Para já, ainda não há. São apenas um
processo de intenções que não colhe grande simpatia entre alguns dos
Estados-Membros. Os frugais não querem sustentar os vícios dos, outrora,
pigs e, depois, há alguns que se esforçam (ou fingem, toda a gente sabe como,
às vezes, é preciso) por encontrar pontes de entendimento e, no caso em apreço,
recuperar alguma da nobreza desse projecto europeu de que beneficiam até (às
vezes, principalmente) os que o desprezam com esmerado nojo.
Tropecei nisto por acaso. Nem sou grande
fã, mas foi um acaso feliz no meio de um imenso caos que parece disseminar-se com
um erre-tanto-faz maior do que o do próprio vírus que nos tem a vida, ou em
suspenso, ou em modo asséptico-virtual e, francamente, não consigo encontrar-me
em nenhuma das formas.
Agradeço aos que ainda conseguem ensaiar alguma
normalidade, velha, nova, híbrida, é-me indiferente, desde que resista ao escalar
do ódio que cai como um manto espesso e viscoso e parece agradar cada vez mais.
“Primeiro a Bíblia, depois a Constituição. Dos quatro livros que Bolsonaro tinha em cima da sua mesa, no seu primeiro discurso de vitória, a partir de sua casa e através das redes sociais, a Bíblia mereceu o primeiro lugar. “O Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, haveria de repetir e reforçar.
Bolsonaro presidente falou de respeito pela Constituição brasileira, pela democracia e pela liberdade. Bolsonaro candidato tinha falado, com saudade, da ditadura militar, das virtudes da tortura e da obediência que as minorias devem às maiorias, entre outras coisas. Entre os que apoiaram o capitão e que rejubilam, agora, com a eleição do mito, há, creio, dois tipos de gente: os que querem, realmente, sangue, e anseiam pela exterminação implacável de todos os vícios e os que, a coberto de um enorme desespero e impotência, viram no Messias o único caminho para reverter a situação dramática em que o Brasil mergulhou. Para estes, do que Bolsonaro diz, nem tudo se escreve e, por isso, desvalorizam o discurso mais extremo de hostilização dos negros, dos homossexuais, dos pobres e das mulheres.
Bolsonaro saiu à rua, mais ou menos, para agradecer a Deus e aos brasileiros a sua eleição. Deram-se as mãos e rezaram. Afinal, “essa é uma missão de Deus”. Bolsonaro lê o discurso de vitória. “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. E a exultação da verdade arranca um ámen da boca da recém primeira dama, mesmo ali ao lado, com os olhos postos no marido e no céu. Deus é mesmo brasileiro e voltou a descer à Terra pela mão de Jair Messias Bolsonaro.
O novo presidente do Brasil foi eleito pelos seus pares. Apesar de tudo, não me parece que seja uma vitória baseada, apenas, em notícias falsas. É preciso fazer uma reflexão mais profunda. A confiança das pessoas nas instituições democráticas está profundamente abalada e é impossível continuar a olhar para o lado, chamando de ignorantes, ditadores e fascistas todos os que procuram alternativas radicais.
O Brasil elegeu um mito. E, agora? Agora, esperemos pelo melhor e façamos todos um exame de consciência.” Fui reler o texto que escrevi em Outubro de 2018, depois da vitória de Bolsonaro nas presidenciais brasileiras. Deixo-o ali, como interlúdio para o que se me oferece dizer, depois de ter ouvido a verborreia de estrume, literalmente, com que o capitão encheu os ouvidos dos seus (a bem ou à força) ministros numa espécie de reunião de Estado. E o que se ouviu de alguns dos seu ministros. Uma classe. Em vários sentidos do termo. Fica aqui a gravação, porque também é (in)digno de ser ver.
É que eu estava enganada. São mesmo ignorantes, ditadores e fascistas todos os que procuram alternativas radicais. As dúvidas começaram a dissipar-se depois da absolvição de Donald Trump, esse outro enviado, empalideceram com o “E daí?” do Messias face ao avolumar da tragédia e, esta semana, sucumbiram sem regresso diante do discurso (se lhe podemos chamar assim) histérico de um homem tresloucado, apostado em impor a sua vontade a qualquer custo – a vida que seja, desde que não a sua – e a pilhar o Brasil para satisfazer os seus delírios. Não é a corrupção do PT que preocupa Bolsonaro e o seu séquito. Ou melhor, é. Mas não por causa da corrupção. Se for a sua não há qualquer indecência, pelo contrário. Se puder favorecer um filho, vai fazê-lo, sim, e daí? Se tiver que trocar ministro, vai trocar sim, e daí? Se tiver que interferir, vai interferir sim, e daí? Vai escutar atrás da porta, claro, então, a filha depois engravida e como é que fica? A sério. É surreal.
