quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

2+2=5

Sempre que revejo as imagens do assalto ao Capitólio, naquele espantoso 6 de Janeiro, sou invadida pelo mesmo assombro. Um pouco como quando vi cair as Torres Gémeas, com a devida distância, até porque, na altura, como tantos, estava a ver em tempo real como o segundo avião apontava à segunda torre: estava ali e, ainda assim, era irreal; surreal.

A colagem do olhar de Orwell – Eric Arthur Blair, já não me lembrava que George Orwell era Eric Arthur Blair – sobre a actualidade não é original. O documentário de Raoul Peck reinscreve-se numa retórica orwelliana do presente que circula há décadas, não raras vezes de forma abusiva e exaustiva, por ambos os lados do conflito. Mas é verdade que nunca me pareceu tão fiel. É intimamente violenta e arrumada a forma como Raoul Peck se dedica a compaginar o mundo recente, com particular espanto para a degradação acelerada dos regimes democráticos que, levianamente, demasiados considerávamos, não invioláveis, mas suficientemente resistentes. Um dia de amor, foi como Donald Trump classificou aquela investida, e este seu segundo mandato é todo um tratado sobre como a inversão objectiva da realidade deixou de ser um ensaio distópico dactilografado à mão numa ilha da bela Escócia para se tornar um método de governação. A corrupção da linguagem ao serviço do poder – expediente reservado aos piores ditadores ou a líderes espirituais daquelas seitas manhosas – elevado agora à expressão pura de liberdade.

Prestar vassalagem.

Rebanhos são os outros.

Nem só de Trump vive o documentário, nem sei se é exactamente um documentário e houve quem tivesse saído antes do fim; eu não conhecia nada do realizador, mas dei o meu tempo  são quase duas horas de filme – por recompensado.




sexta-feira, 23 de janeiro de 2026


“Hoje cometi um acto desprezível. Matei esta gaivota. E agora deponho-a a teus pés.”

                                             Anton Tchékhov, A Gaivota


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Senilidade e Bom Senso

Dizem que Donald Trump está senil. Não faço ideia. Para mim, é apenas um traste, com todos os apensos: narcisista patológico, ridiculamente vingativo, doentiamente invejoso, quase psicopata e, não acumulasse com uma cobardia soez, perfeitamente capaz de arrancar a cabeça a alguém por puro prazer. Senil estava (ou está) Joe Biden de uma forma, simultaneamente, mais evidente e mais moderada; talvez a senilidade seja menos compassiva com os mais canalhas. Podíamos pensar que os EUA estão há cinco anos, pelo menos, a mando de dois perturbados mentais, mas, provavelmente, erraríamos por defeito. E eu simpatizo com Biden.

Não devia, mas espanta-me que quem se diz democrata possa apoiar tão fervorosamente alguém como Donald Trump; ou, a propósito, alguém como André Ventura, com as devidas distâncias, porque até para ser traste se impõem certos pergaminhos que, por muito que ensaie e tente, Ventura não tem. Quase percebo melhor quem presta reverência ao presidente dos EUA: se a ideia é corromper, subverter a ordem vigente, prefira-se o original. Mas não se digam democratas. Também não sinto a minha democracia particularmente violentada pelo facto de Luís Montenegro recusar dizer se apoia ou não a candidatura de José Seguro a Presidente desta despedaçada República: o que seria, além de tudo o resto, andar mais duas ou três semanas a ouvir o líder espiritual do Chega a vangloriar-se de ter o país inteiro ou quase contra si, na pessoa do primeiro-ministro. Dispenso. Para mim a escolha é muito fácil: se é de nojo que se trata, o socialismo de José Seguro enoja-me menos.


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Ana Margarida de Carvalho

Neste momento, está no topo das minhas escritoras portuguesas vivas. Até dos títulos à António Lobo Antunes eu gosto – Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato, O Gesto que Fazemos para Proteger a Cabeça, Que Importa a Fúria do Mar e A Chuva que Lança a Areia do Saara. Estou neste, que não é bem um romance, mas é muito como eu gosto. Quem disse que escrever bem é descomplicar, dizer muito de forma linear e limpa, sem gorduras adverbiais, adjectivais e outras neuras que tais? A não ser que se pretenda expor resultados eleitorais, discorrer sobre a incapacidade de Montenegro apagar do rosto aquele sorriso cínico, permanente (quem o visse e não o ouvisse, ontem à noite, julgaria vitoriosa a sua aposta em Marques Mendes), explicar que não é seguro que Seguro venha a derrotar André Ventura, a escrita quer-se – quero-o eu, pelo menos – tumultuosa e densa, às vezes afiada e fria como um fio de navalha, outras, incandescente como a pele antecipando o toque. É assim, a de Ana Margarida de Carvalho: ritual, labiríntica, e, até quando cristalina, reflecte-se sobre si mesma, camada sobre camada. Palavras que exigem presença, corpo, o próprio silêncio suspenso sobre as sílabas. Nada disso cabe na assepsia de uma linha funcional.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Do Meu Quarto com Vista

Não sendo uma fanática defensora do ambiente, faço os possíveis por cumprir os mínimos: recolho e separo o lixo, evito o desperdício e não sou propriamente consumista – com excepção de livros, já se sabe; e material de escrita, dos cadernos às canetas de tinta permanente, outro pequeno vício. Sou, claro, bastante imperfeita. Apago as luzes, mas posso manter o aquecimento ligado e a janela entreaberta; gosto do choque do ar frio que penetra o calor morno do quarto. Tomo duche em vez de encher duas banheiras, mas demoro-me escandalosamente a ouvir o tamborilar da água quente sobre a porcelana branca, a corrente macia sobre a minha pele, o cheiro inebriante do meu sabonete preferido, pequenas nuvens de espuma entre os dedos da minha mão. Estou num décimo quarto andar, sem prédios em frente, e pela janela ampla da casa-de-banho ergue-se um arco-íris perfeito, a luz refractada em cores absurdamente marcadas, impecavelmente curvilíneas. Uma das mais simples e harmoniosas manifestações da física. É tão, tão bonito.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

2026, ou a Geopolítica do Caos

Ai, mi barbie, y esa cara más guapa…

À porta do Alcázar a cigana oferece-me um raminho de alecrim; quer ler-me a mão, presumir sobre o advir. Tem as mãos grossas, telúricas, não quero que toque nas minhas; não quero o raminho de alecrim; sobretudo não quero previsões ou antevisões que distorçam os meus momentos de paz. Dois mil e vinte e seis já me esmurrou. Além disso, daí a poucos dias vou regressar ao mundo dos vivos para saber que morreu Brigitte Bardot (Deus criou a mulher para criar a Brigitte Bardot), que os EUA sequestraram a Venezuela – ou o demiurgo Donald Trump sequestrou o ditador Nicolás Maduro, o que não me parece muito diferente –; que aquela América se tornou um Estado semi-terrorista que caça imigrantes e mata activistas com a graça do presidente; que, em Portugal, pelo menos mais duas pessoas morreram à espera do socorro do INEM, mas a ministra não pediu nem pede para sair e outro ministro, o primeiro, indigna-se à vermelhidão pela defesa da dama: saber do futuro para quê? Parei o tempo por uma causa maior: ficar onde estava, embrulhada no que me restava de ausência, sem desejo de ouvir o que teria a cigana para me contar.


Mas, por teimosia, Bom 2026...