, de Anthony Hopkins, mas vi um Bento XVI brilhante como
nunca me tinha (a)parecido antes, na época em que ocupava o Vaticano. Não que
lhe tenha prestado assim tanta atenção, nessa altura, a bem da verdade.
Maravilhei-me com a riqueza dos diálogos que sei que não
ocorreram, na sua grande maioria, embora os textos que os inspiraram possam ser
reais; recordei as críticas mais assanhadas feitas aos dois homens, Ratzinger o
nazi e Bergoglio cúmplice do regime ditatorial de Jorge Videla;
reconheci a intelectualidade brilhante, bela, de um e o delicioso humor do
outro e encantei-me com a magnífica cena do tango que sei também que os dois
nunca dançaram. Não prestei atenção ao lado religioso da coisa, nem ao drama
Papa-Mau versus Papa-Bom que alguns ensaiaram à laia de ralhos e exaltados de
crenças, dentro e fora da Igreja. É maravilhoso não possuir dotes de análise
profunda sobre o que é, ou é suposto ser, a arte em qualquer uma das suas
formas. Assim, posso dizer que detesto ver uma banana colada à parede com fita
adesiva, ou uma data de vigas brancas plantadas em frente ao mar,
independentemente do preço das peças, do génio do autor, e da
pseudoprofundidade do seu alcance artístico, da mesma maneira que posso
deslumbrar-me com um filme sobre dois homens extraordinários que, por acaso,
são Papas. Maio ou menos.
Como posso ler “A Outra Margem do Mar” de um fôlego,
arrebatada, e não nutrir grande simpatia pela pessoa de António Lobo Antunes.
Ou não ficar rendida ao “Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos”, de Olga
Tokarczuk, apesar do prémio Nobel, que nunca (ainda?) entregaram a Lobo
Antunes. E claro que também li o “Imortal”. O melhor das férias é dispormos de
tempo para desbaratar, embora o tema da Inteligência Artificial seja para levar
bem a sério. Muito a sério, mesmo na escrita que muitos acusam de pouco erudita
de José Rodrigues dos Santos.
Por falar em férias, parece que temos um ano novo. Pelos
menos, nós, que medimos o tempo pelo calendário do Papa Gregório XIII,
para não fugir tão descaradamente ao tema de partida.
Não tenho resoluções de ano novo. Um ano é uma imensidão
de tempo, independentemente da forma como o medimos, pelo que, nunca sou capaz
de dizer “que ano magnífico!” nem, ao contrário, que “ano horrível!” foi este
que acabou agora mesmo. Esforço-me por dispor felicidades (e desgostos)
uma-a-uma, peça-a-peça, como numa construção de legos. Só saberei se valeu a
pena quando chegar ao fim e, para isso, preciso de mais do que um ano, ainda
assim; preciso de uma vida, e ainda não acabei.
Tenham, então, uma boa vida, mais do que um bom ano.
Uma das lições mais tristes da História é a seguinte: se formos enganados durante muito tempo, temos tendência a rejeitar qualquer evidência do logro. Deixamos de estar interessados em descobrir a verdade. O logro capturou-nos. É simplesmente demasiado doloroso reconhecer, inclusive perante nós mesmos, que fomos apanhados. A partir do momento em que entregamos a um charlatão o poder sobre nós, quase nunca o recuperamos.
Carl Sagan
A Ciência é mais que uma estrutura de conhecimentos. É uma forma de pensar; uma forma de interrogar o Universo com cepticismo e um conhecimento preciso da falibilidade humana. Se não formos capazes de colocar questões cépticas, interrogar aqueles que nos dizem que algo é verdadeiro, sermos cépticos relativamente àqueles que estão numa posição de autoridade, então, estaremos à mercê do próximo charlatão (político ou religioso) que vier divagar.
Talvez
não tenha sido um acaso, lembrar-me do homem do café. Aquele que dava vida aos
restos negros, aguados, que ficavam no fundo, no fim daquele primeiro momento
de prazer. Findo aquele instante, breve para quem olhava sem ver nada, deitava
a chávena sobre o pires, inclinando-a com a delicadeza firme e apaixonada que
guia a mão dos artistas. Com um pincel fino, muito fino, despia com amorosa
minúcia o acidental excesso tombado no corpo branco da pequena chávena de
louça, e desenhava, num caderno de argolas, o que os seus olhos admiravelmente
anteviam naqueles restos de café espesso, inerte e frio ainda há pouco, vivo
agora, torrencial, enchendo de desejos encarnados as páginas brancas e lisas do
bloco.
