sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Como é que se diz "corninhos", em alemão?

Manuel Alegre só em parte tem razão. Há touradas que criam Bolsonaros, mas não são as que correm dentro das praças, entre o manejo de bandarilhas e trajes de seda e veludo, embora também não lhes falta a arte.

Andam a fazer-nos corninhos há muito tempo e a prática não foi iniciada por Manuel Pinho, embora este a tenha magnificamente ilustrado.

Já fomos toureados pelos mais ilustres da nação, pelos Donos Disto Tudo e mais alguns, dentro e fora de comissões de inquérito – ora sem, ora com a complacência dos inquiridores – com armas e sem armas, em entrevistas viciadas e bajuladas, em pregões vazios de apuramentos de verdades várias e, desde ontem, passaram, inclusive, a tourear-nos em alemão e sem necessidade de vistos gold.

Ah, que país fantástico! Consigo perceber melhor o louco entusiasmo de Paddy Cosgrove quando decidiu assentar por cá arraiais tecnológicos de ponta.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

"Ich weiss nicht was sie sagen"

Parece que foi o que respondeu Rui Rio a jornalistas portugueses, hoje mesmo, à porta do centro de congressos Messukeskus, em Helsínquia. Significa - diz quem sabe, que eu não percebo nada de alemão - "não sei do que estão a falar" e vinha, ainda, a propósito das presenças fantasma do secretário-geral do PSD, José Silvano. Enfim, questiúnculas da língua. Não sei como é que os alemães dizem iogurte, mas sei que o prazo de validade de Rui Rio caminha a passos largos para a expiração. Tenho pena, porque, faltam pessoas sérias e competentes na política e, francamente, não sei o que aconteceu a Rui Rio na versão presidente da Câmara do Porto.

Donald Trump destratou, para não variar, um jornalista da CNN. Só visto, literalmente. Apesar do aparente esforço para não perder a calma, a irritação e a agressividade são palpáveis e, um destes dias, o homem passa das palavras aos actos (não por mãos próprias, mas, nunca fiando). O mais curioso (ou não; vivem-se tempos estranhos...) é que, grande parte dos comentários em português que li não são de repúdio pela atitude do presidente americano. Pelo contrário. Trump é que "os tem no sítio", Trump é que foi "atacado pelo jornalista", "Jim Acosta não é um jornalista, é um lacaio" apostado em denegrir a imagem de Trump (como se aquela pérola precisasse de ajuda nisso...), "com ele (ele-Trump, pois claro) não brincam", e outras variantes de apoio ao super-homem. Ainda me lembro dos meus tempos de infância, em que os super-heróis eram, pelo menos, uns belos pedaços; seriam, igualmente, uma tremenda fraude, mas, podíamos contemplá-los sem asco.

Alguns jornalistas podem ser muito inconvenientes e/ou muitos incompetentes, mas não deixa de ser absolutamente espantoso ver o presidente norte-americano insultar e mandar um jornalista calar e sentar no mesmo tom em que se adverte um carrocho para lhe mostrar quem manda.

Entretanto, em mais um dia normal na América, desta vez, num restaurante da Califórnia, um novo tiroteio fez mais 30 novas vítimas. É só mais uma banal inevitabilidade. Mato porque sou branco ou porque sou preto, mato porque sou pró-judeu ou anti-judeu, mato só porque sim, porque todos temos direito ao nosso dia de raiva. Entre mortos e feridos, quem e quantos iremos escapar?

E, se podemos mudar de sexo ou de género, por que não mudar de idade? É isso mesmo que defende um holandês de 69 anos, que quer passar a ter, no máximo, 49. Parece que, com a idade actual, não tem muito sucesso no Tinder e, além disso, os médicos dizem que tem corpo aí para uns 45. Acho que sim...