Já tive algumas discussões com pessoas
de quem gosto e que respeito sobre as intenções do presidente do Brasil. O clássico. Era
impossível continuar a votar em gente corrupta como o PT; o que ele diz não é
para ser levado à letra; ele até quer fazer, mas o Senado não deixa. E, claro,
a descontextualização. Dizer a uma mulher que não merece ser violada por ser
demasiado feia e que o problema da ditadura foi não ter matado mais uns quantos
milhares, são afirmações que carecem de contextualização.
É preciso tentar perceber, e tentei.
Se há (ou havia, até agora) gente séria a defender energúmenos como trumps e
bolsonaros, é necessário escutar os argumentos, atentamente e sem falsos
moralismos. Já se percebeu aonde nos leva tentar o contrário. A questão é que já
não há argumentos credíveis que sustentem a tese ou a boa-vontade de alguns dos seus apoiantes. É claro que não é o combate à
corrupção que move estes homens de Estado, desde que Estado lhe preste
vassalagem. Nem qualquer espécie de luta anti-sistema, excepto se o sistema não lhes (leia-se "os", é mais exacto) servir. O que os move é a ambição mais selvagem,
mais abjecta, porque pretendem o mesmo que todos os ditadores inebriados de
poder: obtê-lo a todo o custo, usando de todos os ardis, mentindo
descaradamente, desdizendo-se sem corar, sem um arrepio de arrependimento,
insultando e escarnecendo de todos os que ousarem contrariá-los. A tenebrosa
diferença é a possibilidade cada vez mais real de chegar o momento em que já
nem precisem de mentir ou fingir. Sim, que se F#dam todos os outros, os pobres,
os doentes, os velhos, os bandidos que não nos venerem, todos excepto os meus,
digo-o, defendo-o e instituo-o com o poder de herdei de deus e dos homens, e
daí? E o "e daí?" parece fazer o seu caminho com uma tranquilidade assombrosa, implacável. Quanto faltará para o "e daí?" já não causar qualquer sobressalto que mereça ser dissimulado, nem sequer na forma tentada?
Mais acima, Donald Trump ameaça abrir as
igrejas à revelia dos governadores, se necessário for. Não é muito claro como o
possa fazer, mas isso não interessa nada, como se sabe. Trump é outra entidade omnisciente,
omnipotente, e também não admite contrariedades, não restam dúvidas. A explicação do
presidente dos EUA para a necessidade de abrir as portas dos templos é simples:
a América precisa de mais orações, não de menos. Sim, Donald Trump é capaz de
ter razão, já dizia o ex-ministro Mandetta, o melhor é rezar. E até ele se deve ter arrepiado ao ouvir o gémeo dos trópicos. Pelo nível reles do vernáculo, quero dizer. Afinal, Trump sempre vai parecendo alguém com, pelo menos, parte da escolaridade obrigatória, como lembrava quase assim Pedro Mexia, num dos Governo Sombra, ainda não(?) se imaginava o que por aí vinha.
Entretanto, fica a questão: "como é que chegámos a isto"? E aonde iremos parar, sendo quase certo que, pelo menos, nos EUA, Donald Trump dificilmente deixará de ser reeleito?
Nem sempre subscrevo as opiniões de Daniel Oliveira. É o bom de ainda vivermos em democracia: podemos concordar (é o caso),
discordar, sem pertencer a lugar nenhum onde nos queiram confinar. Certo, uma
excepção, talvez, para aquilo a que chamamos lar, que será sempre mais do que
casa. Adiante. Referia-me ao juízo sobre o Novo-Velho Banco, esse que
apelidaram de Bom e, ainda assim, ninguém quis, até o Governo oferecer as carnes
tenras em saldo e aceitar roer os ossos, se sobrassem. Se sobrarem.