Ele
sabia que eu o observava. Em silêncio inquieto. Pasmada diante daquela
imensidão de mundo que cabia e, porém, vazava do caderno de argolas.
Embalada
por recordações antigas, descobri-me a rever fotografias de outros tempos. Das
que revelava, ainda, antecipando essa mesma ansiedade inquieta do
desconhecido. Consumida de vontades inadiáveis, sim, mas sem a insipiência
precisa do rigor digital de agora.
Organizava-as
em álbuns. As fotografias. Inventários de capa dura e páginas decoradas com
bolsinhas de plástico sobranceiras às linhas rectas onde vertia, deslumbrada, o
meu encantamento pelos dias passados.
Voltei
a passar as mãos pelas folhas. Senti o cheiro das memórias. Deixei-me tomar
pelos encantos que imortalizei a cada época, a cada página, em frases simples,
tão simples, de uma ingenuidade tão completa e eloquente que quase me
desconheço. Ou talvez não. Talvez me reencontre, apenas, entre essas
recordações. “Pareces una niña, es
que te encanta todo!”.
E encantava-me. Encanta-me, ainda, não
sendo já tão menina. As rugas dos rostos que se cruzam comigo, e os sulcos da
terra que me sustenta e me embala. Sem pressa. O sussurro das vozes carregadas
pela brisa ansiosa e meiga, a que ofereço a face, rendida, para que me mime e
me acalente. As montanhas soberbas, escarpadas, arrogantes como a vida que se
vive sem amarras, ao sabor dessa gente que descobrimos sem querer e sem pedir;
e sem pedir nem querer nos preenche os sentidos com a mesma avidez sem aviso
que recordo quando rio. Quando choro. Vou procurando o equilíbrio no tempo que
roubo para mim, resgatada entre os instantes em que me ouço. Como ouço as
preces dos pássaros. E a sofreguidão do vento, rouco, que me agarra e me
confunde, que me sopra ao ouvido segredos que não ouso descobrir.
Li e
reli, vezes sem conta, perdendo-me, encontrando-me, absorvendo cada palavra
como o ar que me falta por momentos.
Recordei
rostos queridos, passados, que a Morte apressada nos seus insondáveis
caprichos, resolveu levar sem aviso nem demora. E dou por mim a pensar, tonta,
que o homem do café talvez desenhasse para mim. Às vezes. Perturbando o meu
sossego, sem que o pudesse imaginar.
Na
terça-feira passada, António Mexia
foi ao Parlamento dizer, entre outras coisas, que, não só não há nada disso de rendas
excessivas na EDP, como a empresa a que preside é o abono de família do Estado.
Ricardo Salgado
deu uma entrevista à
TSF, na qual, como habitualmente, clamou por inocência sua e má vontade dos
outros. Por entre as respostas às habituais perguntas fofinhas que este
tipo de gente sempre inspira aos jornalistas – mesmo os mais prestigiados e
competentes – voltou a dizer que os lesados do BES, em quem o próprio pensa
todos os dias, coitado, são culpa do Banco de Portugal, de Pedro Passos Coelho
e da maldita resolução, e não dos seus actos de gestão.
Entretanto,
o Novo Banco – o tal que era bom – voltou a meter a mão no Fundo de Resolução para arrecadar mais 1,149 mil milhões
euros, coisa pouca, para fazer face à toxicidade
daqueles activos que tombam sempre para o mesmo lado, o do Estado, ou seja, o
do aparentemente amplo e cheio (para alguns) bolso do contribuinte
(eventualmente, de outros bancos que se portaram bem, se é que ainda sobra
algum).
Há
alturas em que se torna difícil expressar indignação com a mesma eloquência com
que somos insultados. Isto, se quisermos manter o nível dois ou três patamares
acima do gozo rasteiro e ordinário e, ao mesmo tempo, não deixar que nos tomem
por parvos. É que, mesmo entre os brandos costumes, deveria haver limites para
o desaforo.
As
comissões parlamentares de inquérito têm servido, em grande parte, para deixar
a nu a descomunal lata de alguns dos seus principais protagonistas.