 "Wir sehen uns morgen", que é como quem diz (se o Google não me falha), vou ali e já venho, ou, se calhar, até a amanhã.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Questiúnculas Pequenas e Apartidárias

O secretário-geral do PSD, o senhor José Silvano, compareceu, não comparecendo, ao total das 13 reuniões plenárias realizadas no mês de Outubro. Parece que cada reunião rende um subsídio de deslocação de quase 70 euros e, claro, não estamos em época de desperdício. De modo que, algumas das presenças-mas-ausências de Silvano foram validadas, electronicamente, sem que o próprio saiba exactamente como. A sua password secretapessoal intransmissível continua pessoal, mas é capaz de ser pouco secreta e, menos ainda, intransmissível e é capaz de alguém – que não o próprio, entenda-se – ter validado. Uma presença sem presença. Como dizia o outro, coincidências ou não, ele há coisas do Diabo…

Para Rui Rio, o do banho de ética, trata-se de uma desagradável, mas “pequena questiúncula”. Para os restantes partidos e restantes deputados, ainda não sabemos bem. Aguarda-se. É tempo de ponderações e reflexões, com muitas hesitações, porque, já se sabe, também há os que não vivem em Lisboa e os que são açorianos a tempo inteiro ou parcial, tudo consoante o montante das ajudas de custo.

Pintar as unhas no Parlamento é capaz de não ser prática muito comum; quanto ao resto, espera-se a chegada do impoluto que há-de vir atirar a primeira pedra…

domingo, 4 de novembro de 2018

Vou continuar a indignar-me, posso?

Se me é permitido, vou continuar a indignar-me. Violentamente e todos os dias, se for preciso. Recuso associar-me à normalização do mal e à banalização do absurdo. Um fascista é um fascista, é um fascista. Quem partilha dos valores do fascismo, não se esconda em subterfúgios. Quem não quer viver a democracia em pleno, não pretenda instigar a sua intermitência, descontinuando-a quando convém. Porque, talvez, nunca convenha a todos concomitantemente.

Os EUA estão em campanha. Na próxima terça-feira há eleições intercalares. Ao seu estilo, Donald Trump continua a agitar as massas mentindo, mentindo e mentindo e alternando discursos consoante os ventos, naquela linguagem básica e paternalista que continua a colher: vem aí uma caravana cheia de malfeitores, criminosos em série, apostados em tomar a América de assalto. Se nos atirarem pedras, lembremo-nos que os nossos soldados têm espingardas, portanto, que considerem usá-las. Não nos esqueçamos que à frente da caravana vêm homens fortes e maus, muito maus. Não interessa que tragam milhares de quilómetros nos pés e venham esmagados pelo cansaço, porque trazem um ror de más intenções na alma. Querem os nossos empregos, na melhor das hipóteses. Na pior, vêm violar as nossas mulheres e matar os nossos filhos. Matar só está permitido aos bons. E, não nos esqueçamos, “grab them by the pussy” também não está al alcance de qualquer um; só dos que têm dinheiro e poder. Pior do que um criminoso rico, só um criminoso pobre, fedorento e estrangeiro.

Como habitualmente, Donald Trump já veio desmentir-se a si próprio. Afinal, não vamos disparar sobre os migrantes. Vamos só prendê-los pelo tempo que for preciso. A mentira, num democrata, é inadmissível. Num populista, num nacionalista ou num fascista é um meio válido para atingir um fim. A corrupção, num democrata, é vício nojento que urge exterminar, qualquer que seja o meio. Num populista, é expedito; é competência e desembaraço.

As migrações em massa e descontroladas são um problema sério, efectivamente. Nenhum país tem capacidade de acolher todos, socorrer todos, atender a todos. Mas, acredito que os mecanismos para fazer face a este e outros problemas devem ser encontrados dentro das normas democráticas. Há quem ache que não. Há quem acredite que, o que importa, é ter a economia a crescer e viver sem incómodos e sem sobressaltos. Se, para isso, for necessário suspender ou, mesmo, eliminar a democracia, seja. Tudo em nome da segurança. Ou será só em nome do conforto pessoal? E, é mau, querermos paz para os justos e justiça para os criminosos? É mau ansiar por bons empregos, bons ordenados e uma vida confortável e próspera, principalmente, quando pagamos os nossos impostos? Claro que não! Como é evidente, essa não é a questão. Mas, o mundo não é perfeito e não é o nosso quintal. A não ser que passemos todos a defensores da justiça por mãos próprias e pela supressão, quem sabe, pelas armas, de todos os que perturbam o nosso sossego como mosquitos, viver em sociedade dá trabalho e, muitas, muitas vezes, traz chatices.