Já me explicaram que nada poderia ter
sido feito de maneira diversa. Desde o princípio do fim que era sobejamente
sabido que os abutres – chamam-lhes assim e diz quem sabe que não será por
acaso – tudo fariam para rapar com gula o fundo da resolução, resolutamente,
sem remorsos nem espasmos de consciência, essa coisa de que apenas padecem os idiotas. E que, se não fosse assim, não seria de outra maneira, ninguém se
sentaria no banco, mesmo no Bom, que, do Novo, já ninguém se fiava, salvo-seja,
ainda o Mau mal abalara. E que não há direito a qualquer escândalo no pagamento
de dividendos a gestores que gerem coisas – parece que instituições bancárias e
outras de igual nível – que somam prejuízos como quem come cerejas, uma atrás
da outra, sem palavra que lhes valha, mas dotados de competente génio, capazes
de progressos admiráveis que não se convertem instantaneamente em ouro (excepto para os próprios), mas que
cumprem objectivos como quem toma hóstias: com devoção e fé num bem maior, ou
Bom, que se aguente. E aguenta. Haja fundos que nunca falham a quem percebe da coisa. Não merecem, portanto, ver as suas expectativas
defraudadas, ora essa. Exigir o contrário, pensá-lo apenas, é sacrilégio
populista. Não se admite. E o que dizer do aumento de 75%, mais coisa, nunca menos coisa, da remuneração base desses competentíssimos gestores de topo, (o que se podia fazer com isto, e não me refiro ao dinheiro) logo ali ao lado dos muitos milhões de euros de prejuízos? Nada. Não se pode. Pior que o populismo, só a inveja. Ou
o asco, de vermos como nos deixamos ludibriar sem um arrepio. “Nos”, nós, todos.
Portugueses, Povo, População, Estado. Menos aqueles que também chafurdam no poço fundo das várias resoluções que vão alimentando a orgia do gozo que é fazer bons negócios com timbre de estado, assim, em minúsculo como apraz a quem
deve dar de mamar, perdão, de comer, e calar.
Pode ser tudo muito legal, inevitável, o
mal menor, mesmo que nos tenham garantido que o Mau já não pesava na balança da
afronta. Pode ser. Mas, como muito bem escreveu Ana Sá Lopes, não deixa de ser
um escândalo. Fosse isto um penalti roubado a um dos outros donos disto tudo - ou um frango, mas dos mal metidos em baliza alheia - e era ver a indignação vertida em horas e horas de programas de comentário e análise…
J.K. Rowling escreveu um tuite onde
confessa jamais ter pousado os pés, os olhos que fosse, e não foi, na famosa e
fabulosa livraria Lello, no Porto, onde viveu durante ainda não percebi se dois se dez anos; é irrelevante para o mito que se estraçalha. E depois de espetar a faca à traição,
torceu-a com deleite, maquiavelicamente, afirmando que esse espaço, com que se
maravilha quem lá entra pela primeira e por todas as outras vezes, “não tem
nada a ver com Hogwarts”. Diz-se que os fãs, desenganados, lambem as feridas,
aturdidos com a má nova. Há, inclusive, quem, em agravado e pesaroso negrume, confesse
ter visitado o Porto com o propósito único, mágico, de peregrinar naquela, até ao
golpe de imisericórdia, exuberante e mítica livraria e, agora, coitados!, vêem-se rasgados
do laço que os unia ao imaginário de galgar escadas irrequietas,
rangendo à vontade de treliças endiabradas, embalando degraus de encantamento maciço varrido num
ápice, que é como quem diz, num tuite, a frio, para debaixo dos tapetes que também não existem, como
convém num mundo de faz-de-conta, mas isso já se sabia.
Não sei o que me atormenta mais. Se o
desgosto de saber que Harry Potter nada deve à livraria da minha juventude, ali
mesmo ao lado da velhinha Faculdade de Ciências (já não) onde passei tantas horas de
júbilo e outras de dor, se o facto de perceber que alguém pôde viver no Porto,
ser casada com um local, aí gerar e parir uma filha, e nunca ter entrado na Lello & Irmão. Por acaso até
sei. Do tormento maior, digo. Ainda assim, não se explica tal injúria.
A Joanne Rowling não fará falta o tempo
que não passou na magnífica livraria. Afinal, sempre chegou a escrever no
Majestic (tomai lá uma aspirina, seres incautos, e comei, ou bebei, ou o que a vossa fantasia ditar) e imaginou até um ambicioso e maquiavélico Salazar Slytherin, encantador
de serpentes, ou lá o que é. E a Lello & Irmão permanecerá, igualmente, esplendorosa,
sem necessidade de artifícios nem encantamentos outros que não os que já a
elevavam à categoria de uma das mais belas livrarias do mundo. Sabemo-lo todos,
as gentes do Porto, ainda Potter não era Potter, nem precisava, ao contrário de Rowling que não era Rowling e fazia-lhe falta. Talvez eu possa
voltar a visitá-la, agora, à livraria única, sem filas de aspirantes a feiticeiros despojados da
arte de pasmar com a realidade que se desnuda diante dos seus olhos, em lhes
faltando a epístola e varinhas de condão. Como os eterna e permanentemente
insatisfeitos, incapazes de admirar a bela amante que se lhes oferece, real e sem
subterfúgios, porque se lhes tomou a mente de delírios imaginários e
imaginados. Há enguiços que não se quebram, e bruxos que não aprendem.