Nesse sentido, António Mexia não desiludiu. Falou de “demagogia” e
“manipulação” para rejeitar as críticas aos chamados CMEC – custos para a
Manutenção do Equilíbrio Contratual – e as suspeitas que recaem sobre a forma
como esses contratos foram negociados. Para o gestor da EDP, tais contratos não
vieram favorecer a sua, literalmente, empresa. Pelo contrário, até terá perdido
dinheiro na passagem dos CAE (contratos de aquisição de energia) para os CMEC.
Se não fossem os CMEC, as compensações que Estado deve (como não) à empresa
teriam ascendido a muitos mais milhões de euros. O magnífico e competentíssimo
gestor de um gigante monopólio (não sei se a ENDESA chega bem a ser
concorrência) dedicado à distribuição e venda de um bem essencial para o
funcionamento regular de uma sociedade mais ou menos civilizada, está, até,
disponível para “para desfazer-se das barragens, se forem devolvidos os 2115
milhões de euros pagos, bem como para "fazer as contas" e reverter os
CMEC”. E, para provar que a EDP até perdeu 200 milhões de euros com a tal troca
dos CAE para os CMEC, António Mexia levava um estudo completamente independente
e idóneo, encomendado à Nova School of Business and Economics, essa cujo campus
foi patrocinado
pela…EDP.
Ricardo
Salgado, que consegue dormir apesar de não totalmente
descansado, é outro mártir incompreendido da pátria.
Não lhe cabe nenhuma culpa, nem no colapso do seu banco, nem na delapidação das
poupanças de muitas vidas (alguns terão procurado lucros demasiado fáceis, é
verdade). Era só mais uma injecçãozita de capital e resolvia-se o problema,
mas, o que havia era uma enorme vontade de acabar com o Banco Espírito Santo,
toda a gente sabe que somos um país de invejosos. Ou isso, ou o Diabo, mais as
suas coincidências.
E,
a provar como é fantástico fazer negócios com o Estado português – não para
todos, é verdade – lá chegamos, então, à nova factura desse Novo Banco. Em princípio, não será a última, já nos
descansaram quanto a isso. Afinal, ainda restam,
parece, dois mil milhões lá no fundo desse Fundo de Resolução, que dificilmente
resistirão até 2025, como se (calhar ninguém, seriamente) previa. Pelo sim,
pelo não, o Governo, diligente, pediu uma auditoria. Deve ser parecida com a da
Caixa Geral de Depósitos, mais grande devedor, menos grande devedor. Que nunca
devem nada, aliás: investem dinheiro que não é seu, se correr bem, ficam com os
lucros, se correr mal, o Estado paga. Quem disse que para ser empresário é
necessário correr riscos?
Manuel Pinho
inaugurou a tendência e continuam todos a fazer-nos corninhos. Seja na forma de
comissões de inquérito, entrevistas ou auditorias...
Ouvir
falar Nicolás Maduro causa-me o mesmo asco que escutar Donald Trump ou Jair
Bolsonaro. Talvez não sejam os três iguais, mas parecem, embora, neste caso,
pareçam não estar exactamente do mesmo lado. Mas, isso, é outra história. E,
claro que há mais do mesmo género, mas, ouvir e entender alguém na sua própria
língua tem outro impacto.
O
impasse na Venezuela começa a ser surreal e algo vergonhoso. Mais de quarenta,
creio, países reconhecem Juan Guaidó como presidente da Venezuela, e depois? Os
militares continuam fiéis a Nicolás Maduro, que não tem qualquer pudor em
mandar as tropas atirarem sobre os manifestantes, sobre o povo venezuelano.
Parece
ser já evidente que houve uma espécie de erro estratégico, ou, pelo menos, de
intenção, por melhor que fosse. Se alguém pensou – que é como quem diz, essa
tal comunidade que dá pelo nome de internacional – que bastava manifestar apoio
público a Guaidó para que uma massa significativa de militares atirasse ao chão
as armas e se curvasse à bondade e vontade do presidente interino, já se
percebeu que o plano falhou estrondosamente. A próxima pergunta é: e agora?
Nicolás
Maduro ainda domina. E goza. Chama palhaço a Guaidó, o presidente da oposição
da Wikipédia, bromea, infame, e instiga o seu adversário a marcar as
eleições que ele próprio rejeita, obviamente. Entre insultos e discursos, ainda
tem tempo e ânimo para dançar salsa com a primeira-dama. Dava vontade de
rir, não fosse o caso de a situação ser, como é, demasiado – insuportavelmente
– trágica.