Voltemos ao Brasil e a Bolsonaro (sim, também há Maduro e outros que tais; infelizmente, o mundo está cheio de gente que só olha para o seu umbigo e que só quer o poder a qualquer preço, subjugando tudo e todos à sua tirania). Fiquemos só pelos bens intencionados; pelos que acreditam que ele não é tão mau como parece e que Sérgio Moro – o mesmo que jurava a pés juntos que jamais entraria para a política – está apenas interessado em ajudar o Brasil a preservar a democracia. O que vai acontecer quando, cada brasileiro de bem se sentir legitimado para matar um ladrão, um violador, um assassino? O que vai acontecer quando um polícia brasileiro se sentir impune, democraticamente, para matar um (mesmo não alegadamente) criminoso? Quanto tempo precisaremos de esperar para assistir à instituição da vingança em vez da aplicação da justiça? E, quanto tempo até passarmos, cada um de nós, a ser o alvo?


quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Normalizados que parecem estar todos os comportamentos que a civilidade nos habituou a considerar abjectos, haveremos de passar à actualização das gramáticas, com a mesma agilidade moderna e elevada com que já nos mandaram reescrever a História.

Os novos homens fortes da política, os machos alfa salvadores da pátria, os que falam, curto e grosso, a língua do povo, são, actualmente, os únicos detentores da verdade. Se eles afirmam, é exacto. Se proclamam, é lei. Se exaltam, é culto. Todos os outros mentem. Costumava dizer-se que contra factos não há argumentos, mas, até os factos se tornaram alternativos ou descartáveis. Bolsonaro não tem nada de eticamente reprovável, como as demissões irrevogáveis não têm nada de irremediável. Haja vontade e gente para acreditar. Tal como uma mentira repetida muitas vezes arrisca converter-se em verdade absoluta, inquestionável, qualquer verdade renegada pela voz dos escolhidos esfumar-se-á das memórias dos cordeiros imberbes e adormecidos.

Propaga-se a verdade e a liberdade – da de expressão à da imprensa – para, logo a seguir, ameaçar e amordaçar quem se atreve a duvidar e a discordar. Faz-se companha sobre os mortos – sumariamente eliminados pelo ódio – sem remorso e sem pudor, porque o espectáculo must go on e alterações de planos são uma maçada desnecessária porque incoerente.

povo anseia por sangue e força bruta. Cansou-se de esperar pela justiça, quer tomá-la nas mãos, domá-la e aplicá-la. Implacavelmente, sem hesitações e sem culpa. Apoiada na inocência, asseguram-nos, da retórica primária, inflamada e apaixonada, a turba caminha segura e decidida, mas, pouco formosa, pois não há réstia de graça na barbárie.

Na cegueira da razão e da verdade de cada um, acabaremos miseravelmente sós, empunhando armas contra os fantasmas que criámos com a ajuda de heróis cobardes, sem capa e sem escrúpulos, mas orgulhosamente prenhos de ódios e escárnios. Infelizmente, não estão sós.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Web Summit, Olé, Olé!

Marcelo Rebelo de Sousa dormiu pouco, como sempre, e teve uma espécie de epifania: e se eu me recandidatar à presidência da República como efeito colateral daquela doideira do Paddy de manter a Web Summit por cá mais uma década? Ou, se calhar, não…mas, talvez.

Entretanto, a determinada, quase agressiva, defensora acérrima de minorias e super-feminista deputada Isabel Moreira resolveu ocupar o seu tempo no Parlamento pintando as unhas, actividade muito mais estimulante do que ouvir atentamente o que havia para dizer sobre a discussão do orçamento de Estado. Parece que a menina foi apanhada por um fotógrafo da Reuters, para minha vergonha. A da Isabel, não sei por onde andará.