E, só para que conste, mantenho as minhas
dúvidas sobre se a origem das escadas de Hogwarts se fica a dever
exclusivamente à imaginação de Joanne...
O trocadilho do título é fácil de fazer.
Mais difícil é gerir o equilíbrio que o trocadilho nos atira à cara, todos os
dias, descarado, ali mesmo, lado-a-lado com a máscara, no distanciamento social possível, desejado e desejável. Redentor, como se (des)espera.
Enquanto puder, recusar-me-ei a usar uma
máscara elegante, bonita, estilizada, colorida, às florzinhas, com receio de que a anormalidade me leve
mais do que o estritamente necessário para atravessar a tormenta. Aguentarei o
desconforto, as marcas na cara e a dor miudinha atrás da orelha latindo
queixumes abafados e monocórdicos. Será sempre nada ao lado do esforço de
outros.
Acaba de largar uma bomba. Outra. Goste-se ou não
do estilo, Ana Gomes já provou do que é capaz. É uma boa notícia para a
democracia e, possivelmente, uma dor de cabeça para António Costa. É bem provável
que o país precise de ambas.
Além disso, vai ser muito interessante ouvir que causas
destapará Júdice, que loucuras congeminará até terça-feira, agora que se
converteu numa espécie de entertainer com laivos de aristocrata, da SicNotícias. Já ali ensaiou a rábula
da Ana e do André, entre gémeos e siameses, agastado com as
críticas da mulher malcriada e perigosa para a democracia, na sua
doutíssima opinião. Em elegância, já viu melhores dias. E não sei por que razão me terei lembrado disto.
Desses que mexem, agora, com a
nossa (a)normalidade. O do agoirento vírus do nosso confinamento e o do Bruno
Nogueira, na forma de um programa de que só tive conhecimento a título póstumo.
Inacreditável. Às vezes, parece que vivo uma (e numa) realidade paralela.
Bruno Nogueira não faz parte do meu
imaginário humorístico. Aparentemente, nem sequer da minha realidade do género, desse ou de outro. Ouço-o, ocasionalmente, no carro, quando
sintonizo a TSF, brandindo o seu Tubo de Ensaio, que também já teve data de termo, mas lá vai sobrevivendo e bem. Rio, aprecio a inteligência, o
trocadilho infame, por vezes, e a coisa fica por ali. Não sou particularmente
sensível ao humor feito de vernáculo; porque não, simplesmente, sem melindres,
falsos pudores, muito menos, apopléticos assomos de escândalo. Mas tal não justifica
que nem tivesse, sequer, ouvido falar do programa. Ou lido. E não faltam,
percebi depois, notícias sobre o bicho, inclusive, em jornais que consulto a
diário. Enfim, o confinamento terá também razões que a própria razão desconhece
e, possivelmente, nem aprova. E eu não tenho Instagram.
Nesse mesmo dia, perdi outro momento
generoso: aquele em que Eunice Muñoz decidiu participar na construção da
memória que há-de unir, por anos vindouros e mais amenos, espero, os milhares
de fãs desse caprichoso bicho que, não só ainda mexe, como promete deixar sequelas. Afinal, como o seu gémeo mau. Mais ou menos, que, desse, poucos sentirão a falta.
Há-de ser sempre incompreensível para a
generalidade das pessoas os motivos que levam um pai ou uma mãe a cometer tal
acto de violência sobre um filho. Não raras vezes, pelo contrário, há vizinhos
e amigos a garantir a pacatez, a afabilidade, a normalidade, enfim, dos
supostos agressores. Percebe-se, por isso, a curiosidade – algo mórbida,
eventualmente – que possa suscitar a notícia (infelizmente, mais uma, até à
próxima) da morte de outra menina, ao que parece, às mãos do pai. O que se
dispensava era a pornografia jornalística em torno do tema, com directos em
cima de directos para repetir ad nauseam os contornos da tragédia, tentativas
de esclarecimento sobre o exacto local da morada dos suspeitos, conferências de
imprensa com direito a perguntas que nada de importante visam aclarar para a
opinião pública, apenas servir o espectáculo mediático e saciar a sede dos que
gozam com a degradação da condição humana; em ambos os casos, uma indecorosa usurpação
e manipulação do direito a informar e a ser informado.