Entre
indignações selectivas e relaxadas sobre a inadmissível ingerência de
países estranhos sobre a soberania de cada Estado, vamos assistindo à miséria
das condições de vida(?) do povo venezuelano, que implora por ajuda que chega,
mas não chega. Que tipo de chefe de Estado deixa que o seu povo morra de fome e
de abandono, por puro e mesquinho despeito? É mais que evidente que Maduro está
menos preocupado com o possível golpe de Estado de que acusa os países
apostados em fazer entrar as caravanas de ajuda humanitária na Venezuela, do
que em perder o poder que usurpou numas eleições que ficaram marcadas por denúncias
de fraude, boicote à oposição e uma elevada abstenção. Não teme nada, nem
lhe treme o pulso, fanfarrão, a não ser, claro, que venha a ser obrigado a
sujeitar-se a sério escrutínio por parte dos seus pares.
Enquanto
os militares se mantiverem fiéis a Nicolás Maduro, não parece haver solução à
vista, a não ser que se intente a intervenção militar externa que ninguém
deseja. Resta saber até quando resistirá Juan Guaidó e o seu povo faminto e
esgotado.
Parece
que há cada vez mais gente a acreditar que a Terra é plana. Dizem que a
culpa é de um vídeo que anda a circular no YouTube. Agonia-me, mas não me
estranha. Decidir “não acreditar” na ciência virou uma espécie de moda
requintada.
As
vacinas provocam autismo. Não interessa nada que esteja mais que provado que o
suposto "estudo" que suportava tão erudita ideia não passou de uma fraude
encomendada, bem paga e que o seu mentor tenha sido impedido de continuar a
exercer medicina.
A
água tem memória. E, nessa suposta memória, cabem as curas
milagrosas que os promotores das águas açucaradas homeopáticas vendem aos mais
frágeis, comprometendo, tantas vezes irremediavelmente, a saúde dos
doentes. Não sei é considerado crime, mas devia.
O
Homem nunca pôs os pés na Lua. Nos la colaran, que é como quem
diz, enfiaram-nos o barrete, já dizia o
Casillas, que é famoso, logo, percebe imenso de tudo o que importa perceber. A
fama, aliás, tornou-se requisito necessário e mais que suficiente para atestar
a fiabilidade de uma qualquer teoria da conspiração. É tudo uma enorme
patranha. Qual Lua. É só olhar para a bandeira, esticadinha, e, isso toda a
gente sabe – até os pindéricos dos cientistas – na Lua não há ar. E, claro, o
aquecimento global, simplesmente, não existe. Já viram o frio que se tem feito
sentir? Principalmente, na América? Se tiverem dúvidas, perguntem a Donald
Trump, não se esqueçam que o homem até tem, ou tinha, um tio que era cientista,
com bons genes, fantástico e que percebia imenso de ciência.
Alguns
cientistas parecem defender que se deve promover mais a ciência. No caso da
suposta planura da Terra, por exemplo, publicar mais vídeos e outros
recursos que provam que a Terra é uma esfera, mais ou menos, pois ligeiramente
achatada nos pólos, sendo o raio equatorial um pouco superior. É tão absurdo e
improvável que a confusão venha daí - não faço a menor ideia - como de outra
coisa qualquer, mas é absolutamente indiferente para quem quer achar o que quer
que lhe apeteça.
Pergunto-me
se valerá a pena o esforço. De promover a ciência junto destas sumidades. Esta
gente, que desdenha das evidências científicas, está-se nas tintas para o
conhecimento. Se quiserem acreditar que, afinal, é o Sol que gira à volta da
Terra, fá-lo-ão sem quaisquer hesitações ou pruridos. É só levantar o nariz,
não se está mesmo a ver o Sol a mexer-se, e não a Terra? Qual “e no entanto
ela move-se”, que tamanha idiotice. Vamos, mas é, refazer os manuais de
ciências. E de história, já agora. Resolve-se tudo de uma penada.
Uma
coisa, no entanto, podíamos fazer. Não dar palco a estas imbecilidades e, muito
menos, espaço partilhado para discutir, em pé de igualdade, ciência e
crendice (às vezes, fraude intencional) como se fosse possível comparar o que
não é comparável. Já faltou mais para voltarmos às teorias criacionistas, nos bancos
da escola...