Também se descobriu que o Bruno insultou e praguejou mais do já sabíamos e, palpita-me, isso vai dar para mais algumas longas e duradouras sessões de debates televisivos. A não ser que o tema seja substituído por aquela conversa telefónica em que, suposta e alegadamente, sempre!, o Filipe aceita transferir o Rui para outro clube, por intermédio do César. Qualquer um dos assuntos é de suma importância para a sobrevivência do país, pelo que, não sei em qual aposte.

Na Alemanha, Angela Merkel despediu-se. A CDU vai somando derrotas enquanto a Alternativa para a Alemanha vai crescendo e engordando. A Alemanha aguentar-se-á. E a Europa?

No Brasil do Messias Bolsonaro uma menina posa para a fotografia empunhando, artisticamente, uma arma maior do que ela. De momento, a arma é fake. Será a intenção genuína? Infelizmente, estaremos cá para ver. Nos meus pesadelos, o entusiamo histérico dos bolsominions resvala para a demência extrema e a continência ao capitão estica-se, aos poucos e de mansinho, para a saudação nazi; em vez de um monstruoso heil hitler, um animado e carioca “aí, Bolsonaro!”

Hoje, haveria muito mais, mas não me apetece. Faço como a Isabel. Vou ali restaurar-me; tem é que ser fora do expediente, que isto, como diz o ditado, cada um tem aquilo que merece…


sexta-feira, 26 de outubro de 2018

A Inevitabilidade do Ódio?

Em tronco nu, numa (outra) manhã qualquer, Amon Leopold Göth assoma à varanda da sua casa, com vista privilegiada para o campo de concentração nazi de Plaszow. Agarra na espingarda, observa a azáfama dos condenados, ajusta a mira da arma e escolhe a primeira vítima. Pousa o cigarro e aponta certeiro à mulher agachada no chão. Assim que ela se ergue, dispara a matar. Recolhe, indolente, o cigarro pousado no muro e, entre duas passas, escolhe uma segunda vítima. Aleatoriamente, sem qualquer critério especial. Apenas porque pode e porque isso lhe dá gozo.

A violenta cena que retrata a barbárie sangrenta e insana da época nazi é imortalizada por Ralph Fiennes em A Lista de Schindler, e dispensará mais apresentações. Quem a viu, gravou-a para sempre na memória; cada um pelas suas razões, porque há filmes, ou partes deles, que teimosamente se materializam nos nossos pesadelos e nas nossas consciências quando menos esperamos. Lembrei-me dela pela alienação dos dias que correm. Já não fazem falta varandas com vista nem espingardas em riste. Substituímos as primeiras pelas páginas virtuais e as segundas pelos insultos gratuitos e carregados de ódio. Cada um escolhe o seu palanque, a sua arma, a sua vítima. Os métodos serão diferentes; os ódios serão diferentes; talvez, até os objectivos sejam diferentes. Mas deixam o mesmo rasto de aniquilação, de devastação nojenta na eliminação de adversários, políticos e não só. Só porque sim, só porque se pode. Como uns podem mais do que outros, os ódios destilam-se em diferentes graus, com diferentes requintes de malvadez e de eficácia e atingem mais ou menos alvos, de acordo com a circunstância de cada um. Das caixas de comentários aos assassínios por encomenda, da propagação de mentiras à distribuição de bombas como quem distribui rebuçados, dos comícios políticos convertidos em arenas de imberbes sedentos de vinganças, urgentes de sangue, como nos tempos dos enforcamentos sumários nas praças públicas, à apologia dos regimes ditatoriais e fascistas como solução para todos os males.

    Cada vez é mais difícil manter uma discussão séria sobre os diferentes problemas que se abatem sobre as sociedades democráticas. As pessoas não ouvem. Confundem, como diz o povo, alhos com bugalhos. Um homem insulta pública e violentamente uma mulher negra, chama-lhe feia, vaca, preta, bastarda e ouvimos dizer, e “se fosse ao contrário, também era notícia”“porque é que não deixam o homem defender-se, primeiro”? Mas, são surdos? Os americanos tinham um nome para este tipo de gente, mas não me lembro agora. Os que, numa discussão, recorrem sistematicamente à evocação de argumentos que, só na aparência, se relacionam. Uma espécie de desconversadores selectivos cujo objectivo nunca é discutir com seriedade nem, muito menos, encontrar soluções, mas baralhar, partir e dar, como num jogo de pocker.

    Nos dias de hoje, voltamos a desdenhar dos pobres, a rir dos aleijados, a humilhar os ofendidos e a insultar os inimigos. A turba pede sangue como quem pede água sob o sol abrasador do deserto. Sucumbimos ao medo, e o ódio, afoito e arguto, tomou-nos nos braços.

    Nos EUA, Donald Trump condena, para as câmaras, a mesma violência que exacerba, horas depois, no Twitter. Apela a uma América unida e tudo faz para rasgar as feridas. Hostiliza a imprensa livre porque são fakes todas as notícias que não se dediquem à promoção acérrima e acrítica da sua fantástica presidência. A melhor de todos os tempos. Apela ao respeito que não tem pelos adversários, nomeadamente, políticos. O mesmo homem que exaltou o Lock her up! de Hillary Clinton e afirmou que Obama – que nem americano era! – fundou o estado islâmico, chama, hipocritamente, à união os americanos para repudiar actos de ameaças e violência política. Já sabemos da sua coerência discursiva e não só; depende da ocasião e do interlocutor.

    No Brasil, parece que Bolsonaro tem vindo a perder pontos para Haddad, nos últimos dias. O Messias (haja ironia!) já veio dizer que só perde se houver uma fraude eleitoral, como já antes tinha dito que só aceitaria os resultados das eleições se ganhasse. Gritar ameaças, espalhar a confusão, semear a discórdia e instigar à agitação social. Sempre de forma cobarde, sem sair do conforto do sofá, porque, como se sabe, o homem convalesce de uma facada, que deve agradecer todos os dias, pela facilidade divina com que conseguiu escapar de qualquer debate político sério, mostrando tudo o que não tem para apresentar aos brasileiros.

    É o mesmo princípio. Se me convém, está tudo bem. Se não, é uma fraude. A Folha de São Paulo sucks too. Como fede tudo o que se meter no caminho destes tresloucados salvadores da pátria. Se for possível tirar alguma coisa boa desta indecente demência que atormenta os nossos dias, que seja não deixarmos Portugal refém do medo nem cair nas garras do ódio.

 

P.S. Já depois de ter publicado este post, li isto.


terça-feira, 23 de outubro de 2018

Diz Que São Polícias

Por vezes, demasiadas, a sensação de impotência e injustiça tolda-nos a razão. Acontece, mesmo aos mais ponderados. Nos tempos actuais, dominados por mentiras habilidosas e argutas que os intelectuais modernos gostam de chamar notícias falsas e os mais cosmopolitas, fake (mas, ainda assim) news, em que as democracias parecem definhar sob o peso de todas as frustrações civilizacionais e em que todos os ódios e preconceitos saltam, a diário, dos armários como peças de roupa vintage desempoeiradas e revitalizadas pelas novas tendências, nestes tempos, dizia, é difícil manter alguma clareza de ideias e algumas noções básicas de urbanidade. Mesmo assim, ainda esperamos – pelo menos, alguns de nós – que quem tem responsabilidades acrescidas no funcionamento (cada vez menos) democrático das sociedades tidas como tal seja capaz de alguma seriedade.

Não sei bem se se tratou de uma nuvem passageira, de devaneio, no caso, ou se, pelo contrário, a leviandade veio para se instalar, de armas e bagagens, varrendo qualquer réstia de discernimento e sem poupar nenhuma área. O caso é que, indignados com a indignação do ministro da Administração Interna face à publicação e exposição gratuita de imagens de criminosos capturados e algemados e a aparente falta dela pelo estado das vítimas, alguns, pasme-se!, agentes da polícia, resolveram, também eles, publicar fotografias de idosos agredidos. No que veio a saber-se ser uma fotomontagem (cada vez melhor...), um dos sindicatos que representam agentes de autoridade, hostilizavam, de forma desonesta, irónica e vergonhosa, vozes críticas à primeira publicação. Como se não bastasse, A Associação Sócio-Profissional Independente da Guarda, veio aumentar o ruído afirmando, sem qualquer prurido, que os “criminosos não são merecedores do mesmo respeito, por parte do Estado e da comunidade, atribuídos ao cidadão comum" e que num Estado de direito democrático parece que não deve haver gritarias na promoção da defesa dos direitos humanos sem se estar na posse da realidade dos factos.

Fiquei um pouco confusa. Mas, no essencial, percebi duas coisas e ambas não auguram nada de bom. Primeiro: há agentes da lei que estão a borrifar-se para o cumprimento da dita, a mesma que juraram servir, seguramente, com honra. Segundo: aqui está um belo exemplo de decadência democrática, em que uma espécie de verdade relativa – afinal, quem é que não respeita mais uma vítima do que um criminoso? Ah, espera…–  pode ser manipulada para exacerbar os ânimos e extremar opiniões diferentes.

A democracia tem defeitos. Um deles é admitir que, sim, os criminosos também têm direito à dignidade e aos direitos humanos. Às vezes, os que ainda acreditamos nos tais Estados Democráticos, sentimos impotência, frustração e raiva e para isso é que a democracia serve. Para não sucumbirmos à cegueira brutal e crua que Saramago, um dia, tão bem retratou.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

O vídeo que mostra um energúmeno (não se pode chamar homem àquilo!) a insultar violentamente uma mulher negra, idosa e com algumas dificuldades motoras, num voo da Ryanair, é absolutamente ultrajante para qualquer pessoa com o mínimo de decência, independentemente da cor, nacionalidade e todos os outros etcetaras. É de indignar à náusea.

Incomodado – que deve ser o estado natural daquela criatura, que só deve preocupar-se com o seu branco e bonito, imagino, umbigo – vai vomitando impropérios até chegar ao inqualificável ugly black bastard. Entretanto, já tinha apelidado a mulher de vaca, feia, repetidamente, e outros tantos abusos. Perante a relativa, senão indiferença, passividade da maioria dos restantes passageiros e tripulação.

A filha, creio, da mulher reclama e manda-o calar-se, sem sucesso, enquanto alguns passageiros vão saindo de cena (diz-se de fininho), porque, se ficar a ouvir públicos discursos de ódio, em pleno século XXI!, não é para todos, defender alguém dos insultos mais primários e reles, aparentemente, também não. Por azar, naquele voo, naquele dia, não devia haver ninguém da brigada dos ofendidos instantâneos das redes sociais – e, sim, sinto-me à vontade para criticar, ferozmente, porque já me meti onde não(?) era chamada por muito, mas muito menos: não é coragem, é fracos fígados para certas obscenidades intoleráveis. Excepção e honra feitas à pessoa que filma (neste caso, talvez se justifique, de facto) e a um outro rapaz que está na fila imediatamente atrás e que há-de acabar por intervir.

Já o monstro espuma de raiva e de ódio por todos os poros do muito grande e muito branco corpo quando, finalmente, o tal jovem lhe diz que já chega, que baixe o tom de voz, que não há necessidade disso. A senhora, entretanto, diz-lhe que ele cheira mal. A besta responde que tomou um banho de manhã. Não se apercebe que tresanda, também, da alma pobre e apodrecida, não, eventualmente, só do corpo. Mais alguém – parece ser o homem que filma – se compadece da mulher e diz ao comissário de bordo para o expulsarem a ele, à boçal avantesma.

Estou furiosa, tenho as unhas cravadas nas palmas das mãos, apetece-me gritar para o écran, incrédula pela facilidade da agressão, pela vulgaridade, pela falta de pudor, pelo deboche, não me fale numa língua estrangeira, se eu digo para ela sair, ela sai, e qualquer coisa dentro de mim instiga-me a dizer à mulher (como se ela me ouvisse e não se tivessem já passado dois dias) manda-o à merda, paga-lhe na mesma moeda e chama-lhe porco, gordo e seboso, que é exactamente o que ele parece. Recomponho-me e penso, não, não é civilizado combater o insulto com o insulto. Raios partam a educação, mas é o que nos distingue dos ineptos. Chamo o meu filho e mostro-lhe o vídeo. A educação também é isto. Conversamos sobre o que se deve e não deve fazer em situações como aquela; sobre o respeito pelo outro; e, sim, mesmo que o outro seja um imbecil fanático e acéfalo. Mas não deixo de lhe recordar que “para que o mal triunfe, basta que os homens bons não façam nada”. E penso que, talvez, nunca como agora tenha sido tão urgente apelar, já não apenas à voz, mas ao mais enérgico clamor de repúdio de todos os homens bons. 

sábado, 20 de outubro de 2018

A luta de Khashoggi, as mentiras de Riade, a prostituição dos estados e o início das novas trevas.

Eu sei. Temos muito mais com que nos preocuparmos. O Orçamento de Estado foi aprovado por ministros que não sabiam estar de saída, Tancos ainda vai no adro (no limite, se calhar, até o primeiro-ministro e o presidente da república tinham conhecimento da marosca), as incompatibilidades de Siza Vieira são(?) fantasias de gente miúda, os esquemas de Pedrogão Grande deviam dar nojo a qualquer pessoa com o mínimo de vergonha e, escabroso, por escabroso, já temos o caso Sócrates em todas as suas variantes. Isto só para nos ficarmos por alguns exemplos da nossa própria miséria. Por que razão nos deveríamos preocupar com outras coisas menores e distantes, como a morte de um jornalista saudita?  Aliás, não anda, a Arábia Saudita, a exterminar, impunemente, civis no Iémen? Quem é que se preocupa com isso?  

Mas, a Arábia Saudita admitiu, finalmente, que Jamal Khashoggi, morreu. Como? Depois de ter entrado no consulado do seu país, em Istambul, desentendeu-se com os oficiais sauditas de serviço, a discussão azedou, seguiu-se uma escalada de violência que culminou numa luta entre as partes envolvidas. Desse confronto físico resultou a morte do jornalista. É espantoso como algo tão simples de explicar e de entender demorou mais de duas semanas a comunicar pelo regime de Riade. Se calhar, entregar o corpo do jornalista ajudava a corroborar a tese, mas, talvez seja rude sugeri-lo.

Donald Trump aceitou como credíveis as explicações sobre as circunstâncias da morte de Khashoggi, embora, o que que aconteceu seja, claro, inaceitável. Que alívio! O que seria, ter de punir severamente um aliado estratégico desta categoria! Se o jornalista morreu numa luta que, desafortunadamente, correu muito mal para o próprio, os milhares de milhões de dólares que EUA lucram com os negócios da coroa saudita estão a salvo. Trump é um empresário de mão-cheia.

Nem sei por que motivo Donald Trump mantém os serviços de inteligência americanos. Afinal, quando lidamos com homens e mulheres de palavra não são necessárias outras formas de averiguação da verdade dos factos. Houve interferência russa nas últimas eleições americanas? Pergunta-se ao Putin. Ele diz que não houve, não houve. Brett Kavanaugh tem um passado de abuso sobre mulheres? Questiona-se o próprio. O homem diz que não, chorou e tudo, por isso, não; a Ford, no mínimo, está confusa, no máximo, é uma tresloucada mentirosa. O príncipe Mohammed bin Salman mandou torturar e eliminar um jornalista incómodo e desbocado? Pergunta-se a Riade. Eles dizem que não, o homem morreu num confronto violento com outros conterrâneos. Óptimo, era o que imaginávamos. Vamos ter de os punir na mesma, mas poucochinho; e sem prejuízos financeiros. Que mania, que toda a gente é culpada até prova em contrário! Se, afinal, nem sequer são precisas provas, basta a palavra dos presumíveis prevaricadores.

Donald Trump vende-se, como uma prostituta de luxo, às mentiras de Riade para poder usufruir, pelo menos, dos negócios chorudos. Vejamos se o que resta da América vai consentir continuar a prostitui-se também. As expectativas não são animadoras. Há muito que a hipocrisia e os interesses económicos dominam as relações entre os estados ditadores e os seus benevolente aliados. Se a Arábia Saudita e a sua coroa se saírem bem com mais este assassinato está aberta a porta para um período da nossa História que se avizinha bastante negro. Outra vez.